Um mestre de cerimônias e mais 12 homens ao redor de uma mesa, em uma confraternização que definiria também um momento histórico para a humanidade. A cena mítica pode remeter a Jesus Cristo e aos apóstolos na Última Ceia. A Rei Artur e aos seus Cavaleiros da Távola Redonda. Ou ao nascimento do futebol. Foi assim, no dia 26 de outubro de 1863, que Ebenezer Cobb Morley se reuniu com representantes de 12 clubes ingleses para delinear as Regras do Jogo, no encontro que definiria o nascimento do futebol.

Procurador de justiça, Morley foi quem sugeriu a tal padronização do regulamento. A ideia foi difundida em artigo para o jornal popular Bell’s Life, no qual defendia um processo parecido com o que havia ocorrido com o críquete – cujas regras foram estruturadas em 1788. A proposta ganhou força entre os representantes dos clubes e das escolas públicas que praticavam o esporte, culminando no evento da Taberna Freemasons’, em Londres.

Em uma noite de segunda-feira, o primeiro dos seis encontros serviu para constituir a criação da Football Association como entidade. Nas discussões seguintes, as regras foram formuladas. Quarenta e quatro dias depois, o futebol nascia graças a um pequeno livro publicado com 13 determinações básicas para a prática do esporte. E, no dia 19 de dezembro, o Campo de Limes recebeu a primeira partida disputada sob o código, um empate sem gols entre Barnes e Richmond.

As principais influências do futebol

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Obviamente, as Regras do Jogo não foram criadas de um mero sopro de inspiração dos membros da Football Association. O livro foi baseado no esporte rudimentar reportado na Inglaterra havia pelo menos três séculos, de difusão massiva nas escolas públicas do país a partir o Século XIX. Nesta época, entretanto, o futebol era sujeito ao local onde era praticado. A primeira codificação das regras só aconteceria em 1845, na Escola de Rugby. Aquela oficialização ajudou a difundir o estilo específico do ‘futebol’ praticado no colégio, o que não significava diretamente a sua popularização.

As regras elaboradas pela Football Association, em contrapartida, tiveram duas bases principais. Em 1848, os alunos da Universidade de Cambridge resolveram a confusão que tomava conta de toda partida que iam jogar. Como seus praticantes vinham das mais diferentes escolas, cada um tinha sua maneira de conduzir a bola. As Regras de Cambridge foram formuladas a partir de um encontro entre representantes das escolas de Eton, Harrow, Rugby, Shrewsbury e Winchester. Era a tentativa de unificar o jogo através da conciliação de suas peculiaridades.

Já em 1857, nasceram as Regras de Sheffield, que privilegiavam a condução da bola com os pés. A regulamentação foi feita para o Sheffield Football Club, considerado o clube de futebol mais antigo do mundo. Nos primeiros anos, as partidas eram organizadas apenas entre membros da própria organização. Já o primeiro confronto entre clubes foi disputado em 26 de dezembro de 1860, com vitória do Sheffield sobre o Hallam FC.

Nas reuniões da Taberna Freemasons’, em 1863, quatro membros do Sheffield atuaram como observadores. Já a única escola presente nos encontros foi Charterhouse. E foi a partir da revisão das Regras de Cambridge, interligadas com as de Sheffield, que a Football Association determinou o seu próprio jogo.

Quando o futebol finalmente passou a ser jogado só com os pés
A taberna onde as primeiras reuniões da FA aconteceram (Foto: Mário Marra)

A taberna onde as primeiras reuniões da FA aconteceram (Foto: Mário Marra)

A partir das Regras de Cambridge, das Regras de Sheffield e de outras codificações esportivas do Século XIX é possível entender algumas máximas do futebol. A adaptação desses modelos marcou a cisão do futebol em relação a outras modalidades com a mesma origem – o rúgbi sendo a principal delas, além das ramificações como o futebol americano, o futebol australiano e o futebol gaélico.

O momento-chave para a separação entre os esportes aconteceu na quinta reunião da Football Association. A entidade decidiu remover os artigos que permitiam condução da bola com as mãos e a liberdade para conter os adversários com agarrões, empurrões ou outros jogos de corpo. A maioria dos membros aceitou. A exceção foi o representante do Blackheath, que defendia os contatos físicos mais duros como “essência do verdadeiro futebol” e achava que a mudança permitiria que qualquer um triunfasse na modalidade com pouca prática. Os londrinos se retiraram da associação e, em 1871, ajudaram a fundar a Rugby Football Union.

A primeira versão das Regras do Jogo trazia definições genéricas sobre o futebol. Delimitava o tamanho do campo, as infrações e as saídas de jogo. Pregos e placas de ferro estavam vetados das chuteiras. E as maiores diferenças para o esporte atual estavam no impedimento e no uso das mãos. Qualquer jogador do mesmo time à frente da linha da bola estava impedido, o que tornava os passes em progressão impossíveis. Além disso, o goleiro não existia e qualquer jogador poderia agarrar a bola no alto – ganhando uma cobrança de tiro livre se fizesse isso.

