Cristiano Ronaldo, do Real Madrid, em sua comemoração "Eu estou aqui"  (AP Photo/Andres Kudacki)

Dez grandes histórias da temporada europeia

O Real Madrid, que finalmente conquistou sua décima Liga dos Campeões, termina a temporada europeia sob os holofotes. Uma trajetória que se destaca mais pela importância do título, mas que é mais uma em meio a tantas grandes histórias dessa temporada. De vencedores a vencidos, muitas lembranças ficarão de 2013/14. A campanha inacreditável do Atlético de Madrid, o surpreendente Liverpool, as sensações conflitantes com o Bayern de Munique, o desempenho avassalador do Benfica.

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Uma temporada que foi feita, sobretudo, por ótimos personagens. Porque, se o futebol é tão apaixonante, deve muito disso à capacidade que temos de nos identificar com cada momento. E isso não faltou, mesmo nos grandes palcos da Europa. Abaixo, separamos dez episódios que deverão ser recordados por muito tempo. Lições de sucesso ou de fracasso, igualmente importantes para entender o que aconteceu nos últimos meses e o que vai acontecer nos próximos. Confira:

A custo de muito esforço e também de muito dinheiro, La Décima enfim chegou

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Florentino Pérez assumiu a presidência do Real Madrid em um dos períodos mais gloriosos de sua história. O time já havia sido campeão europeu em 1998 e 2000, mas o cartola prometia mais. Elevar os merengues a um domínio que só haviam conseguido durante a década de 1950, sob a direção de Santiago Bernabéu. Conquistou mais uma taça da Champions, em 2002, e trouxe muitos craques, mas nunca conseguiu estabelecer a hegemonia que sonhava. Deixou a presidência e voltou tempos depois, para inaugurar a segunda era dos galácticos. Para, cinco anos e centenas de milhões de euros gastos, enfim buscar La Décima.

O Real Madrid de grandes craques ganhou ainda mais astros. Cristiano Ronaldo, em uma fase extraordinária, e outros tantos figurões passaram a ter a companhia de Bale, Isco, Illarramendi, Carvajal. Jovens que não apenas reforçavam o time, mas que mostravam como os planos dos blancos também passaram a incluir o longo prazo. Mais significativa, no entanto, foi a chegada de Carlo Ancelotti. Um técnico capaz de montar um time tão bom quanto o de Mourinho, superando os problemas extracampo.

O título da Champions veio na base do talento de tantos jogadores espetaculares, mas também graças às vaidades deixadas de lado. O Real Madrid soube devorar os adversários, assim como se segurar na retranca quando preciso. Na decisão, contra o Atlético de Madrid, partiu para a pressão e para emoção. O gol de Sergio Ramos salvou e abriu o caminho para a goleada. Os merengues foram campeões pela fortuna investida, também. Só que saber jogar a Liga dos Campeões fez uma diferença enorme. E ninguém soube incorporar melhor esse espírito do torneio do que o Real.

A decepção de Steven Gerrard pelo título que escapou

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Gerrard chegou ao Liverpool durante a temporada de 1989/90. Justamente a do último título inglês dos Reds. É natural obsessão do capitão, que já levantou todas as taças possíveis com a camisa vermelha, pela única que ainda lhe falta. E que nunca pareceu tão próxima quanto nesta temporada, até a derrocada que derrubou o clube do topo da tabela. Justamente do escorregão do veterano quanto o Chelsea.

Obviamente, não foi a falha contra os Blues que tirou o título do Liverpool. Mas o lance tem um significado imenso. O coração do time, aquele que mais merecia a vitória por toda a sua dedicação, deixou a conquista praticamente certa escapar por baixo de seus pés. Gerrard foi um dos melhores do campeonato isto é inegável, e só menos importante na equipe de Brendan Rodgers do que Luis Suárez. Ainda assim, sua consciência deve ter pesado demais depois daquela tarde. Por mais que os serviços prestados lhe deem perdão eterno junto à torcida vermelha.

Simeone, o líder do exército colchonero

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Diego Simeone retornou ao Atlético de Madrid há dois anos e meio. Como o ídolo que se eternizou pelos serviços prestados em campo e que poderia colocar ordem na casa. Mas não com a aura de messias que acabou ganhando depois de tudo o que conquistou. Com reforços pontuais e perdas até significativas, o ex-volante foi capaz de uma revolução. Extraiu uma força inimaginável de seu elenco para conquistar a Liga Europa, a Supercopa Europeia e a Copa do Rei nas duas temporadas passadas. Um ápice atingido com o máximo de suor de seus soldados, que conquistaram La Liga e caíram após muita luta na decisão da Champions.

