A repescagem representa a última chance das seleções europeias se classificarem à Copa do Mundo. Depois de dez rodadas na fase de grupos, os oito sobreviventes não conseguiram terminar na liderança de suas chaves. Ainda assim, o segundo lugar concedeu uma oportunidade para se redimirem. Nos confrontos diretos, apenas o vencedor conseguirá carimbar o passaporte rumo à Rússia em 2018. Promessa de quatro jogaços.

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A repescagem é relativamente recente na história das Eliminatórias Europeias. Até 1954, existiram alguns confrontos diretos que valeram vaga na Copa do Mundo, em chaves de duas equipes. Já a partir de 1958, se tornaram comuns os jogos-extras na fase de grupos, em tempos nos quais os critérios de desempate em caso de igualdade de pontos eram mais restritos. No Mundial de 1986, o novo sistema foi adotado pela primeira vez. Já a partir de 1998, a repescagem se tornou corriqueira, com a redefinição no número de vagas para o Mundial, passando a 32 equipes.

Abaixo, relembramos 10 jogos marcantes da repescagem na Europa. Partidaças para viajar no tempo e relembrar grandes equipes.

Copa do Mundo de 2014 – Portugal x Suécia

Duelo de Titãs, Encontro de Lendas, Batalha de Deuses. Chame do que você preferir. Fato é que a repescagem para a Copa de 2014 promoveu um dos confrontos mais pesados de toda a história das Eliminatórias. Cristiano Ronaldo e Zlatan Ibrahimovic, sem qualquer sombra de dúvidas, estavam entre os melhores jogadores do mundo. Mais do que isso, tinham um significado gigantesco para as suas seleções. Mas os descaminhos da fase de grupos permitiriam que apenas um seguisse ao Brasil. No final das contas, aquele encontro acabou sendo decisivo até mesmo para a definição da Bola de Ouro.

A Suécia não teve muitas chances no Grupo C, o mesmo da Alemanha. Passou longe de alcançar o Nationalelf no topo da tabela, apesar dos jogos malucos nos confrontos diretos: um 4 a 4 em Berlim, que tinha começado como 4 a 0 para os germânicos, e um 5 a 3 em Solna, pela última rodada, desta vez com o time de Joachim Löw buscando a virada, após começar com dois gols de desvantagem. De qualquer maneira, a Alemanha já estava garantida na Copa naquele momento, enquanto a Suécia se contentava com a repescagem, após terminar à frente de Áustria e Irlanda.

Portugal teve um pouco mais de esperanças em buscar a vaga direta. Seu grande adversário no Grupo F era a Rússia. A derrota em Moscou e os pontos perdidos em algumas partidas em casa, de qualquer maneira, minaram as chances dos Tugas. Na última rodada, precisavam de uma derrota russa diante do Azerbaijão e de uma goleada na visita a Luxemburgo. Não aconteceu. Também foram para a repescagem. E, se escaparam da França no Pote 2, a bolinha não foi tão benevolente assim, com a Suécia se colocando em seu caminho.

O primeiro jogo, em Lisboa, foi um pouco mais morno. A Suécia teve as melhores chances durante o primeiro tempo no Estádio da Luz, mas parou nas boas defesas de Rui Patrício. Portugal intensificou a pressão a partir da etapa final, mas esbarrava no esforço defensivo dos escandinavos. O gol da vitória por 1 a 0 saiu apenas aos 37 do segundo tempo, em cruzamento de Miguel Veloso para Cristiano Ronaldo completar de peixinho. E o camisa 7 por pouco não ampliou na sequência, carimbando o travessão. O placar magro deixava os suecos vivos para a Friends Arena.

Então, aconteceu a apoteose em Solna. Um dos melhores jogos as Eliminatórias, e com o protagonismo concentrado entre os dois craques em campo. O primeiro tempo teve mais cautela das duas partes, com a Suécia dominando a posse de bola, mas Portugal ameaçando nos contra-ataques e nas bolas paradas. Entretanto, o tempo sufocava os escandinavos, que partiram para cima na volta do intervalo. O segundo tempo começou em alta voltagem, com Andreas Isaksson e Rui Patrício fazendo defesaças. E logo aos cinco minutos, Cristiano Ronaldo abriu o placar, após lançamento primoroso de João Moutinho para que o artilheiro partisse em velocidade e fuzilasse.

