Num 15 de agosto, há exatos 25 anos, foi dada a largada para aquele que viria se tornar hoje o campeonato nacional de futebol mais rentável do mundo. Naquele sábado era aberta a primeira rodada da Premier League, torneio que marcou a ruptura dos clubes da divisão de elite do país com a antiga Football League, que organizava a competição até então. A partir daquele momento os próprios clubes passariam a gerir o campeonato, celebrando vultosos contratos de televisionamento, patrocínio e publicidade. O primeiro deles com a rede de televisão BSkyB, do magnata das telecomunicações Rupert Murdoch, num valor astronômico para a época: 305 milhões de libras. O que aumentou o dinheiro em caixa para a contratação de jogadores e a modernização da estrutura física dos clubes.

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Além de satisfazer a demanda financeira cada vez maior dos clubes da primeira divisão por contratos mais polpudos para as transmissões dos jogos, havia o desejo de revigorar o interesse pelo futebol no país, abalado por tragédias relacionadas tanto ao hooliganismo quanto à falta de estrutura dos estádios, como nos casos de Hillsborough e Bradford, nos quais centenas de torcedores morreram. A nova liga também representava uma tentativa de frear a crescente evasão de jogadores do país rumo a outros campeonatos financeiramente mais compensadores, como a Serie A e a emergente J-League.

A temporada de estreia da Premier League contou com 22 clubes (a partir de 1995-96, o número seria reduzido para os atuais 20). Seis eram londrinos: Arsenal, Tottenham, Chelsea, Queens Park Rangers, Crystal Palace e Wimbledon. Havia ainda as duplas de Manchester (United e City), de Liverpool (Liverpool e Everton) e de Sheffield (Wednesday e United). Oldham e Blackburn também eram da região de Lancashire, próxima aos mancunianos, enquanto Ipswich e Norwich vinham do leste. Da região central, estavam na elite Aston Villa, Leeds, Nottingham Forest e Coventry. E dos extremos norte-sul do mapa da bola vinham Middlesbrough e Southampton.

Ipswich e Middlesbrough, campeão e vice da segunda divisão no ano anterior, haviam conquistado o acesso direto, enquanto o Blackburn, sexto colocado na temporada regular, precisou superar o Derby County e o Leicester nos playoffs para retornar à elite depois de 26 anos. O trio substituía os rebaixados na temporada anterior, West Ham, Luton Town e Notts County.

Football - Stock Season 92/93 Mandatory Credit:Action Images/John Sibley Alan Shearer - Blackburn Rovers

Além do dinheiro a rodo advindo das cotas de televisionamento, o Blackburn contava também com a fortuna de um mecenas para quebrar o recorde de transferências da temporada. Bancado pelo milionário Jack Walker, o clube pagou cerca de £3,6 milhões por Alan Shearer, atacante revelação do Southampton e que havia disputado a Eurocopa pela seleção inglesa antes do início da temporada. Além disso, tinha um técnico vencedor desde seus tempos de jogador, o antigo ídolo do Liverpool Kenny Dalglish.

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Mas quem surpreendeu mesmo na largada da temporada foi outro clube pequeno, o Norwich – que havia escapado do rebaixamento na última rodada da temporada anterior e ainda perdera seu principal artilheiro, o escocês Robert Fleck, negociado com o Chelsea. A equipe de Norfolk foi a Londres e derrotou o poderoso Arsenal por 4 a 2 depois de ir para o intervalo perdendo por 2 a 0 em Highbury. Terminou a primeira rodada na liderança, e assim ficaria por algum tempo.

arsenal x norwich

Dirigidos por Mike Walker, os Canários foram a grande sensação da primeira temporada da nova liga e se mantiveram no topo até o começo de outubro, sendo desalojados da ponta de uma maneira um tanto extravagante: foram arrasados pelo Blackburn de Shearer por 7 a 1, em Ewood Park. Mas voltariam à liderança da classificação na segunda semana de novembro, em uma situação curiosa: primeiros colocados com 30 pontos, mas com saldo de gols zerado.

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A primeira liga europeia formatada pela e para a televisão abriu com nove partidas no sábado, 15 de agosto. O dia seguinte foi reservado para apenas um jogo, o primeiro com transmissão ao vivo pela Sky Sports. No City Ground, o Nottingham Forest bateu o Liverpool por 1 a 0, gol de Teddy Sheringham (que dali a 11 dias trocaria o time de Brian Clough pelo Tottenham). Na segunda, completando a rodada, Manchester City e Queens Park Rangers ficaram no empate em 1 a 1 no velho estádio de Maine Road.

nottingham forest x liverpool

O panorama do futebol inglês em termos clubísticos era bem diferente há 20 anos, antes da criação da Premier League. A partilha por igual das cotas de televisão entre todos os clubes das quatro divisões profissionais adotada antes da reformulação do campeonato acabava por nivelá-lo. E mesmo naquela temporada de estreia da nova liga, alguns resquícios ainda estavam presentes. Apenas dois jogadores de linha, mais um goleiro, podiam ser relacionados para o banco de reservas. A maioria esmagadora dos elencos era formada por jogadores nascidos nas ilhas britânicas (veja box). Raros eram os vindos de fora, mesmo os da Europa continental, que eram contados como estrangeiros (a Lei Bosman só viria cinco anos depois). Além disso, todos os técnicos em atividade no campeonato eram britânicos.