Simeone é mais do que um bom técnico, que sabe montar uma equipe e motivar seus jogadores. É um elemento extra para influenciar o que acontece dentro de campo, inflamando a própria torcida. Esse papel foi decisivo para que o Atleti ficasse com a taça de La Liga depois de 38 extenuantes rodadas. E, por mais que o argentino tenha errado em Lisboa, na final da Liga dos Campeões, não é isso que diminui o seu trabalho. O simples fato de estar ali, o que ninguém acreditaria se dissesse quando ele voltou ao Calderón, merece todo respeito.

Os recordes nacionais de Bayern e Juve ofuscados pelo fracasso continental

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Bayern de Munique e Juventus tiveram campanhas espetaculares em suas ligas nacionais. Em sua caminhada até a conquista do bicampeonato, o Bayern conseguiu ser ainda mais incrível do que em 2012/13. O time de Pep Guardiola mudou de estilo, mas foi ainda mais arrasador que o do Jupp Heynckes. Um passeio notável. Da mesma forma, a Juve de Antonio Conte. O tricampeonato veio superando as duas conquistas anteriores, com o ataque avassalador que faltava. Mesmo com Roma e Napoli indo além de suas próprias expectativas, ninguém pôde competir com os bianconeri.

O problema foi no terreno europeu. Os recordes nacionais pareceram menores diante das frustrações. Muita gente esqueceu rápido a Salva de Prata quando o Bayern acabou engolido pelo Real Madrid nas semifinais da Liga dos Campeões. Assim como a Juventus foi vítima de ressalvas após o tri, por não ter vingando nem na Champions ou mesmo na Liga Europa. Para os dois gigantes, manter a hegemonia doméstica é importantíssima. Mas nem todos estarão satisfeitos enquanto o domínio não se expandir também para o resto da Europa. Guardiola precisa ser refazer após o péssimo fim de temporada, enquanto Conte tem que achar a trilha certa na Europa. Comodismo não é a palavra de ordem nos campeões.

A Premier League mais fantástica dos últimos tempos

Yaya Tourè: especialista em salvar o Manchester City de apuros (Foto: AP)

Em uma liga de tantas potências, a Premier League se acostumou ao marasmo de campeões com tranquilidade. Foi assim como o Manchester United em 2012/13, por exemplo. Mas as incertezas em Old Trafford, somadas aos concorrentes tentando se recobrar do prejuízo, tornaram esta edição do Campeonato Inglês uma das mais eletrizantes das últimas décadas. Especialmente nas primeiras rodadas, sete times pareceram candidatos ao Top Four. Aos poucos os favoritos foram caindo, mas não diminuíram o nível de emoção.

O Manchester City do decisivo Yaya Touré foi campeão. Liverpool e Chelsea fizeram ótimos papeis. Arsenal e Everton foram além das expectativas iniciais, ainda que tenham prometido ir mais longe durante a campanha. Tottenham e Manchester United tentaram correr atrás do primeiro pelotão durante a maior parte do tempo. Só que essa competitividade não significou uma grande campanha na Liga dos Campeões ou na Liga Europa. Abaixo do nível dos adversários pelo caminho, os ingleses precisaram se dedicar dobrado na Premier League.

Uma temporada de nostalgia para os grandes adormecidos

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O Sporting estava longe de suas maiores glórias. Sequer de seus períodos mais modestos. Na temporada passada, causou um dos grandes desgostos a sua torcida em todos os tempos, de fora até mesmo da Liga Europa.  Para se reerguer em 2013/14, conquistando a vaga na Liga dos Campeões. E não foram poucos os grandes que, assim como os leões, acordaram para voltar à competição continental em 2014/15.

A Roma fez uma campanha estupenda na Serie A, o Athletic Bilbao cresceu de produção com a inauguração do novo San Mamés, o turbinado Monaco foi às cabeças um ano depois do acesso. Na mesma toada, reaparecem Feyenoord, Sparta Praga e Besiktas.  E as campanhas espetaculares de Atlético de Madrid e Liverpool também podem ser incluídas nesta conta. Os resultados serviram para alimentar a nostalgia dos torcedores dessas equipes, mas para reavivar a tradição de camisas tão pesadas. O futebol agradece pelas ótimas lembranças.

A diferença entre uma temporada maldita e outra gloriosa, mas amaldiçoada

A maldição de Béla Guttmann será quebrada?

O Benfica comeu o pão que o diabo amassou em 2012/13. O calvário da equipe de Jorge Jesus contou com quedas sentidas no Campeonato Português, na Taça de Portugal e na Liga Europa. Três vice-campeonatos que pareciam deixar os encarnados no limbo. E, por isso mesmo, a permanência do treinador surpreendeu tanto. Era apostar em um fracassado em um ano no qual o clube precisava de sua reerguer. Ainda assim, a redenção foi plena.