A Suécia não se deu por vencida. Aos 22, Ibrahimovic iniciou a reação, empatando de cabeça, após escanteio. E a virada aconteceu aos quatro minutos depois, em bomba do centroavante cobrando falta. Neste momento, a classificação ainda era de Portugal, mas ninguém duvidava do embalo dos suecos por mais um gol, empurrados por sua torcida. Isso até Cristiano Ronaldo reaparecer. Aos 32, em mais um lançamento em profundidade, ele fez o segundo em arremate rasteiro. “Eu estou aqui” era o que ele dizia na comemoração, sob fortes vaias. Por fim, aos 34, o gol que se tornou lendário. Em mais uma bola magistral de João Moutinho (outro que merece mais créditos pela partidaça que fez naquela noite), o craque passou por Isaksson e colocou a Seleção das Quinas na Copa. Todos os jogadores se amontoaram sobre o autor da tripleta.

Copa do Mundo de 2014 – França x Ucrânia

Há um peso simbólico neste confronto das Eliminatórias. Afinal, não se entende a ascensão da seleção francesa nos últimos meses sem passar por ele. Os Bleus vinham de uma crise, sobretudo nos vestiários, ao longo dos anos anteriores. As brigas envenenaram o ambiente na Copa de 2010 e também atrapalharam a campanha na Euro 2014. Os resultados não eram bons, com a pressão enorme sobre Didier Deschamps. Até que a necessidade que se criou na repescagem revigorasse o espírito da equipe.

A França, independentemente das estrelas que pudesse escalar, não conseguiu superar o desafio direto com a multicampeã Espanha no Grupo I das Eliminatórias. Perderam em casa para a Fúria, com um tento de Pedro, o que atrapalhou qualquer ambição de ficar com a vaga direta. Já a Ucrânia por pouco não cometeu o crime para cima da Inglaterra. Em uma chave que também contava com Montenegro e Polônia, ficaram a apenas um ponto dos Three Lions. Não fosse o empate contra os favoritos em Kiev ou os tropeços no início da campanha, especialmente o empate fora de casa com a Moldávia, dava para ter sorte melhor.

O primeiro jogo, no Estádio Olímpico de Kiev, terminou em pesadelo para a França. A Ucrânia venceu por 2 a 0, em dois tentos anotados na etapa complementar. Roman Zozulya abriu o placar em uma bobeira da defesa, enquanto Andriy Yarmolenko ampliou após pênalti desnecessário. E se a situação não parecia lá muito boa, ficou pior quando Laurent Koscielny acabou expulso, virando desfalque para o reencontro no Stade de France. Os Bleus precisavam de uma virada inimaginável por aquilo que se via no momento.

Porém, o Saint-Denis se transformou para aquela noite decisiva. Dezenas de bandeiras se espalharam pelas arquibancadas. A Marselhesa foi cantada com força por torcedores e até mesmo pela maioria dos jogadores. Aquela seleção, quase sempre desunida, trabalhou forte como equipe para conseguir a virada necessária. Venceu por 3 a 0, quando poderia ter feito até mesmo mais gols. Em meia hora de jogo, o placar estava devolvido, com gols de Karim Benzema e Mamadou Sakho. Já o tento da classificação veio aos 26 do segundo tempo, mais um de Sakho – justamente o substituto de Koscielny. A França melhorou como conjunto a partir de então, fazendo campanha bastante digna no Brasil.

Copa do Mundo de 2010 – França x Irlanda

Não existe jogo mais emblemático quando se fala de repescagem na Europa. Afinal, não há quem se esqueça do toque de mão de Thierry Henry, que possibilitou a classificação da França à Copa do Mundo de 2010. E muito menos de toda a revolta que o lance causou, com a Irlanda tentando usar todos os recursos possíveis para tentar impugnar o resultado. Não teve efeito. Ao final, a Fifa ratificou o ocorrido e, pouco depois, introduziu o inútil assistente de linha de fundo – que, talvez, não resolvesse o imbróglio mesmo assim. Carregando uma antipatia imensa, os Bleus naufragaram cedo no Mundial da África do Sul.

A França tinha sido vítima de sua própria incompetência no Grupo 7. Estava em uma chave relativamente acessível, em que a Sérvia parecia o maior problema. Os dois empates contra a Romênia e a derrota em Viena para a Áustria cobraram seu preço, especialmente quando os Bleus caíram diante da Sérvia no Marakana. Por um ponto, ficaram em segundo. Já a Irlanda não teve tantas esperanças assim no Grupo 8, bem atrás da Itália. A repescagem era uma segunda chance aceitável para o elenco bastante experiente.

