A Data Fifa guarda um encontro de seleções-irmãs para o Japão. Afinal, o Brasil é muito mais do que um mero adversário aos Samurais Azuis. O desenvolvimento do futebol local teve grande ajuda dos “embaixadores brasileiros” em seu processo de profissionalização. A idolatria por Zico e outros personagens que atravessaram o mundo, fincando a bandeira da J-League em seus primeiros anos, perdura até os dias de hoje. E a gratidão também respinga sobre o primeiro grande título internacional da seleção japonesa. Coincidentemente, na antevéspera do amistoso que será realizado em Lille, se completam 25 anos da Copa da Ásia de 1992, a primeira das quatro conquistas continentais dos nipônicos.

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Se o Japão se acostumou a figurar na Copa do Mundo, partindo à sua sexta edição consecutiva em 2018, naquele momento o peso dos Samurais Azuis não era muito grande. Nunca tinham figurado no Mundial e sequer davam tanta importância à Copa da Ásia, abrindo mão de várias edições até fazerem sua estreia em 1988, quando ficaram na lanterna de seu grupo na primeira fase. Se existia alguma honra à seleção japonesa, esta se concentrava nos Jogos Olímpicos, com duas campanhas até as quartas de final, além da medalha de bronze conquistada na Cidade do México, em 1968. Entretanto, o futebol nacional sofria uma profunda transformação na virada da década de 1990, com o nascimento da J-League. As empresas às quais os clubes estavam ligados no sistema semi-profissional dariam o impulso. E, neste contexto, a Copa da Ásia de 1992 teve seu papel central.

Pela primeira vez, o Japão sediava a competição continental. A organização do torneio ficou por conta da Prefeitura de Hiroshima, que realizou as partidas em dois estádios da região: o Big Arch, ainda hoje principal praça esportiva local, e o pequenino Bingo Athletic, na cidade vizinha de Onomichi. Mais importante que a infraestrutura para o certame, entretanto, era o impacto esportivo que ele poderia causar neste momento. Depois de três anos de preparação, a liga de clubes tinha sido formada. A J-League tinha seu pontapé inicial estipulado para meses depois, em maio de 1993. Por isso, uma boa campanha dos Samurais Azuis poderia referendar a guinada.

O elenco era formado por jogadores de clubes que disputaram a última temporada da Japan Soccer League em 1991/92 e, majoritariamente, participariam da edição inaugural da J-League – a exceção ficava para os membros do Yamaha, futuro Jubilo Iwata, que integrou inicialmente a segunda divisão. Além disso, o grupo contava com atletas formados na estrutura universitária e cujas experiências se resumiam à realidade semi-profissional do futebol local, alguns deles convocados à seleção desde a década de 1980. Apenas dois nomes fugiam à regra geral. Dois jogadores míticos aos Samurais Azuis e que ofereciam o “tempero brasileiro” naquela Copa da Ásia: Ruy Ramos e Kazu Miura.

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Os dois craques daquele time haviam seguido caminhos bastante distintos até se tornarem companheiros. Ruy Ramos nasceu em uma família humilde no Rio de Janeiro, antes de se mudar para São Paulo. Atuou na várzea e nas divisões inferiores do Campeonato Paulista, até surgir, em 1977, a oportunidade de jogar no time do Grupo Yomiuri – grande conglomerado de mídia de Tóquio. Foi pelo dinheiro que ganharia no campeonato semi-profissional e teve dificuldades para se adaptar. Contudo, o zagueiro transformado em camisa 10 deu a volta por cima e se transformou num dos principais jogadores do país na década de 1980. Naturalizou-se em 1989 e logo ganhou as primeiras convocações. O veterano era um nome óbvio para a Copa da Ásia, mesmo aos 35 anos.

