Restando cerca de um minuto para o apito final, eis que desfez-se a luz. O breu tomou as ruas de Cali, após um corte de energia elétrica na cidade colombiana. Quem acompanhava pelo rádio a final da Libertadores, que acontecia em Santiago, continuou vacinado. O problema é que a maioria dos fanáticos pelo América de Cali estava mesmo antenada através da TV. E diante dos poucos segundos para a glória negada nos anos anteriores, com os dois vice-campeonatos consecutivos, os alvirrubros ansiosos já saíram às ruas para festejar o fim da maldição. Para celebrar a conquista do continente. Entretanto, a energia não tardou a voltar. E ninguém entendeu a gritaria dos rivais. Ninguém podia conceber aqueles homens de aurinegro dando a volta olímpica no Estádio Nacional. Pois aconteceu. No apagar das luzes, literalmente, o Peñarol se sagrou campeão. Num piscar de olhos, suficiente para o chute de Diego Aguirre romper seu caminho rumo às redes, a dois segundos do fim.

Ainda hoje, a decisão da Copa Libertadores de 1987 é considerada uma das mais emocionantes da história. E a desgraça dos torcedores do América de Cali, que permaneceram no escuro de sua desilusão mesmo quando a energia voltou, contrastou com a alegria reluzente do Peñarol. Com o poder de fogo de Aguirre, o iluminado. Donos de um esquadrão bancado pelo Cartel de Cali, os Diablos Rojos tiveram a taça em suas mãos por 119 minutos e 58 segundos do jogo-desempate em Santiago. Até que o chute cruzado de ‘La Fiera’ decretasse o quinto título continental dos aurinegros. “A lo Peñarol”, por toda a emoção, como diriam seus torcedores. O “Peñarol de los milagros”, como estamparia a revista El Gráfico. Épico que completou 30 anos na última semana.

Aquele Peñarol, no entanto, estava longe de ser favorito à conquista da Copa Libertadores. Os carboneros vinham em um momento de transição. Foram bicampeões uruguaios em 1985 e 1986, é verdade. Entretanto, também em 1986, haviam amargado sua pior campanha na competição continental até então, com cinco derrotas e um empate em chave ao lado de Montevideo Wanderers, River Plate e Boca Juniors. A crise econômica afligia os aurinegros, que precisaram vender alguns de seus principais jogadores. O elenco chegou a ficar 30 dias sem treinar, por falta de salários. Além disso, Roque Máspoli, goleiro campeão do mundo em 1950 e que treinava a equipe naquele momento, aceitou a oferta de emprego do Barcelona de Guayaquil, deixando os manyas logo depois de selar o bicampeonato nacional, em janeiro de 1987.

Histórico presidente do Peñarol, José Pedro Darmiani acabara de reassumir o comando do clube. E fez uma aposta para o banco de reservas. Considerando o elenco extremamente jovem, cheio de jogadores da base, o dirigente acionou Óscar Washington Tabárez. O ex-professor estava em viagem à Colômbia, disputando o Campeonato Sul-Americano juvenil com a seleção uruguaia. Quando voltou a Montevidéu, aceitou a missão de conduzir os carboneros. Às vésperas de completar 40 anos, o Maestro ainda dava os primeiros passos de sua carreira. Muitos não o consideravam técnico de clube grande, após passagens por Montevideo Wanderers, Danubio e Bella Vista. Sua prova cabal viria com os aurinegros.

Contavam-se nos dedos os jogadores mais tarimbados daquele Peñarol: o goleiro Eduardo Pereira, o zagueiro Obdulio Trasante e o meia Ricardo Viera. Depois, chegou o meio-campista Juan Carlos Paz, raríssimo reforço naquele ano. Nenhum dos titulares que conquistaram a Libertadores em 1982 permaneciam no clube. Já a renovação era ampla, iniciada ainda por Maspoli. A maioria absoluta dos atletas tinha 24 anos ou menos, muitos deles recém-promovidos das categorias de base. Promessas como José Herrera, José Perdomo, Eduardo da Silva e Daniel Vidal compunham a espinha dorsal do time. Havia até mesmo filhos de antigos ídolos, como o zagueiro Jorge Gonçalves e o meio-campista Gustavo Matosas, que carregavam o DNA de multicampeões dos anos 1960, Néstor Gonçalves e Roberto Matosas.