O próprio sorteio do confronto já gerou polêmica, com a Fifa adotando em cima da hora o sistema de potes, que safava as “seleções maiores” (entenda-se: França e Portugal) de se enfrentarem. Os Bleus, de qualquer maneira, não teriam um jogo fácil diante da Irlanda de Giovanni Trapattoni. E até saíram aliviados do primeiro jogo, realizado em Dublin. Venceram por 1 a 0, graças a um chute desviado de Nicolas Anelka, aos 27 do segundo tempo.

O pandemônio aconteceu no reencontro, dentro do Stade de France. Os Bleus não conseguiram segurar a sua vantagem e perderam por 1 a 0 no tempo regulamentar. Em jogo bastante amarrado, o gol irlandês saiu aos 33 minutos, graças a boa jogada de Damien Duff para Robbie Keane fuzilar dentro da área. O problema viria na prorrogação. Aos 13 minutos do primeiro tempo extra, Florent Malouda cobrou uma falta em direção à área. Henry não iria alcançar, mas dominou com o braço para evitar que a bola saísse pela linha de fundo e cruzou para William Gallas completar na pequena área. A revolta dos irlandeses foi gigantesca, com cinco jogadores de linha levantando o braço para reclamar da irregularidade e o goleiro Shay Given partindo para cima do árbitro Martin Hansson. Nada que alterasse a decisão. Ao final, o empate por 1 a 1 levou os franceses à África.

O imbróglio, obviamente, não parou por ali. A Irlanda entrou com um apelo formal junto à Fifa para que a partida fosse invalidada, diante da admissão do erro por diversos personagens envolvidos no lance. Além disso, citava o precedente que havia acontecido em 2005, durante partida entre Bahrein e Uzbequistão nas Eliminatórias, quando o jogo foi anulado por uma decisão da arbitragem – que marcou tiro livre indireto para os barenitas após uma cobrança de pênalti para o Uzbequistão, na qual foi flagrada a invasão de um atacante uzbeque na área. A entidade internacional, porém, não aceitou o protesto, assim como a federação francesa ignorou os apelos para “proteger a integridade do esporte” com um reencontro. Ao final, a federação irlandesa enviou uma série de propostas à Fifa, entre elas o árbitro adicional e o uso da tecnologia, bem como a inclusão do país como um participante extra na Copa do Mundo. Só as duas primeiras acabaram aplicadas.

Copa do Mundo de 2006 – Turquia x Suíça

Turquia e Suíça são dois países próximos, ao menos no futebol. Alguns dos principais jogadores da seleção suíça a partir da década de 1990 possuem origem turca. No entanto, quando os dois países se encontraram em 2005, lutando por uma vaga na Copa do Mundo, não se viu tal irmandade. A partida em Istambul terminou em pancadaria, culminando até mesmo em uma investigação da Fifa. Nada que interrompesse o caminho dos alpinos rumo ao Mundial da Alemanha.

A Suíça vinha de uma campanha truncada no Grupo 4. Saiu invicta, mas com seis empates em dez jogos, vencendo apenas seus compromissos diante do Chipre e das Ilhas Faroe. Ainda assim, acabou a apenas dois pontos da aclamada França. A Turquia também ficou a dois pontos da vaga direta no Grupo 2, enfim premiando a Ucrânia, mas não podia reclamar da sorte em uma chave dificílima. Os semifinalistas de 2002 acabaram à frente da Dinamarca e da Grécia, campeã da Euro 2004 e eterna rival. A confirmação na repescagem veio apenas na última rodada, derrotando a Albânia em Tirana. Mal esperavam pela nova batalha que viria pela frente.

O primeiro jogo aconteceu no mítico estádio Wankdorf, em Berna. E a Suíça construiu belíssima vantagem, ao vencer os turcos por 2 a 0. Philippe Senderos abriu o placar no final do primeiro tempo, a partir de uma cobrança de falta em direção à área. Já o gol decisivo aconteceu graças a um contra-ataque, nos instantes finais da segunda etapa, completado por Valon Behrami. Vitória importante para encarar o caldeirão no Estádio Sükrü Saraçoglu, escolhido para o reencontro justamente pela atmosfera que poderia proporcionar aos turcos.

Logo aos 23 segundos, a Turquia levou um banho de água fria. O árbitro marcou um toque de mão dentro da área e Alexander Frei converteu o pênalti, abrindo vantagem para a Suíça. Mas os anfitriões conseguiram reagir e ainda sonhavam com a classificação. O nome daquela noite foi Tuncay Sanli, que comandou a virada no primeiro tempo, com dois gols. Logo no início do segundo tempo, Necati Ates fez o terceiro gol turco cobrando pênalti. Mas, a cinco minutos do fim, um contra-ataque seria fatal aos anfitriões: Marco Streller anotou o segundo dos suíços. Neste momento, a Turquia precisava de dois gols. Tuncay completou sua tripleta aos 44, mas os 4 a 2 no placar eram insuficientes. Pelos gols fora de casa, os alpinos carimbaram o passaporte.