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Mas seria um francês quem se consagraria como o jogador mais decisivo do campeonato: o atacante Eric Cantona, que trocou em novembro o atual campeão Leeds pelo Manchester United e foi crucial na arrancada da equipe treinada por Alex Ferguson para conquistar o campeonato. Os Red Devils largaram mal, sofreram o primeiro gol da nova liga (marcado por Brian Deane, do Sheffield United, numa derrota por 2 a 1), só ganharam seu primeiro jogo na quarta rodada, chegaram a ficar sete jogos sem vencer e ocupavam apenas a décima posição na 15ª rodada, mas reagiram com uma campanha brilhante a partir dali e confirmaram o título que tirou o clube de um jejum de 26 anos na liga no dia 2 de maio, com a derrota do Aston Villa – seu perseguidor mais próximo – para o Oldham, em casa. Título sacramentado com uma vitória de 3 a 1 sobre o Blackburn no dia seguinte.

man-utd-champions-1992-1993-v2

O time-base do United contava com o dinamarquês Peter Schmeichel no gol, Paul Parker e o irlandês Dennis Irwin nas laterais, enquanto Steve Bruce e Gary Pallister formavam a dupla de zaga. No meio, Paul Ince era o volante e capitão, e mais à frente jogava o escocês Brian McClair, na ligação com o ataque, auxiliado nas pontas por Lee Sharpe (ou o russo Andrei Kanchelskis) na direita e pelo galês Ryan Giggs – eleito pela segunda temporada seguida o melhor jogador jovem – na esquerda. Na frente, Cantona tinha a companhia de outro galês: o experiente Mark Hughes. No banco, o meia e ex-capitão da seleção inglesa Bryan Robson, já em fim de carreira, era o reserva de luxo. Sem dúvida, uma equipe forte.

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Ao Villa, apesar de contar com uma boa dupla ofensiva formada pelo galês Dean Saunders (trazido do Liverpool no início da temporada) e o recentemente falecido Dalian Atkinson, restou o vice-campeonato, que valeu vaga na Copa da Uefa (só o primeiro colocado disputava a Copa dos Campeões). Além da honra de ter o veterano zagueiro irlandês Paul McGrath escolhido o melhor jogador da temporada entre seus colegas de todos os clubes – a imprensa, por sua vez, elegeu outro veterano, o ponta Chris Waddle, do Sheffield Wednesday. Em terceiro, e com saldo de quatro gols negativos, ficou o Norwich, que também garantiu uma vaga europeia (na Copa da Uefa) pela primeira vez em sua história.

atkinson e saunders

Sem Cantona, o Leeds definhou. Não teve forças para seguir na Copa dos Campeões, caiu também nas copas inglesas e terminou apenas na fraca 17ª posição, entre 22 clubes. O Blackburn também não resistiu à perda de seu principal atacante: Alan Shearer teve de operar o joelho no final de 1992 e ficou de fora do resto da temporada. Os Rovers terminaram na quarta posição, mas não conseguiram vaga nas copas europeias: como o futebol inglês ainda vinha de um retorno recente ao cenário continental após a suspensão de 1985, contava com apenas duas vagas na Copa da Uefa.

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Uma boa surpresa foi o Queens Park Rangers, quinto colocado e melhor londrino na liga, comandado pelos 20 gols de Les Ferdinand, vice-artilheiro da competição. O Arsenal, campeão da liga em duas das quatro temporadas anteriores, era apontado como o principal favorito antes da bola rolar, mas terminou numa modesta décima colocação. Por outro lado, mostrou-se um time “copeiro”, vencendo tanto a FA Cup – o que valeu vaga na Recopa europeia – quanto a Copa da Liga.

Os Gunners ficaram ladeados na classificação pelos hoje bilionários Manchester City e Chelsea – este, o único clube a trocar de técnico durante a temporada, substituindo Ian Porterfield por David Webb em fevereiro. Ambos haviam subido juntos da segunda divisão em 1989 e fizeram campanhas apenas discretas na primeira Premier League, terminando em nono e 11ª lugar, respectivamente.

chelsea x oldham

O Tottenham, que no começo da temporada havia perdido Gary Lineker e Paul Gascoigne para o futebol japonês e italiano, respectivamente, pagou £2,1 milhões por Teddy Sheringham, do Nottingham Forest no fim de agosto. Terminou apenas em oitavo lugar, mas com o artilheiro da competição – justamente o novo contratado, com 22 gols (um deles marcado na rodada de abertura, ainda pelo Forest).