Já no comando do ataque, Diego Aguirre havia chegado ao Peñarol nos últimos meses de 1986. O prodígio de 21 anos (completaria 22 durante a campanha na Libertadores) fazia sucesso com a camisa do Liverpool, artilheiro da segunda divisão do Campeonato Uruguaio, o que valeu o negócio aos carboneros. Tinha um peso enorme ao vestir a camisa 9 de Fernando Morena, ídolo aurinegro incontestável que se aposentara pouco antes. Logo corresponderia.

O início do trabalho de Tabárez não foi bom. O treinador sofria a pressão pelo futebol inconsistente e pela falta de bons resultados. Os jogadores demoraram a assimilar seus conceitos. E ele acabou salvo por uma partida mítica, que entrou para a antologia do Peñarol. Em abril de 1987, os carboneros participavam da Copa Andalucía, um torneio triangular que contava também com a participação do Betis e do rival Nacional. No dia 23 daquele mês, o Estádio Centenario recebeu o dérbi. E a raça do time treinado pelo Maestro preponderou.

Quando o placar assinalava o empate por 1 a 1, o Peñarol teve três expulsões em sequência. Precisou jogar com oito atletas, contra 11 do Nacional, durante os 15 minutos finais. Pois o milagre foi além da mera igualdade. Aos 37 do segundo tempo, em um contra-ataque, Jorge Cabrera anotou o segundo gol dos manyas. Por mais oito minutos, seguraram a épica vitória por 2 a 1. Aquele jogo ficou conhecido como “El clásico de los 8 contra 11”. Serviu para elevar a confiança do elenco, se recuperando na sequência da temporada. Tabárez, que dois dias antes havia se reunido com a diretoria e ouvido que não seria mais o técnico, mantido apenas até o clássico, acabou permanecendo para fazer história.

A campanha do Peñarol na Copa Libertadores começou apenas em maio. E os aurinegros passaram pela primeira fase sem grandes problemas. Os times uruguaios foram sorteados ao lado dos peruanos na chave. A equipe de Tabárez somou quatro vitórias e dois empates contra Alianza Lima (treinado pelo genial Didi), Colégio San Agustín e Progreso. Em tempos nos quais apenas os líderes dos grupos avançavam ao triangular semifinal, o desempenho irretocável dos carboneros era fundamental. As dificuldades na etapa seguinte da competição, todavia, seriam bem claras.

O elenco do Peñarol, que já não tinha tanta fartura, perdeu Juan Carlos Paz e Daniel Rodríguez, vendidos. Além disso, o chaveamento não foi nada afável aos uruguaios. Pegariam o River Plate, campeão continental no ano anterior; e o Independiente, dono da taça três anos antes, em sua sétima conquista na Libertadores. Naquele momento, os manyas soavam como azarões. Era preciso respeitar a história da camisa aurinegra, mas poucos confiavam naquele elenco cheio de garotos, com média de idade de 22 anos.

Um momento importante para o Peñarol aconteceu no intervalo entre a fase de grupos e o triangular semifinal. Com a brecha de quase três meses no calendário, os manyas aproveitaram para fazer uma turnê pelo México. A equipe disputou uma série de amistosos. Mais relevante, contudo, foi a maneira como a viagem ajudou o grupo a se unir. “Foi o momento onde a equipe se consolidou e estivemos muito próximos. Passamos mais de 30 dias rodando por todo o México e às vezes fazíamos longas viagens de ônibus. Convivemos muito e se formou um sentimento espetacular de amizade, de muita confiança. Tenho certeza que a união gerada por esta excursão foi importantíssima para estarmos mais ligados depois e jogar como jogamos, conquistar coisas incríveis como conquistamos”, declarou Diego Aguirre, na última semana, em entrevista ao site Referí.

A estreia do Peñarol na segunda fase foi bastante imponente. O Independiente possuía um elenco bastante qualificado, com Ricardo Bochini, Luis Islas, Néstor Clausen. Acabaram tomando um vareio na visita ao Centenario. Vitória dos carboneros por 3 a 0. Aguirre abriu o placar de cabeça, aos 17 minutos. Antes do intervalo, após uma ligação direta da defesa, Cabrera sair de frente para o gol e não perdoou. Já na etapa complementar, Matosas terminou de levar os aurinegros que lotavam as arquibancadas ao delírio, completando na pequena área.