Então, a confusão tomou conta do túnel, onde as equipes saíam para os vestiários. Segundo os jogadores suíços, eles foram atacados não apenas pelo elenco turco, mas também por policiais. O reserva Stephane Grichting precisou ser encaminhado para o hospital, após tomar um chute no estômago. Na primeira partida, a Turquia reclamou do tratamento que recebeu em Berna e acusou Alexander Frei de fazer gestos obscenos para provocá-los. Já a Suíça se indignou com a demora nos procedimentos durante o desembarque em Istambul, assim como com os ataques ao seu ônibus, atingido por pedras e ovos atirados por torcedores. Ao final, os suíços estiveram na Copa e os turcos precisaram disputar seus três primeiros jogos nas eliminatórias da Euro 2008 em Frankfurt, com portões fechados.

Copa do Mundo de 2002 – Alemanha x Ucrânia

A Alemanha costuma ser um dos leões de Eliminatórias. Em toda a sua história na competição, os germânicos sofreram apenas duas derrotas. A mais dolorosa delas às vésperas do Mundial de 2002, que forçou o país a disputar a repescagem. E os germânicos teriam um adversário duro, considerando o momento da Ucrânia, especialmente pela fase de Andriy Shevchenko no Milan. Contudo, na hora do aperto, o time de Rudi Völler pegou embalo.

O problema da Alemanha no Grupo 9 se chamava Inglaterra. Os germânicos até começaram bem na campanha, derrotando os ingleses em Wembley durante a segunda rodada. Mas o aviso da queda viria com o sofrido empate em Helsinque contra a Finlândia, em noite na qual os nórdicos fecharam o primeiro tempo vencendo por dois gols de vantagem. Já no reencontro com os Three Lions, no Estádio Olímpico de Munique, o desastre: goleada por 5 a 1 dos visitantes, com três tentos de Michael Owen. Os alemães ainda tiveram sua chance de assumir a liderança, chegando à última rodada empatados com os britânicos. Empataram por 0 a 0 em Gelsenkirchen com a Finlândia, enquanto a Inglaterra buscou o empate contra a Grécia por 2 a 2 aos 48 do segundo tempo, graças ao histórico gol de falta de David Beckham. A Ucrânia, por sua vez, não foi tão competitiva no Grupo 5, com a Polônia se confirmando na Copa por antecipação.

Apesar de sua tradição, a Alemanha tomou os seus sustos. O primeiro jogo aconteceu no Estádio Olímpico de Kiev, diante de 83 mil torcedores vestidos uniformemente de amarelo. E os anfitriões saíram em vantagem aos 18 minutos, em cobrança de falta que sobrou para Hennadiy Zubov encher o pé, no mano a mano com Oliver Kahn. Ao menos os germânicos não demorariam a responder. Depois de um gol mal anulado pela arbitragem, Michael Ballack empatou aos 31, escorando ao gol vazio após cruzamento da direita. O empate por 1 a 1 deixava o cenário aberto para a partida de volta, marcada para o Westfalenstadion, onde o Nationalelf teria o seu próprio caldeirão.

E a pressão imposta pela Alemanha não deu chances à Ucrânia de Valeriy Lobanovskyi. O jogo seria resolvido em apenas 15 minutos. Ballack abriu o placar de cabeça aos quatro, Oliver Neuville aproveitou um rebote aos 11 e Marko Rehmer anotou o terceiro em mais uma bola aérea. O golpe de misericórdia aconteceu na volta do intervalo, na segunda testada certeira de Ballack. Por fim, o gol de honra dos ucranianos aconteceu aos 90, com Shevchenko finalmente aparecendo, ao driblar Kahn antes de tocar para a meta vazia. A vitória por 4 a 1 levou os alemães à Coreia e ao Japão sob questionamentos, mas com sede de se provar na fase final do Mundial.

Copa do Mundo de 2002 – Bélgica x República Tcheca

Neste momento, a República Tcheca era incensada como uma das seleções mais interessantes da Europa. Não tinha sobrevivido na Eurocopa, em um grupo diante de França e Holanda, mas possuía algumas estrelas e jovens talentos. Era a “promissora geração” da vez. Enquanto isso, a Bélgica também possuía seus jovens, mas a impressão era de fim de feira, em um time que já havia feito muito mais nas duas décadas anteriores. Pois os Diabos Vermelhos se impuseram de maneira inapelável rumo ao Mundial de 2002.