O declínio do Porto também ajudou, mas não dá para negar a ascensão dos benfiquistas em 2013/14. Parecia outra equipe, revigorada para vingar as derrotas da temporada que havia passado. E a morte dos ídolos absolutos Eusébio e Coluna pareceu reforçar ainda mais o compromisso dos lisboetas em honrar sua história, completando a tríplice coroa nacional. Faltou apenas quebrar a maldição de Béla Guttmann. Mas não houve estátua de bronze que resolvesse a maldição do ex-treinador. A pressão e o nervosismo pesaram nas pernas. Os pênaltis foram fatais para coroar o Sevilla como campeão. Se a profecia do bruxo húngaro se cumprir, a maldição ainda irá durar mais cinco décadas. O ressurgimento desta temporada, porém, dá o exemplo de que as previsões não são suficientes para barrar o Benfica.

Só camisa e estrutura não jogam sozinhos, Barça e United

David Moyes, técnico do Manchester United, em jogo contra o Everton no Goodison Park (AP Photo/Clint Hughes)

Barcelona e Manchester United tiveram temporadas de aventuras. Que não duraram mais do que alguns meses. David Moyes chegou como o substituto de Sir Alex Ferguson a longo prazo, mas os maus resultados fizeram com que sua queda se tornasse bem mais precoce. Já Tata Martino era o encarregado a manter a ofensividade no Camp Nou, mas mudar a mentalidade do jogo. Até começou bem, mas o fracasso no final foi cabal. De campeões e favoritos no início da temporada, ingleses e espanhóis a terminam em uma enorme ressaca.

Os dois casos ajudam a mostrar que, sobretudo, estrutura não faz times campeões. O United podia ter o legado de Ferguson; o Barcelona, La Masía e um punhado de craques. Sem comando, os dois estiveram fadados ao fracasso. Os Red Devils se mexeram rapidamente para pensar um novo ciclo com Louis van Gaal, enquanto os blaugranas voltam a apostar no talento da casa com o retorno de Luís Enrique. Se não forem bons comandantes, já está comprovado, não adiantará nada.

Uma temporada dolorosa para os craques

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Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar, Ibrahimovic, Luis Suárez, Falcao García, Schweinsteiger, Vidal, Ribéry, Van Persie. É difícil encontrar um grande craque do futebol atual que tenha atravessado a temporada ileso aos problemas físicos. Alguns deles tiveram seu desempenho muito atrapalhado pelas contusões, como Messi exemplifica muito bem. Outros, perderam momentos específicos da temporada, mas sentiram o baque – como o próprio Cristiano Ronaldo, longe de seu melhor na decisão da Liga dos Campeões, apesar das atuações fantásticas e do histórico recorde na Liga dos Campeões.

A questão é que esta não é uma temporada qualquer, na qual os meses de férias serão suficientes para deixar os ídolos novos em folha para 2014/15. Ela foi decisiva na preparação da maioria desses astros para a Copa do Mundo. E muitos deles chegam em xeque para o Mundial do Brasil, deixando lacunas até mesmo sobre quais serão os grandes destaques do torneio – ou quem aguentará mesmo esses fardos. Ritmo de jogo e boa forma serão importantíssimos, mas também é preciso ter em mente a responsabilidade que carregarão.

A reação contra o racismo por toda a Europa

Daniel Alves foi vítima de racismo dos torcedores do Villarreal

Não é desta temporada que o racismo é um dos problemas mais sérios do futebol europeu. Os episódios lamentáveis ganham as manchetes há anos, infelizmente. A diferença é que poucas vezes as reações foram tão contundentes contra os agressores. É certo que as autoridades pecam muito nas punições, na maioria das vezes limitadas demais diante da gravidade da questão. Ainda assim, não faltam interessados em querer mudar essa história.

O caso mais emblemático envolveu Daniel Alves. Uso midiático e comercial de seu gesto à parte, ao comer a banana, o brasileiro menosprezou a ignorância do torcedor do Villarreal. Uma ótima resposta imediata, mas que não poderia parar por aí, como o próprio clube tratou de agir, banindo o torcedor. De maneira menos intensa, outros personagens do futebol responderam à intolerância de maneira brilhante, como Yaya Touré, que ameaçou organizar um boicote contra a Copa de 2018 ao ser vítima na Rússia.

São episódios isolados, mas passos importantes. Afinal, por mais que as autoridades do futebol ajam contra o racismo, a questão é muito mais ampla. Refere-se a toda a uma cultura social. Os gestos de Daniel Alves, Yaya Touré e outros contra o racismo, mais do que a voz dos atletas que se levanta, também gera reflexos na sociedade. Ajudam no combate a um problema grave, que precisa de punição, mas muito mais de conscientização.

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