15 momentos da fase de grupos que explicam por que a Copa do Mundo é gigante

O mundo do futebol reúne-se, a cada quatro anos, em torno de um único evento. A Copa reúne os maiores craques e mobiliza milhões de pessoas, em estádios e televisões. O seu grande trunfo é a maneira como consegue envolver pelo menos 32 países de todos os continentes. Todos interessados no que rola no país-sede, cada um com seus objetivos e ambições. Cada um buscando o seu próprio significado e a sua maneira de marcar a história.

Com o fim de fase de grupos, o torcedor anseia pelos grandes duelos entre as melhores seleções, as atuações épicas e os jogos decisivos. Mas, ao mesmo tempo, o envolvimento com o torneio cai pela metade, já que 16 das 32 seleções precisam arrumar as malas e pegar o voo de volta. Por isso, este é o momento perfeito de contar algumas histórias que explicam por que a Copa do Mundo é tão gigante – e, às vezes, os motivos têm pouco a ver com a bola rolando.

Oscar Tabárez

O relógio marcava 44 minutos do segundo tempo da estreia do Uruguai na Copa do Mundo de 2018. O placar mostrava 0 a 0 contra o Egito. José Giménez subiu mais alto do que todo mundo para cabecear. A bola encontrou o fundo das redes, e o Uruguai conquistou mais uma daquelas vitórias na garra e no coração às quais tanto se acostumou. A explosão foi geral entre jogadores e membros da comissão técnica. Entre eles, Óscar Tabárez, 71 anos, treinador da equipe desde 2006. Diagnosticado com síndrome de Guillain-Barré, uma doença autoimune que progressivamente debilita a força dos músculos, o Maestro precisa de ajuda para se locomover. Comanda treinamentos em um carrinho elétrico e subiu ao gramado usando uma bengala. Na alegria do gol de Giménez, porém, esqueceu-se de todos os auxílios ao se levantar. Enquanto os companheiros corriam pelo estádio de Ecaterimburgo, ele ficou parado, balançando os punhos cerrados, comemorando o começo da sua última Copa do Mundo como técnico da Celeste.

Um pouquinho de Dacar em São Paulo

Para algumas seleções, não existe vitória mais importante ou menos importante na Copa do Mundo. As oportunidades de disputar a competição são tão escassas que qualquer vitória é um marco na história do futebol do país, lembrada para sempre. Senegal, por exemplo, precisou esperar 16 anos depois daquela campanha mágica na Coreia do Sul e no Japão para ter outra chance. E, apesar da eventual eliminação na fase de grupos, ganhou a sua primeira partida na Rússia, contra a Polônia. A comemoração foi intensa, nas ruas de Dacar e de Moscou. Assim como em São Paulo, onde existe uma significativa comunidade de senegaleses.

A primeira vez nunca se esquece

A primeira rodada do Grupo G significou a estreia do Panamá em Copas do Mundo. Perfilados no gramado do Fisht, em Sochi, os jogadores panamenhos emocionaram-se com a primeira execução do seu hino nacional no grande palco do futebol. O mesmo aconteceu nos estúdios da RPCTV, emissora de televisão do Panamá. David Samudio e Miguel Ángel Remón preparavam-se para transmitir a partida, mas, antes, deram uma pausa no profissionalismo. Choraram, abraçaram-se e estavam tão emocionados quanto os atletas por finalmente ouvir os acordes do hino panamenho em um Mundial.

Gol do Brasil no Haiti

O Haiti disputou a Copa do Mundo de 1974, mas é difícil imaginar que isso volte a acontecer em um futuro próximo, independente do número de participantes que a Fifa nos enfiar goela abaixo nas próximas edições. Um país pobre, devastado por tragédias naturais e humanitárias, tem pouco espaço de manobra para organizar um forte time nacional. Apaixonados pela bola rolando, os haitianos elegeram um representante na Rússia: o Brasil. O Haiti está totalmente alheio à discussão em torno da camisa da Seleção, se representa um espectro político ou os corruptos da CBF. Para eles, representa o maior time de futebol de todos os tempos e um país irmão, que constantemente os ajuda a terem uma vida um pouco menos difícil. Por isso, foi vibrante a comemoração em Porto Príncipe quando Coutinho e Neymar selaram a vitória dramática sobre a Costa Rica, por 2 a 0.

Place Boyer

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O metrô da Rússia nunca mais será o mesmo

Foi no dia da abertura da Copa do Mundo. O primeiro jogo da Colômbia ainda estava longe de acontecer, mas os torcedores do país, um dos mais animados em qualquer torneio de futebol, não quiseram esperar para fazer festa. Um dos momentos mais legais aparece neste vídeo, quando eles simplesmente invadem um vagão do metrô de Moscou, com direito a uma bandinha.

O país parou

Sabe quando dizem que os países param para a Copa do Mundo? Isso efetivamente acontece na Islândia, com sua população de aproximadamente 350 mil pessoas. Na estreia contra a Argentina, 60% do povo assistiu à partida pela televisão – o resto provavelmente estava na Rússia. Isso significou 99,6% dos aparelhos ligados durante o jogo, o que escancara o desânimo dos islandeses com o time nacional porque, nas oitavas de final da Eurocopa contra a Inglaterra, esse número chegou a 99,8%. Antes da terceira rodada do grupo D, o jornalista mais solitário do mundo, Thorbjörn Thórdason, falou sobre a dificuldade de preparar um programa de notícias que concorreria com a partida decisiva contra a Croácia. “Eu acabei de terminar uma entrevista com o assistente do governador do Banco Central da Islândia. Ele está deixando o banco depois de 28 anos, então é uma história muito importante”, disse, segundo o Guardian. “Veja bem, não temos ilusão de que a nossa audiência será abismal. Mas, sabe, temos que dar as notícias e elas não param por causa do futebol. Houve certa discussão de que poderíamos informar os placares de vez em quando”. E certamente muita gente acompanhou o jogo com Thórdason. 