Kazu, por sua vez, pegou a ponte aérea na direção inversa. Filho do herdeiro de uma cadeia de lojas, viajou para o Brasil aos 15 anos, em 1982. O intuito? “Aprender futebol” com os especialistas na arte. Obviamente, o garoto tinha boa dose de habilidade e não demorou a se dar bem. Chegou ao Juventus, ganhou notoriedade no XV de Jaú, defendeu Santos, Palmeiras, CRB e Coritiba. Em meados de 1990, logo depois de sua segunda passagem pela Vila Belmiro, decidiu que era hora de voltar para casa. Ajudaria a transição ao profissionalismo e se tornaria protagonista da seleção. Jogou justamente no Yomiuri, futuro Verdy Kawasaki, ao lado de Ruy Ramos. E não demorou para cavar seu espaço nos Samurais Azuis, vestindo a camisa 11 na Copa da Ásia.

Já no comando daquela geração, estava o primeiro estrangeiro a assumir os Samurais Azuis, o holandês Hans Ooft. Ex-jogador do Feyenoord e de outros clubes médios em seu país, precisou pendurar as chuteiras em 1976, aos 29 anos, por causa de uma lesão. Três anos depois, teve o seu primeiro contato com o futebol japonês, treinando a seleção sub-18 em excursão à Europa. Faria o mesmo no ano seguinte, até ser convidado a trabalhar no Japão. Comandou as equipes semi-profissionais e havia voltado à Holanda, para ser diretor técnico do Utrecht, até ser convidado a assumir a seleção em 1992. Em um momento crucial para o esporte local, trabalhava em cooperação para o desenvolvimento da J-League.

Antes da estreia na Copa da Ásia, o Japão se preparou especialmente para o torneio. Chegou a disputar dois amistosos com a Juventus, em excursão pelo país, com os dois empates bastante comemorados pelos japoneses. A Velha Senhora de Giovanni Trapattoni estava com a equipe completa, incluindo Roberto Baggio no comando de seu setor ofensivo. Além disso, os nipônicos conquistaram a Dinasty Cup, quadrangular realizado contra China, Coreia do Sul e Coreia do Norte. Motivos para elevar as expectativas sobre o time.

Classificado automaticamente à fase final da Copa da Ásia, por ser sede, o Japão não teria vida fácil em sua estreia. Enfrentaria os Emirados Árabes Unidos, um dos representantes asiáticos na Copa do Mundo de 1990. E apesar do domínio dos Samurais Azuis, o empate por 0 a 0 saiu amargo. Na segunda partida, mais um susto. Diante da Coreia do Norte, esperava-se que os nipônicos cumprissem o seu papel com autoridade, especialmente depois da goleada por 4 a 1 na Dinasty Cup. Na realidade, os anfitriões precisaram correr atrás do prejuízo. Os norte-coreanos abriram o placar no primeiro tempo, em uma cobrança de pênalti, enquanto Masashi Nakayama marcou o gol do empate por 1 a 1 apenas aos 35 do segundo tempo, completando cruzamento de Kazu. Desta maneira, só a vitória interessava aos donos da casa na última rodada, diante do Irã.

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Mais de 37 mil torcedores encheram as arquibancadas do Big Arch de Hiroshima. E os torcedores puderam comemorar a vitória apenas nos últimos suspiros. Em uma partida bastante movimentada, com chances para ambas as equipes, o Japão precisou perseverar até os 42 do segundo tempo. Após um passe em profundidade, Kazu acreditou no lance e saiu de frente para o gol. Encheu o pé para estufar as redes. Na comemoração, saiu desembestado até a pista de atletismo do estádio, fazendo sua tradicional ‘sambadinha’ – inspirada no artilheiro Careca. Ao apito final, todos os jogadores nipônicos abraçaram o Rei.

A vitória colocou o Japão nas semifinais, diante da China. Um clássico em Hiroshima. E por mais que os chineses também vivessem um momento pouco expressivo de seu futebol, deram trabalho. Xie Yuxin abriu o placar para os Dragões, enquanto a reação dos Samurais Azuis aconteceu apenas no segundo tempo. Em mais um escanteio de Kazu, Masahiro Fukuda empatou e a virada saiu em boa jogada individual de Tsuyoshi Kitazawa. A China voltou a empatar, com Li Xao. Mas os japoneses marcaram o terceiro a seis minutos do fim. Mais uma bola na área que fez a diferença, para Nakayama cumprimentar rumo às redes e decretar o 3 a 2.