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O Liverpool, que dominara o futebol local na década anterior, também chegou surpreendentemente a flertar com a parte de baixo da tabela, mas terminou em sexto. Sete anos depois de seu último título, o Everton fez campanha fraca. Em crise financeira, apesar de contar com bons jogadores como Peter Beardsley, Paul Rideout e Martin Keown, os Toffees só se distanciaram da zona de rebaixamento na segunda metade do campeonato e acabaram em 13º lugar.

Com vários jogadores da seleção inglesa, o Sheffield Wednesday ficou na sétima posição, além de ter chegado às finais da Copa da Inglaterra e da Copa da Liga – em ambas, derrotado pelo Arsenal. Enquanto isso, o rival Sheffield United – juntamente com Coventry, Ipswich, Leeds, Southampton e Oldham – completou o bloco que fez apenas figuração no torneio. E Crystal Palace (vice-campeão da FA Cup três anos antes), Middlesbrough e Nottingham Forest acabaram rebaixados, sendo substituídos pelos promovidos Newcastle, West Ham e o estreante Swindon Town.

brian clough

A queda do Forest representou um triste fim de uma era. Depois de 18 anos no comando da equipe, o técnico Brian Clough, já dominado pelo alcoolismo, anunciou sua aposentadoria ao final da temporada. Depois de sair, pelas mãos do veterano treinador, do fundo do poço da segundona para conquistar um título inglês, dois da Copa dos Campeões e quatro da Copa da Liga, o clube de East Midlands voltava às divisões inferiores mesmo contando com jogadores do quilate de Stuart Pearce, Roy Keane e Nigel Clough (filho de Brian). Nunca mais se recuperaria do baque.

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O Oldham, por outro lado, escapou da degola de maneira espetacular, depois de vencer seus três últimos jogos, começando por derrotar o Aston Villa em Birmingham por 1 a 0, no jogo que encaminhou a taça para o Manchester United. Em seguida, a equipe bateu o Liverpool por 3 a 2 e o Southampton por 4 a 3, superando no fim o Crystal Palace somente no saldo de gols.

Muita coisa mudaria dentro de campo ao longo das temporadas seguintes. Enquanto alguns clubes subiriam de patamar, outros deixariam de brigar por títulos ou mesmo de frequentar a primeira divisão com assiduidade. Além disso, aos poucos um pequeno grupo de clubes se cristalizaria na disputa pelo título e também na ocupação das primeiras posições – ainda que, anos mais tarde, uma versão mais bem-sucedida do Norwich daquela temporada inicial tomasse forma no Leicester, campeão furando a hegemonia dos poderosos.

OS PIONEIROS ESTRANGEIROS

cantona e ferguson

Pode parecer incrível num contexto como o atual, em que mais de 60 países estão representados nos elencos dos clubes da elite inglesa, mas, dos 261 jogadores que entraram em campo na rodada inaugural da Premier League em 15, 16 e 17 de agosto de 1992, apenas 13 eram “estrangeiros” – ou seja, tinham nacionalidade futebolística de fora das ilhas britânicas.

Destes 13, boa parte vinha da Escandinávia. O Arsenal, por exemplo, levou a campo como titulares contra o Norwich o meia dinamarquês John Jensen e o ponta sueco Anders Limpar. O Oldham, que segurou um empate em 1 a 1 diante do Chelsea dentro de Stamford Bridge, tinha o lateral norueguês Gunnar Halle – os Blues, surpreendentemente pelo que viriam se tornar pelos próximos anos, não contavam com nenhum jogador não-britânico.

Outro nórdico, o lateral sueco Roland Nilsson, foi titular do Sheffield Wednesday no empate em 1 a 1 com o Everton (que lançou no segundo tempo o atacante polonês Robert Warzycha) em Goodison Park. E o Manchester United, derrotado pelo Sheffield United por 2 a 1, tinha no gol a lenda dinamarquesa Peter Schmeichel – além do ponta russo Andrei Kanchelskis.

Warzycha e Kanchelskis eram dois representantes do então já desmembrado bloco socialista, juntamente com o gigantesco goleiro tcheco Jan Stejskal, titular do Queens Park Rangers no empate com o Manchester City. Os Citizens tinham na zaga o holandês Michel Vonk, um dos dois jogadores do país na elite, ao lado do goleiro Hans Segers, que defendeu o Wimbledon na derrota para o Leeds por 2 a 1 em Elland Road.

Outro arqueiro estrangeiro a entrar em campo na primeira rodada foi o canadense Craig Forrest, do Ipswich, que empatou em 1 a 1 com Aston Villa em Portman Road. E outra presença curiosa – pela nacionalidade, especialmente – naquela rodada de abertura era a do israelense Ronny Rosenthal, atacante que o Liverpool colocou em campo durante a derrota para o Nottingham Forest.

Hoje presença frequente em praticamente todos os clubes na Premier League, os sul-americanos não contavam com nenhum jogador naquela primeira temporada da competição.