Faz oito anos que o mundo perdeu Robert Enke. O alemão tirou a própria vida em 10 de novembro de 2009. Em carta para o site de Theresa Enke, mulher do ex-goleiro e chefe executiva da fundação, com o nome dele, que combate problemas de saúde mental, o jogador do Arsenal, Per Mertesacker, fez questão de homenageá-lo e chamar a atenção para a luta contra a depressão no futebol.

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Mertesacker e Enke coincidiram no Hannover 96 entre 2004 e 2006 e também na seleção alemã. Na carta, Mertesacker relembra como o ex-goleiro contribuiu para o seu desenvolvimento no começo da sua carreira. Relembra como gostava de conversar com ele quando os dois se encontravam para partidas da Alemanha. Lembra e lembra porque, de Enke, infelizmente, sobraram apenas lembranças.

Contribuição de Per Mertesacker

Quando chegava ao hotel, para uma partida internacional, havia duas coisas para fazer: o check in e ligar para Robert. “Você já está aqui? Acabei de chegar. Você vem para o meu quarto?”. Alguns minutos depois de chegarmos, sentávamos juntos e conversávamos sobre tudo que vinha à mente.

O fato de que este é o oitavo aniversário da morte dele, que minhas conversas com ele são de quase uma década atrás, me assusta. Não pode ter sido há tanto tempo. O que eu fiz nesses anos? Os anos passam rápido para um jogador de futebol profissional porque nossos olhos estão sempre mirando para frente, como continuar, concentrados no próximo jogo. Mas minhas experiências com Robert sempre parecem mais próximas do que oito anos, porque elas significam muito para mim. Robert Enke teve uma influência positiva na minha vida como nenhum outro colega.

Eu era um calouro de 19 anos que havia acabado de completar seu primeiro jogo de Bundesliga quando Robert entrou nos vestiários do Hannover 96, no verão de 2004, e me cumprimentou: “Ah, olá, você é Per”. Ele vinha da Espanha, tinha jogado pelo Barcelona, tinha 27 anos, e desde o começo ele me passava a sensação de que gostava de mim, o calouro. Eu era o zagueiro, ele, o goleiro: ele literalmente ficava atrás de mim. Ele me encorajava. Ele apontava minhas qualidades e eu não se sentia mais como um inseguro jovem de 19 anos. Ele me indicava que se sentia seguro comigo na defesa. Eu duvido que uma experiência mais bonita possa acontecer no trabalho, não importa o emprego que você tenha: ele me passava confiança.

Ele teve uma influência decisiva no meu desenvolvimento como jovem zagueiro. Não tenha medo se você não desarmar o adversário – Robert está lá. Ele radiava calma e determinação. Ele persistia. Eu acho importante lembrar isso, não para glorificar Robert, mas para deixar claro que pessoas que sofrem com depressão não são, de maneira alguma, fracas; isso também pode atingir os mais fortes, como Robert, porque, como o câncer, é apenas uma doença.

Quando eu me transferi para o Werder Bremen, em 2006, e Robert ficou no Hannover, tínhamos um sonho em comum: jogar juntos novamente no time nacional. Nós sempre nos lembrávamos. Aos 29 anos, ele realmente chegou à seleção alemã. Imediatamente ao voltarmos ao hotel, nós nos sentamos à noite no hotel, juntos. Para mim, eram momentos raros: aqui, com Robert, não pensávamos no próximo jogo por algumas horas, mas aproveitávamos o que havíamos feito.

As notícias da sua morte me atingiram muito forte. Como era possível que este equilibrado e reflexivo amigo estava, aparentemente, tão doente que tirou a própria vida? Como é possível que eu não notei? E claro que a questão machuca: por que ele nunca me disse da sua depressão? Éramos amigos que, como dizem, contávamos tudo um ao outro.

Aprendi que ocultar faz parte da doença. Quando as pessoas estão deprimidas, muitas deles querem esconder. Eu também entendo que Robert passou a maior parte da sua vida do jeito como eu o conheci: racional, com uma felicidade quieta, saudável. Como muitos que sofrem, a depressão apenas o alcançou em curtos períodos da sua vida.

Com sua morte, Robert nos deu a missão de combater melhor as doenças mentais. Quando eu penso no meu próximo trabalho, por exemplo, eu vejo um campo de ação: no próximo verão, ao fim da minha carreira profissional, serei treinador das categorias de base do Arsenal, em Londres. E há um problema estrutural no setor júnior que também pode pressionar a mente: 80% dos garotos que assinam contrato de experiência, como jovens profissionais na Inglaterra, aos 16 anos, estão desempregados aos 18. Isso é um fato porque simplesmente não há mais espaço nos times masculinos dos clubes profissionais. Mas poucos estão preparados para isso, poucos pensaram em outra profissão. A Federação Inglesa está tratando do problema com mais agressividade, com orientação de carreira e serviços de doenças mentais. Mas quantos pulam a própria sombra para aceitar ajuda? Se não conseguem admitir para si mesmos, não vão se tornar profissionais. Há que se fazer de tudo sobre esse assunto, então fico feliz que a Fundação Robert Enk também esteja conversando com a Federação Inglesa para estender seu trabalho para o Reino Unido.

Muitas pessoas do entorno de Robert estão comprometidas com esta área, com sua mulher Teresa à frente. Estou feliz por poder contribuir com uma pequena parte com esta participação. A memória de Robert ainda me ajuda: de tempos em tempos, minhas experiências com ele aparecem na minha mente. Então sinto, além da dor, a felicidade desses momentos.