A Bélgica tinha falhado na última hora para ficar com a vaga direta do Grupo 6. Chegou à rodada final na primeira colocação e precisava apenas de um empate na visita à Croácia, em Zagreb. Acabaram relegados à repescagem, graças ao gol de Alen Boksic aos 30 do segundo tempo, decretando a classificação dos croatas. Já a República Tcheca demorou a engrenar no Grupo 3. Durante a última rodada, enfiou 6 a 0 diante da Bulgária, com dois tentos de Tomas Rosicky e outros dois de Pavel Nedved. Mas a Dinamarca aplicou uma goleada similar à Islândia, selando a classificação.

A situação da República Tcheca começou a se complicar logo na ida, em Bruxelas. Aos 28 do primeiro tempo, uma bola alçada na área sobrou para Gert Verheyen, sozinho, e o veterano não perdoou. Os tchecos chegaram a ter o empate salvo em cima da linha, mas viram suas esperanças se esvaírem quando Tomas Repka recebeu o cartão vermelho ainda no primeiro tempo. Apesar da derrota por 1 a 0, haveria a volta em Praga, onde a equipe havia sobrado na fase de grupos.

Todavia, os planos não saíram conforme o esperado para a República Tcheca. Poborsky e Nedved chamavam a responsabilidade, com a equipe bombardeando a área da Bélgica, mas sentiam falta de Jan Koller, outro suspenso. Abnegados, os belgas seguraram o placar zerado e sacramentaram a classificação aos 40 do segundo tempo. Ausente na ida por lesão, Marc Wilmots saiu do banco e converteu o pênalti que confirmou a vitória por 1 a 0. Nos últimos instantes, os tchecos ainda perderam Nedved e Baros, ambos expulsos com o segundo amarelo. Precisariam esperar até 2006 para terem sua chance em Copas.

Copa do Mundo de 1998 – Itália x Rússia

Vice-campeã do mundo em 1994, a Itália possuía uma série de grandes jogadores, mas não vivia o ciclo mais empolgante. A decepção mais recente havia acontecido na Euro 1996, quando os azzurri caíram na fase de grupos. Já a Rússia não intimidava muito, derrotada pelos próprios italianos no torneio continental. Para o reencontro na repescagem, as intempéries da estação causaram impacto, especialmente pelo jogo sob neve em Moscou.

Calejada pela sofrida classificação à Copa de 1994, a Itália perdeu para si mesma no Grupo 2 das Eliminatórias de 1998. Chegou a derrotar a Inglaterra em Wembley, mas os empates contra Geórgia e Polônia custaram pontos importantes. Na rodada final, os azzurri precisavam vencer os Three Lions no Estádio Olímpico de Roma. Amargaram o empate por 0 a 0, que confirmou a vantagem de um ponto dos britânicos e relegou o time de Cesare Maldini à repescagem. Já a Rússia terminou na segunda colocação do Grupo 5, superada pela Bulgária, dando a vaga para os concorrentes ao perderem o confronto direto na penúltima rodada.

Em outubro, o frio já congelava Moscou. E a Itália precisaria encarar os russos no Estádio Dynamo com o gramado castigado pela neve. Enquanto a imensidão branca rodeava o campo, os jogadores eram obrigados a disputar a bola em um terreno completamente enlameado. Pois o destino pregaria uma peça nos azzurri – ou, dependendo do ponto de vista, seria providencial. Com meia hora de jogo, Gianluca Pagliuca se lesionou ao se chocar com Andrei Kanchelskis e precisou ser substituído. Seu reserva era Gianluigi Buffon, aos 19 anos, fazendo ali sua estreia pela equipe nacional. O garoto, já idolatrado no Parma, seria um dos protagonistas da partida.

Depois de cinco minutos em campo, Gigi seria desafiado por Dmitri Alenichev. Um chute colocado, no canto esquerdo inferior. Conseguiu espalmar a bola, produzindo o primeiro de seus muitos milagres com a camisa azzurra. Ainda no primeiro tempo, a Itália sairia em vantagem, graças a contra-ataque arrematado por Christian Vieri. Já o empate russo sairia no começo do segundo tempo, com Fabio Cannavaro mandando contra as próprias redes. Apesar do gramado escorregadio e pantanoso, Buffon transmitiu segurança para segurar a igualdade em 1 a 1 – como um pênalti de Vieri não marcado pela arbitragem que também incomodaria os russos.