Na segunda rodada, o River Plate visitava o Centenario, também com um time de respeito. Sergio Goycochea, Oscar Ruggeri, Antonio Alzamendi e Nestor Gorosito estavam do outro lado. Prevaleceu o empate por 0 a 0 durante os 90 minutos, que deixava certo ar de preocupação ao Peñarol. Afinal, a equipe ainda seguia dependendo apenas de si, mas precisava arrancar os resultados na Argentina. Sobretudo, em Avellaneda, onde o Independiente nunca havia perdido para uma equipe estrangeira pela Copa Libertadores e sustentava uma invencibilidade de 34 jogos na competição. Mas para tudo há uma primeira vez. E os manyas seriam os responsáveis por quebrar a escrita, em uma noite histórica contra o Rojo.

Com as duas equipes igualadas na tabela, o vencedor em La Doble Visera encaminhava seu lugar na decisão. E o Peñarol teve uma atuação irrepreensível. Durante o primeiro tempo, os aurinegros fizeram um ótimo trabalho na defesa, marcando forte o maestro Bochini. Já na segunda etapa, a velocidade de seu ataque valeu o triunfo. Aguirre abriu o placar aos 13, de peixinho, e Cabrera marcou o segundo, em contragolpe, pouco depois que o Independiente acertou uma bola no travessão de Pereira. Partindo para cima, os Rojos diminuíram com Alejandro Barberón, mas logo Da Silva faria o terceiro dos uruguaios, em jogadaça individual, entortando dois marcadores. Os argentinos teriam seu último suspiro com José Percudani, descontando novamente. Mas a estocada fatal aconteceria a dois minutos do fim, em mais um contra-ataque para Cabrera arrematar.

A vitória por 4 a 2 sobre o Independiente ratificou a classificação do Peñarol. Precisava apenas cumprir tabela contra o River Plate, que não poderia mais alcançá-lo. E os carboneros se deram o luxo de perder no Monumental, com Ruggeri garantindo o triunfo dos Millonarios por 1 a 0. Neste momento, a cabeça dos uruguaios já estava na decisão, à qual voltavam após quatro anos de hiato, desde a derrota para o Grêmio em 1983. E o adversário já estava calejado. O América de Cali passou por Cobreloa e Barcelona de Guayaquil no triangular. Ia para a sua terceira final consecutiva, depois de ser derrotado por Argentinos Juniors e River Plate nas duas edições anteriores. Já no Campeonato Colombiano, havia acumulado todos os títulos de 1982 a 1986.

Aquele América intimidava. Não apenas por sua rodagem ou pela relação íntima com o Cartel de Cali, grande responsável por financiar os Diablos Rojos – e que seria o motivo de sua perdição anos depois. Mas também porque a equipe treinada por Gabriel Ochoa Uribe exibia um futebol ofensivo, cheia de jogadores renomados. A linha de frente era composta pelo paraguaio Juan Manuel Battaglia, pelo argentino Ricardo Gareca e pelo colombiano Willington Ortiz, todos respaldados em suas seleções. Na armação, a qualidade ficava por conta de outro guarani, o mágico Roberto Cabañas. O meio contava com o uruguaio Sergio Santín, presente na Copa do Mundo de 1986, e com o cafetero Victor Luna. E ainda havia o goleiro argentino Julio César Falcioni, um dos símbolos da era de ouro em Cali.

Além do mais, o América representara um pesadelo ao Peñarol pouco antes na Libertadores. Os times se cruzaram a primeira vez em 1985, no triangular semifinal. Depois do empate por 1 a 1 no Centenario, os Diablos Rojos enfiaram 4 a 0 sobre os carboneros na visita à Colômbia. Cabañas comandou o show, anotando dois gols, enquanto Gareca e Battaglia também deixaram as suas marcas. Pois os algozes estavam ainda mais sedentos pela taça que lhes escapara tantas vezes. O inexperiente elenco aurinegro precisaria se superar.