Veja também: Ano a ano, as principais mudanças nas Regras do Jogo

Demorou quase uma década para que o futebol se aproximasse das regras utilizadas atualmente. Em 1866, os passes para frente foram legalizados, com o impedimento só marcado se houvesse menos do que três adversários entre o receptor e a linha de fundo. No mesmo ano, pegar a bola no alto com as mãos passou a ser proibido, tornando cabeçadas e matadas no peito comuns. Já em 1871, o goleiro foi introduzido no esporte, livre para segurar a bola em qualquer parte do campo – delimitado a seu próprio campo em 1872 e a sua área em 1912.

As alterações foram fundamentais para acrescentar liberdade ao jogo. E o sucesso foi garantido pelo casamento entre simplicidade e dinamismo. Os universitários de Cambridge contribuíram principalmente para a parte teórica da modalidade. Já as soluções práticas foram impulsionadas pelos jogadores de Sheffield: a introdução do travessão, do intervalo, das cobranças de falta; a aplicação do jogo aéreo com a proibição da bola nas mãos; o conceito de arbitragem.

Além disso, cabe ressaltar também a importância da formação educacional dos participantes daqueles primeiros encontros da Football Association. Boa parte deles estudou em escolas públicas que priorizavam um jogo mais fluido, com dribles e passes para frente, linha oposta àqueles que defendiam a condução da bola com as mãos – como a Escola de Rugby. Fundadora da FA, Charterhouse era uma dessas que apostava na dinâmica, assim como Eton, fonte de inspiração da regra do impedimento. Há fontes que afirmam que até o número de jogadores, 11 para cada lado, foi determinado a partir da quantidade de alunos por classe em algumas dessas escolas.

A expansão do futebol pelo Reino Unido e pelo mundo
Royal Engineers, finalistas da primeira Copa da Inglaterra

Royal Engineers, finalistas da primeira Copa da Inglaterra

A criação das Regras do Jogo foi vital para a popularização do futebol, especialmente diante do contexto vivido na segunda metade do Século XIX. O esporte era difundido como uma política pública no Reino Unido, seguindo a corrente do darwinismo. A atividade física servia como ferramenta à saúde física e a transmissão de lições morais, adotado amplamente nas escolas. Ao mesmo tempo, com a Revolução Industrial plena, o operariado ganhava relevância como classe e passou a contar com alguns (poucos) direitos. O futebol era a recreação que diminuía as preocupações dos patrões com greves e motins de seus trabalhadores.

A Football Association foi útil para a expansão destas frentes. Tanto para padronizar os jogos entre diferentes escolas quanto por permitir os confrontos de times de cidades cujas distâncias eram encurtadas pela crescente implantação de ferrovias. O primeiro campeonato do mundo surgiu em 1867, a Copa Youdan, realizada em Sheffield. Já o primeiro torneio da FA nasceu em 1871: a Copa da Inglaterra, disputada basicamente por clubes de Londres naquela edição – o Queens Park, da Escócia, era a exceção. E, no ano seguinte, o futebol como instrumento nacionalista surgiu a partir do primeiro jogo internacional, entre Inglaterra e Escócia.

A competitividade dos campeonatos passou a alimentar a gana dos times pelos melhores jogadores. As fábricas passaram a empregar operários apenas pelo talento no futebol, incrementando os salários pela produtividade em campo. Diante dessa realidade, os times do norte britânico, fabris, não demoraram a desafiar a hegemonia das escolas londrinas, com bases aristocráticas. A consequência inevitável disso foi a abertura ao profissionalismo, em 1885, que fomentou a criação da Football League três anos depois e a estabilização do futebol como um elemento social importantíssimo na sociedade britânica.

E, enquanto o futebol se massificava no Reino Unido, o Imperialismo Britânico impulsionou sua prática em outras partes do mundo. Na Europa continental, os primeiros clubes de diversos países foram fundados por imigrantes ou marinheiros britânicos: Lausanne Football and Cricket Club (Suíça), Kjobenhavns Boldklub (Dinamarca), Dresden English Football Club (Alemanha), Recreativo de Huelva (Espanha) e Genoa Cricket and Football Club (Itália). Em Portugal, a introdução do esporte foi feita por estudantes que voltavam da Inglaterra. Já na França, a expansão no interior do país se deu graças aos professores de inglês.

Da mesma forma, o futebol era levado pelos britânicos a outros continentes, tanto pela influência econômica quanto pela política. Nos Estados Unidos, o impacto foi imediato, apesar da difusão também de outros esportes. Argentina e Uruguai estiveram entre os primeiros países a contar com o futebol organizado, através dos trabalhadores de linhas férreas e dos marinheiros que aportavam em Buenos Aires e Montevidéu. No Brasil, foi Charles Miller quem voltou com a bola na mala, após passar a adolescência estudando na Inglaterra. E assim se seguiu também em outras regiões sob influência britânica.

Em 1886, a International Board foi criada para unificar as regras entre as federações de Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda. Um passo para a pluralidade que se concretizaria em 1904, com o nascimento da Fifa. Embora a Football Association tenha se mantido distante da federação internacional em seus primeiros anos, a entidade ajudou a organizar o esporte em países com estrutura frágil e recém-independentes. Um fenômeno mundial consolidado nas décadas seguintes e de importância inegável hoje em dia. E que começou na mesa de uma taberna.

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