A diplomacia da tequila

Apesar de ter vencido as primeiras duas rodadas, o México tem que agradecer à Coreia do Sul pela sua classificação às oitavas de final. Ao perder a partida decisiva para a Suécia, precisava que a Alemanha tropeçasse contra os asiáticos, que acabaram vencendo a atual campeã do mundo por 2 a 0. E os mexicanos não são um povo ingrato. A embaixada da Coreia do Sul na Cidade do México virou palco de comemorações calorosas. Até o embaixador sul-coreano entrou na festa. E sem nenhum pudor: cedeu à pressão popular para que virasse doses de tequila e ficou alegrinho enquanto a multidão cantava “coreano, irmão, já és mexicano”.

Nenhuma vitória é pequena na Copa do Mundo

O Irã estreou na Copa do Mundo contra Marrocos. O jogo seguia 0 a 0 até os acréscimos, quando um gol contra de Bouhaddouz decretou a vitória dos asiáticos. Era apenas a estreia, por mais que o confronto direto entre as duas equipes teoricamente mais fracas do grupo fosse importante. Mas, para o Irã, foi a história sendo feita: esta foi apenas a segunda vitória iraniana no Mundial, depois daquele 2 a 1 sobre os Estados Unidos, em 1998. Embora ainda houvesse muita Copa pela frente, o triunfo foi comemorado no gramado do estádio de São Petersburgo como se fosse um título. E por certo ponto de vista, realmente foi.

Isso que é uma recepção de hotel

Foi fantástica a recepção à seleção brasileira no Hotel de Moscou, antes da partida decisiva contra a Sérvia. Embalados pelo Canarinho Pistola, que teve até problemas com as autoridades, a torcida cantou a plenos pulmões as músicas que compôs para o Mundial da Rússia e passou a energia que o time precisava para chegar às oitavas de final. Destaque para os sinalizadores, que deixaram a atmosfera ainda mais cativante, mas, infelizmente, ainda são proibidos em estádios brasileiros.

Invasão peruana

A comemoração da torcida peruana foi intensa no dia da classificação à Copa do Mundo, a primeira em 36 anos para o país. E, obviamente, eles não esqueceriam de fazer festa durante a competição. Saransk foi invadida por um mar vermelho de torcedores peruanos antes da estreia contra a Dinamarca. No entanto, a seleção sul-americana perderia para os dinamarqueses e seria eliminada pela França, na rodada seguinte. Pelo menos, deixou uma boa impressão e não fez feio no seu retorno ao Mundial.

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À capela

Cantar “à capela”, explica o Professor Pasquale, é uma expressão do Renascimento, “usada para nomear o canto de grupos durante missas realizadas em capelas, sem acompanhamento musical”. Logo, é apropriada para o momento em que os alto-falantes cortam o hino nacional brasileiro, e a torcida continua a plenos pulmões, como ficou notório na Copa do Mundo de 2014 e foi retomado no jogo contra a Sérvia.

O importante é se divertir

A Copa do Mundo é um torneio de futebol, competitivo, e todo mundo quer ganhar. Mas também é importante se lembrar de se divertir de vez em quando, principalmente uma seleção que nem sempre consegue disputá-la. Senegal precisava de pelo menos um empate contra a Colômbia, na última rodada do Grupo H, para passar às oitavas de final. No treinamento do dia anterior, houve um brilhante momento de descontração, com os jogadores dançando e cantando na mais pura alegria. Infelizmente para eles, a derrota para os sul-americanos, no dia seguinte, significou a eliminação.

Educação pelo esporte 

Óscar Tabárez era professor de escola pública. O simbolismo, portanto, foi gigantesco quando Giménez marcou o gol da vitória contra o Egito, e um vídeo caiu nas redes mostrando crianças de uma escola de Montevidéu comemorando e correndo pelo pátio como se fosse o dia mais feliz de suas vidas.

Quando um é maior que seis

A Inglaterra não teve dificuldades para golear o Panamá, na segunda rodada do Grupo G. Fez 6 a 0, com gols de bola parada e de pênalti, além de um belo chute de Lingaard e um calcanhar sem querer de Harry Kane. Nem comemorou muito efusivamente a partir de certo momento. Tanto que a celebração panamenha por causa do tento de Felipe Baloy, descontando para 6 a 1, foi muito maior. Por que um povo ficaria tão feliz por um gol inútil, em termos práticos, em uma partida em que sua seleção foi atropelada? Porque foi o primeiro da história do Panama na Copa do Mundo.

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União nacional

Houve certa preocupação na Cidade do México, durante a segunda partida do time de Juan Carlos Osorio na Copa do Mundo. Naquele mesmo dia, haveria a parada LGBT da capital mexicana, e o medo era que houvesse problemas quando esse grupo se encontrasse com torcedores de futebol comemorando uma eventual vitória contra a Coreia do Sul. Nem sempre os dois lados se dão bem, tanto que a Fifa já foi obrigada a multar a Federação Mexicana diversas vezes por cantos homofóbicos de sua torcida. O El Universal relatou algumas provocações, mas, no geral, o clima foi pacífico. Bandeiras do México misturaram-se com a do arco-íris do movimento LGBT. “Estamos muito felizes que os dois grupos puderam dividir este espaço. É um dia muito importante para o México”, disse uma mulher de 27 anos que compareceu à marcha com a namorada, ao Independent.

¡Imaginémonos cosas chingonas! – @ch14_ #México

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