Copa do Mundo de 1998. O Brasil, então campeão mundial, já entrava em campo classificado para enfrentar a Noruega, que ainda lutava por uma vaga nas oitavas de final. O jogo, em Marseilha, valia pouco para o Brasil, mas muito para os noruegueses. A vitória por 2 a 1 veio de virada, de forma épica, nos últimos 10 minutos de jogo. Bebeto abriu o placar aos 33 minutos do segundo tempo. Tore André Flo empatou aos 38 minutos. No final, um pênalti que, na hora do jogo, muita gente achou que não foi, de Júnior Baiano em Flo. Os brasileiros se indignaram. Kjetil Rekdal não se importou: cobrou, marcou 2 a 1 e levou a Noruega às oitavas de final.

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Zagallo aproveitou que o Brasil já estava classificado e fez uma alteração. Denílson, que vivia grande fase e tinha sido recém-vendido ao futebol europeu, pedia passagem. Para não tirar Rivaldo do time – que era quem se pedia que ele tirasse, ele tornou o time mais ofensivo. Descansou César Sampaio, volante, recuou Leonardo, que jogava como meia, para ficar ao lado de Dunga. Colocou Denilson para atuar com Rivaldo. E Denilson acabou fazendo o passe do gol de Bebeto, embora seu jogo tenha sido apagado, como de todo o time. A virada da Noruega no final, porém, foi o que chamou a atenção e centralizou as discussões.

O pênalti foi amplamente repetido no jogo e depois dele e sempre dava a impressão de não ter sido. Era a impressão geral. O pênalti que não existiu. Em relato da Folha, presente no estádio Velódrome, diz que nem os franceses acharam pênalti na transmissão local. “O pênalti é tão injusto! O árbitro norte-americano certamente errou”, disse o narrador do Canal+, que transmitia a partida. Chamaram de peça de teatro. Palavras como escândalo e pênalti imaginário foram usadas. O relato do árbitro, Esfandiar Bahamast, à própria Fifa, anos depois, era que ele tinha certeza que tinha sido pênalti. O seu supervisor, porém, disse que desde que ele tinha marcado o pênalti, o seu telefone tocava sem parar com repórteres que diziam que as imagens da TV não mostravam falta.

A revolta no Brasil, como se pode imaginar, era grande. Foi tema de debates acalorados, mesmo em uma época sem internet tão disseminada, muito menos redes sociais. Aquele sentimento não atingiu Claudio Taffarel, o goleiro brasileiro na época, atualmente preparador de goleiros da comissão técnica de Tite, na Rússia. “O juiz acertou. Houve o contato e o jogador deles caiu”, disse o goleiro.

Dois dias depois, porém, uma TV sueca mostrou a imagem que não deixa dúvidas sobre o pênalti em Flo. Ele foi puxado por Júnior Baiano dentro da área. O árbitro Esfandiar Bahamast, criticado pela decisão, foi então absolvido. “Fiquei desapontado quando soube que as pessoas estavam comentando que não foi pênalti. Eu sabia que tinha sido. Fiquei feliz quando a TV sueca mostrou para todos que foi pênalti”, disse Flo, que sofreu o pênalti, em entrevista ao UOL Esporte, em 2017.

“Definitivamente, (a partida de 1998) mudou minha vida. Para muitos noruegueses aquele é o melhor jogo da seleção nacional em todos os tempos. Havia sido muito difícil se qualificar para a Copa do Mundo. E aquela vitória nos levou para a próxima fase da Copa. Com certeza é algo grande”, contou ainda Flo na entrevista.

No Jornal Nacional, noticiário mais importante da Globo, o relato do jogo na França foi de um Brasil que errou, que teve Dunga calado, um Zagallo que não procurou alternativas e uma ironia de William Bonner ao dizer que 32 seleções jogavam a Copa há 14 dias, mas mesmo assim o técnico do Brasil disse que a Copa começaria mesmo naquele momento. Vale a pena assistir à reportagem, que é de Pedro Bial.

Como em toda derrota brasileira, se buscou motivos. Dunga falou pouco? Houve uma discussão forte entre Dunga e Bebeto no jogo anterior, com direito a cabeçada do capitão no atacante. A avalição da Folha, por exemplo, era que o Dunga “light” não funcionou, ele não falou muito em campo, na mesma linha da reportagem da Globo.

No fim, o pênalti que ninguém tinha visto foi pênalti mesmo. E marcou uma vitória épica da Noruega, que nunca mais será esquecido.

Assista ao vídeo com o depoimento do árbitro, o vídeo oficial da TV e depois o vídeo que surgiu dois dias depois, que mostrava o pênalti como algo muito claro. Clique no vídeo para assistir (por restrições do canal da Fifa, o vídeo só pode ser assistido direto no Youtube).