Duas semanas depois, o clima era muito melhor no Estádio San Paolo, em Nápoles. Ainda sem Pagliuca, a Itália preferiu escalar um goleiro mais experiente, com a entrada de Angelo Peruzzi. E o arqueiro manteria sua meta invicta. Mais trabalho teve Sergei Ovchinnikov do outro lado. O russo operou dois milagres, mas não conseguiu salvar o chute rasteiro de Pierluigi Casiraghi, em ataque rápido, que determinou a vitória italiana por 1 a 0 aos oito minutos do segundo tempo. A festa realizada pelos napolitanos desde a recepção ao time, com direito a fogos de artifício e a bandinha, estava completa.

Copa do Mundo de 1998 – Croácia x Ucrânia

Não importava quem vencesse: a Copa do Mundo ganharia uma nova seleção a partir desse confronto. E uma seleção para se acompanhar de perto na França. Afinal, tanto Croácia quanto Ucrânia contavam com seus talentos, pouco depois de suas independências. Entre os croatas, brilhava a geração que se espalhou pela Europa depois da guerra nos Bálcãs, com tantos jogadores que perderam a oportunidade de se afirmar no cenário internacional durante os anos anteriores. Já os ucranianos permaneciam em seu país, com o Dynamo Kiev despontando entre as potências europeias e servindo de base ao técnico Yozhef Sabo.

A Croácia fez uma boa campanha no Grupo 1 das Eliminatórias, em chave equilibrada, com a presença de Grécia, Bósnia e Eslovênia. A pedra em seu sapato foi a Dinamarca. Sem vencer os escandinavos, os croatas terminaram a campanha dois pontos atrás. Já a proeza da Ucrânia no Grupo 9 foi barrar Portugal. A vitória sobre a Armênia na última rodada deixou os ucranianos um ponto acima dos lusitanos, embora não tenham conseguido alcançar a Alemanha, líder e classificada antecipadamente ao Mundial.

A Croácia construiu excelente vantagem logo no primeiro jogo, no Estádio Maksimir. O primeiro gol saiu aos 11 do primeiro tempo, em cobrança de escanteio completada por Slaven Bilic. Já na segunda etapa, Goran Vlaovic decretou a vitória por 2 a 0 ao puxar o contra-ataque e bater firme, sem chances para Aleksandr Shovkovskiy. Mesmo desfalcados por Alen Boksic, os croatas se impuseram e precisavam de pouco na visita à Ucrânia.

A confiança ainda se sentia no Estádio Olímpico de Kiev. Mais de 77 mil lotaram as arquibancadas para apoiar a seleção ucraniana. E ela se revigorou logo aos cinco minutos, em rebote de Marijan Mrmic que Andryi Shevchenko mandou para dentro. O atacante, aliás, vinha em excelente momento. Entre um jogo e outro da repescagem, destroçou o Barcelona na Liga dos Campeões, com uma tripleta diante dos blaugranas. No entanto, o sentimento de injustiça preponderou entre os anfitriões, depois de um tento anulado pela arbitragem. Já aos 27, de volta ao time, Boksic garantiu o empate por 1 a 1, com a colaboração de Shovkovskiy. A Croácia se encaminhava para a história no Mundial de 1998. Já os ucranianos nunca engoliriam aquele revés.

Copa do Mundo de 1998 – Iugoslávia x Hungria

Existia um sentimento de injustiça que permeava os jogadores da Iugoslávia na década de 1990. Afinal, uma guerra que não era necessariamente deles impedira a afirmação de uma geração especial. Em 1992, o time já estava na Suécia para disputar a Eurocopa quando recebeu a notificação que o Conselho de Segurança da ONU sancionara o país. Deram lugar à Dinamarca, eliminada por eles na qualificação, e que acabaria campeã. Depois, não puderam disputar as Eliminatórias para a Copa de 1994 e para a Euro 1996. A espera só terminou às vésperas do Mundial de 1998. E os iugoslavos descarregaram sua força sobre a Hungria na repescagem.

Adversária da Espanha no Grupo 6, a Iugoslávia fez ótima campanha, dona do segundo melhor ataque naquela etapa das Eliminatórias. Inclusive, não deu chances à República Tcheca, vice-campeã da Euro 1996 e sorteada na mesma chave. Mas os resultados nos confrontos diretos com os espanhóis não foram bons, rendendo a repescagem. A Hungria, por sua vez, não tinha uma equipe tão badalada. Mas no Grupo 3 nivelado por baixo, com a Noruega soberana, fizeram o suficiente para terminar à frente de Finlândia e Suíça.