Na decisão, um desafio e tanto. A Arábia Saudita também pegava embalo na competição e preparava a geração que colocaria o país nas três Copas do Mundo seguintes. Entre os destaques individuais, estava o imparável camisa 7 Saeed Al-Owairan. O Japão, de qualquer maneira, tinha as suas armas. E contava com o apoio da empolgada torcida, que esgotou entradas para a final. Cerca de 60 mil lotavam as arquibancadas do Big Arch, sedentos por uma conquista que coroasse os Samurais Azuis.

O gol do título nasceu aos 36 minutos de jogo. Ruy Ramos, em seu estilo peladeiro, mas cheio de qualidade técnica, deu um lançamento primoroso à ponta esquerda. O cruzamento saiu e Takuya Takagi (atacante justamente do Sanfrecce Hiroshima) apareceu livre na área. Teve tempo de matar no peito e bater de canhota, rasteiro, vencendo o goleiro Shaker Al-Shujaa. Os sauditas não conseguiriam recobrar o prejuízo, derrotados por 1 a 0. Ao apito final, uma enorme festa tomou o estádio, com centenas de bandeiras tremulando nas arquibancadas. Pela primeira vez o troféu da Copa da Ásia ia para os japoneses, erguido pelo capitão Tetsuji Hashiratani – símbolo da J-League em seu início, defendendo também o Verdy Kawasaki. Já o prêmio de melhor jogador da competição acabou com Kazu Miura. Mesmo anotando apenas um gol, a qualidade técnica do atacante foi fundamental aos nipônicos.

“Esse torneio mostrou o quão longe nossa seleção poderia ir. Não éramos cotados entre os favoritos e, depois que ganhamos do Irã e da Arábia Saudita, começaram a falar sobre o fortalecimento do Japão. Eu coloquei a alma nos meus pés. A cada partida que o time vencia, as pessoas se empolgavam, a mídia crescia e a torcida aumentava”, comentou Kazu, em entrevista ao Soccer King, em 2015.

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“A seleção não estava preparada anteriormente. Ooft fez suas demandas por melhorias e, então, vários instrumentos foram providenciados. A comissão técnica cresceu, o ambiente rapidamente mudou. O Japão começou a vencer, conquistou a Copa da Ásia. E então, a atenção aumentou, a imprensa toda se voltou ao time durante as Eliminatórias. É por isso que a Copa da Ásia foi um marco. Penso que o futebol japonês se transformou a partir dela. Se não ganhássemos o título, o crescimento poderia ter sido mais lento. Talvez a J-League não fizesse tanto barulho quanto aconteceu naquele momento. Havia um sentimento verdadeiro de que a seleção e a liga poderiam crescer juntas. Acredito que foi a Copa da Ásia que nos colocou nesse embalo”, complementou.

O Japão, de fato, entrou nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994 sob outros olhares. Enfim, se colocava entre as principais seleções do continente e sobrou na primeira fase, antes de chegar ao famoso hexagonal final disputado no Catar. Na última rodada, aconteceu a traumática ‘Agonia de Doha’, que culminou na eliminação dos nipônicos, quando tinham a vaga ao Mundial nas mãos. Não foi isso, de qualquer forma, que interrompeu a progressão da J-League e da seleção. Em 1998, a equipe viajou à Copa da França, com dois remanescentes da Copa da Ásia de 1992: o agora capitão Masami Ihara e o velho herói Masashi Nakayama, autor do primeiro tento japonês em Mundiais. Já a reconquista do torneio continental aconteceria em 2000, 2004 e 2011. O caminho firme pavimentado há exatos 25 anos.