Berbatov era conhecido pela sua frieza, ótima característica para um atacante. Extremamente técnico, conseguia marcar belos gols e foi um bom artilheiro para Tottenham, Manchester United e Fulham: 94 gols em 229 partidas de Premier League não é uma marca desprezível. Para o observador desavisado, passava uma ar blasé, como se não estivesse muito interessado na partida ou em perseguir a bola. Estava, porém, apenas correndo de outra forma.

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“Eu corro na minha cabeça, tentando antecipar os movimentos e ver para onde a bola está indo antes de ir para lá. É isso que bons jogadores fazem”, afirmou, em uma entrevista completa à ESPN britânica, na qual falou sobre tudo: sua infância na pobre Bulgária, o começo da carreira, Tottenham, Manchester United, Monaco, a passagem pela Grécia e seu novo desafio no Kerala Blasters, da Índia. O jogador de 36 anos ama demais o futebol para parar de jogar.

Leia a entrevista inteira aqui e confira alguns trechos traduzidos abaixo.

O lado tímido de Berbatov

Os torcedores do Tottenham gostavam de mim. Quando eu os ouvi gritar meu nome, eu pensei: ‘O que diabos? Por que estão cantando para mim?’. Eu não gostava da atenção. Alguns jogadores gostam, mas eu ficava envergonhado e pensando ‘Por favor, por favor, calem a boca’. Eu não sei por que eu me sentia daquele jeito, mas, quando minha família queria me assistir, eu sempre pedia que não viessem ao estádio. Algumas vezes eu tive que ser duro e dizer: ‘Não, você não virá’. Até mesmo para o meu pai. Ele sabe que eu prefiro que ele me assista pela televisão, sem a pressão de ter que jogar bem se ele vier ao estádio.

Tenho todas minhas boas ideias no banheiro

No Boxing Day de 2012, Berbatov marcou um gol contra o Southampton e comemorou tirando a camiseta para mostrar a mensagem: “Fique calmo e me passe a bola”. Levou o cartão amarelo.

“Antes do jogo, enquanto me aquecia, eu fui ao banheiro. Lá, eu decidi colocar a mensagem na minha camiseta. Tenho todas minhas boas ideias no banheiro. Peguei uma caneta com o roupeiro e sempre jogo com uma camiseta por baixo. A mensagem foi espontânea e não contei para ninguém”.

Tripleta contra o Liverpool

Jogadores de futebol fazem ­hat-tricks o tempo inteiro. Mas esse foi especial porque foi contra o Liverpool. O segundo gol foi muito especial. Nani cruzou a bola e eu vi Rooney na minha frente. Eu vi pelo movimento do seu corpo que ele tentaria chegar à bola. Eu disse: ‘Wazza, deixa. Wazza! Wazza! É minha!’. Ele saiu e depois ficou muito orgulhoso: ‘Eu deixei para você’. Eu controlei a bola com a coxa. Eu estaria mentindo se dissesse que foi de propósito. A bola estava caindo e minha coxa era a melhor opção. As decisões são tomadas em nanosegundos. Foi automático. Não pensei nisso. E o jeito como a bola entrou, batendo na trave e caindo, fez o gol ser mais legal. Pelo grito da torcida, eu soube que tinha entrado.

O título perdido para o City em 2011 no último segundo

Eu não acreditava no que estava acontecendo. Estávamos comemorando o título e, de repente, ‘O quê?’. Como time, esse foi meu pior momento em Old Trafford. Pessoalmente, quando perco uma chance ou não jogo bem, sempre me sinto mal. Mas quando Agüero marcou aquele gol, foi terrível para todos nós. Alguém disse que o jogo deles havia acabado e comemoramos. Mas alguém disse: ‘Não, eles marcaram’. A viagem de volta para Manchester foi terrível. Normalmente, quando você perde, você tenta brincar porque terá outra partida. Mas essa foi no último minuto do último jogo da temporada.

As taças

As taças da Premier League que Berbatov conquistou com a camisa do Manchester United são sua foto de perfil no Whatsapp.

“Eu me orgulho delas. Fui o primeiro búlgaro a vencê-las. Eu fiquei tão feliz que fui para casa e fiz amor com minha mulher”.

Messi

Ele é o melhor. Ronaldo é brilhante, mas Messi é mais o meu tipo de jogador. Ele vê o jogo tão claramente. Ele consegue marcar, criar, ele é o jogador completo, o melhor de todos os tempos provavelmente. Se você perguntar a alguém mais velho que eu, ele dirá Pelé, Maradona ou Puskas ou Di Stéfano. Mas, para a minha geração, é Messi ou Ronaldo. São muito parecidos, mas algo em Messi me faz gritar ‘Messi! Messi!’ quando eu assisto ao Barcelona na televisão.

Hobbies

Eu pinto e desenho. Consigo desenhar qualquer coisa. Eu consigo ver algo que eu gosto, imaginá-lo, relaxar e desenhá-lo de cabeça. Eu consigo desenhar retratos, consigo desenhar pessoas, personagens engraçados ou paisagens. Eu desenho para minhas filhas. Elas constantemente me pedem para desenhar

Martin Jol

Eu via meu avô nele. Ele era um cara grande e você pensa que é um cara duro, mas, por baixo, é um homem muito gentil. Eu soube imediatamente que teria uma boa relação com ele.

Monaco

Estava no primeiro treino e vi Anthony Martial, James Rodríguez, Geoffrey Kondogbia, Yannick Carrasco, Bernardo Silva. Esses jogadores jovens voando ao meu redor e pensei: ‘Que diabos? Eu estou velho demais ou eles são bons demais?’. Martial tinha algo especial e ele se desenvolveu. Vai se desenvolver ainda mais.

O melhor parceiro: Robbie Keane

Nós simplesmente nos entendíamos. Ele sabia quem eu era. Ele não ia me incomodar e perguntar por que eu não estava falando e eu respeitava isso. Nós nos entendíamos em campo e eu sempre sabia onde ele estava. Nós nos complementávamos muito bem e marcamos gols lindos.