O primeiro jogo aconteceu em Budapeste, no Estádio Üllői Úti, casa do Ferencvaros. Já fora de casa, a Iugoslávia não deixou pedra sobre pedra. Goleou por impiedosos 7 a 1. Com dez minutos, três gols dos visitantes. Branko Brnovic marcou o primeiro em belo chute, Miroslav Dukic ampliou após cobrança de escanteio e Dejan Savicevic anotou o terceiro após chamar o zagueiro para dançar. Então, começou o baile de Predrag Mijatovic, autor de uma tripleta. Aos 26, o artilheiro soltou a bomba no goleiro Szabolcs Safar. Repetiu a dose antes do intervalo, por cobertura. E faria o sexto de sua equipe no segundo tempo, partindo em velocidade. Savo Milosevic fechou o caixão, antes que Bela Illes fosse o Oscar da vez, descontando aos 44.

Já na volta, o responsável por completar o show foi Dragan Stojkovic, o capitão e jogador mais habilidoso de sua seleção. A Iugoslávia golearia por 5 a 0 em Belgrado, completando o inimaginável 12 a 1 no placar agregado. O camisa 10 cobrou falta para Savo Milosevic marcar o primeiro. Depois, seria o garçom de Mijatovic, autor de quatro gols na noite. Destaque para o quarto, em que Stojkovic fez uma belíssima inversão para Savicevic, antes deste deixar o artilheiro na cara do gol. Gelado diante do goleiro, deixou-o no chão antes de concluir. Os iugoslavos parariam nas oitavas de final da Copa do Mundo, ante a Holanda, mas fizeram por merecer as expectativas.

Copa do Mundo de 1986 – Bélgica x Holanda

Imagine um grande clássico para decidir uma das últimas vagas rumo à Copa do Mundo, entre duas seleções fortes. Aconteceu exatamente isso em 1986, na primeira edição da repescagem na Europa. A Bélgica estava com a Holanda entalada na garganta fazia 12 anos. Em 1973, na última rodada das Eliminatórias, os vizinhos se enfrentaram em Roterdã pela fase de grupos. O confronto direto valia a classificação ao Mundial da Alemanha, com a vantagem do empate beneficiando a Oranje, à frente na tabela. O placar zerado prevaleceu até os 89 do segundo tempo, quando os Diabos Vermelhos anotaram um gol, aproveitando a linha de impedimento mal executada pelos comandados de Rinus Michels. Incorretamente, o árbitro anulou o tento. Não fosse isso, a Laranja Mecânica não teria eclodido durante a Copa do Mundo de 1974.

Já na década de 1980, as duas seleções vinham em rotas distintas. A Bélgica tinha feito grande campanha na Copa de 1982, foi vice da Euro 1980 e esteve presente na Euro 1984. Era repleta de jogadores renomados no cenário continental, como Jan Ceulemans e Jean-Marie Pfaff. Já a Holanda se ausentara das competições internacionais desde a discreta participação na Eurocopa de 1980. Teria a oportunidade de retornar aos holofotes internacionais no Mundial do México, sob as ordens de Leo Beenhakker (substituindo temporariamente Rinus Michels, que precisou ser submetido a uma cirurgia cardíaca) e com alguns bons valores despontando, a exemplo do trio Ruud Gullit-Frank Rijkaard-Marco van Basten.

Enquanto os grupos das Eliminatórias Europeias com cinco seleções classificavam líder e vice à Copa de 1986, os segundos colocados das três chaves com quatro equipes se dariam mal. Precisariam encarar a repescagem. Foi justamente o que aconteceu com Holanda e Bélgica – enquanto a Escócia acabou no confronto intercontinental, diante da Austrália. Os belgas derraparam no Grupo 1, o mesmo da Polônia. Depois de uma surpreendente derrota para a Albânia, precisando vencer os poloneses em Chorzow, não passaram do 0 a 0 e terminaram atrás apenas pelo número de gols marcados. Já os holandeses sucumbiram diante da Hungria, três pontos atrás. Até derrotaram os magiares no último compromisso, em vitória fundamental para assumir a segunda colocação, à frente da Áustria no saldo. Mas o destino seria duríssimo.

A primeira partida aconteceu em Bruxelas. Num jogo nervoso, a Holanda se complicou à toa. Aos quatro minutos, Wim Kieft se estranhou com Franky Vercauteren  e o belga simulou uma agressão, rendendo o cartão vermelho ao holandês. E o próprio atacante assegurou a vitória por 1 a 0 dos Diabos Vermelhos, em belíssimo chute cruzado aos 20 minutos. Os belgas tiveram chances de ampliar, criando diversas oportunidades durante o restante do tempo, mas pecaram demais nas finalizações. O placar apertado mantinha as esperanças da Oranje.

O Estádio De Kuip estava abarrotado para o jogo de volta, realizado um mês depois, com mais de 50 mil nas arquibancadas. O frio era intenso naquele novembro de 1985, com grande parte dos jogadores usando proteções térmicas nas pernas. E o clima, tenso, com Vercauteren protegido por guarda-costas por onde fosse na cidade. Além de Kieft, Beenhakker precisou lidar com outro desfalque sentido: Marco van Basten recebeu o segundo amarelo, suspenso para o reencontro.

Quando a bola rolou, a Bélgica começou melhor, mas a Holanda tomaria as rédeas na volta do intervalo. Abriu o placar aos 15 do segundo tempo, graças a uma cabeçada firme de Peter Houtman. Já o segundo gol, que daria a vaga no Mundial naquele instante, aconteceu aos 27. Pfaff saiu mal em um cruzamento e a bola sobrou livre para Rob de Wit pegar na veia. Um defensor belga ainda tentou evitar o tento com a mão, mas não conseguiu. Neste momento, a torcida já começava a cantar sobre a viagem ao México. Os Diabos Vermelhos se agarravam as chances. Passaram a pressionar, exigindo grandes defesas de Hans van Breukelen. A cinco minutos do fim, por fim, saiu o gol da classificação. Após cruzamento da direita, Georges Grun (zagueiro improvisado no ataque por conta do desespero) marcou de cabeça. O gol fora de casa na derrota por 2 a 1 era suficiente para a classificação.

Após a partida, revoltado com a eliminação, Leo Beenhakker botou a culpa na falta de esforço de seus comandados. Não duraria mais tempo no cargo, com o retorno de Rinus Michels para conquistar a Euro 1988. Já o quase-herói Rob de Wit teve destino trágico. Promessa do Ajax, o ponta sofreu um AVC em 1986, quando tinha apenas 22 anos. Precisou encerrar a carreira por conta disso. Depois, seria vítima de outros dois acidentes vasculares, mas continua vivo e lúcido, aos 54 anos. Um talento perdido que poderia tornar ainda melhor o timaço holandês.

Extra: Copa do Mundo de 1954 – Turquia x Espanha

Se não existia repescagem naquela época, a Copa de 1954 contou com confrontos diretos para definir algumas das vagas. Áustria e Itália (este, contra o Egito, remanejado à Europa) se classificaram assim. Mas o episódio mais curioso aconteceu entre Espanha e Turquia. O favoritismo inteiro era dos ibéricos, e com razão, donos de uma liga fortíssima e presentes no quadrangular final em 1950. Entretanto, literalmente com uma boa dose de sorte, os turcos confirmaram presença no Mundial da Suíça.

No primeiro jogo, sob os olhares de Franco, vitória incontestável da Espanha: goleada por 4 a 1 em Chamartín, com tentos de Venancio Pérez, Agustín Gaínza, Miguel González e Rafael Alsua. Já no reencontro em Istambul, a Turquia aprontou. Mesmo com o recém-naturalizado László Kubala do outro lado, venceu por 1 a 0, tento de Burhan Sargin. Como a diferença no número de gols marcados não era considerada critério de desempate, as duas equipes foram forçadas a disputar um jogo-extra em campo neutro, marcado para três dias depois, no Estádio Olímpico de Roma. Por um aviso da Fifa, orientando a se precaver sobre a situação de Kubala, a federação espanhola preferiu não escalar seu craque, que passara por grande litígio nos anos anteriores.

Em Roma, os espanhóis abriram o placar com José Luis Arteche. Sargin Burhan e Mamat Suat viraram para os turcos, enquanto Adrián Escudeiro buscou o empate aos 39. Antes do fim do tempo regulamentar, a Turquia ainda precisou substituir seu goleiro (em tempos nos quais as contusões mais graves permitiam a alteração do arqueiro), ao desmaiar após o choque com um espanhol. Apesar disso, o placar por 2 a 2 prevaleceu também na prorrogação e, em tempos nos quais os pênaltis não existiam, a regra indicava que o vencedor seria determinado no sorteio.

Luigi Franco Gemma, garoto de 14 anos que era filho de um funcionário do estádio, teve os olhos vendados e, diante de uma taça de bronze, puxou o papelzinho com o nome da Turquia. Assim, a Fúria acabou fora da Copa. O episódio gerou uma revolta geral na Fifa, mas nada que impedisse a a seleção turca de figurar no torneio. Gemma viajaria com o elenco à Suíça, tratado como um “amuleto”.