O Peñarol, de qualquer maneira, tinha uma equipe que se consolidava com Óscar Tabárez. Eduardo Pereira era a voz de comando à frente da meta, goleiro de larga experiência principalmente por sua passagem pelo futebol espanhol, onde defendeu o Espanyol, o Salamanca e o Sabadell. Na mesma época, se firmaria na seleção uruguaia e disputaria a Copa de 1990. No miolo da zaga, o papel de caudilho, tão comum aos grandes times charruas, ficava a encargo de Obdulio Trasante, zagueiro duríssimo e bastante aguerrido, que pouco depois se transferiria ao Grêmio. Era acompanhado por Marcelo Rotti. Na lateral, além do competente Alfonso Domínguez, um dos melhores do time era José Herrera, que subia ao ataque e contribuía com seus gols, podendo também atuar no meio.

Mais à frente, na meia-cancha, quatro jogadores principais se revezavam. O cão de guarda era José Perdomo, um camisa 5 enérgico. Ricardo Viera era o incumbido de dar consistência à faixa central, enquanto Eduardo da Silva e Gustavo Matosas se revezavam na armação. Na frente, o tridente jovem e veloz. Jorge Cabrera e Daniel Vidal caíam pelas pontas. Como homem de referência, o letal Diego Aguirre. Com estes 12 homens, o Maestro Tabárez escalaria o Peñarol nos jogos decisivos, contando também com Jorge Gonçalves e Jorge Villar saindo do banco de reservas. Montava um time disciplinado na marcação, bastante dinâmico na movimentação e que primava especialmente pela verticalidade em seus ataques, além das bolas paradas.

O primeiro jogo da final aconteceu no Estádio Pascual Guerrero. Mais de 65 mil faziam as arquibancadas pulsarem em um vermelho vivo, como a camisa dos Diablos Rojos. E a pressão não se resumia a isso. Surgiam rumores sobre a “compra” do árbitro da partida, o brasileiro José Roberto Wright – que, apesar disso, não teve qualquer interferência no resultado. Já nos vestiários, até hoje os jogadores do Peñarol suspeitam, sem poder comprovar, que foram vítimas de uma trapaça dos colombianos. Uma fumaça tomou o ambiente. Segundo Aguirre, sua equipe entrou desatenta em campo. Algo que se refletiria diretamente no placar.

“Jogaram fumaça no vestiário, dentro de um ambiente muito pesado. Tudo foi real. No vestiário, você não via nada por causa da fumaça, tivemos que sair. Temos a dúvida até hoje se é verdade que nos sentimos meio adormecidos quando entramos na partida. Talvez ganhassem o jogo igual sem precisar disso, mas a sensação era de que perderíamos e não estávamos revoltados por isso. Perguntamos a nós mesmos o que seria aquilo, se era algum tipo de tranquilizante ou sonífero. Perdemos e fomos cavalheiros, aceitamos tudo e voltamos. Mas é insólito”, contou Aguirre, ao Referí.

Quando a bola rolou, de fato, o América de Cali pareceu um time de adultos contra um bando de garotos imberbes, resolvendo o jogo com apenas 20 minutos. Battaglia abriu a contagem para o América com uma cobrança de falta colocada, enquanto Cabañas ampliou em uma pancada de fora da área. Pior, o Peñarol ainda ficou desfalcado de Matosas, substituído por lesão ainda no primeiro tempo. Durante a etapa complementar, os visitantes finalmente se recuperaram. Pressionaram bastante, mas sem aproveitar suas chances para diminuir o 2 a 0. Teriam que resolver no Centenario.

Naquela época, a diferença de gols não importava para o jogo de volta da Libertadores. Assim, o Peñarol precisaria de uma vitória simples para forçar o jogo-desempate, previamente marcado para Santiago. De qualquer forma, o América estava confiante no empate, a ponto de contratar previamente uma orquestra para comandar a festa do título no hotel onde estava hospedados. E os 60 mil presentes no Centenario congelaram logo aos 19 minutos, quando Cabañas acertou uma belíssima cabeçada para abrir o placar. O que se via, depois disso, era um verdadeiro bombardeio dos carboneros. Não era apenas uma atuação voraz no ataque, mas cheia de alma. Falcioni, porém, colecionava grandes defesas. Só pôde ser vencido a primeira vez aos 23 do segundo tempo, em cobrança de escanteio que Aguirre, sempre ele, completou de cabeça.

O Centenario vibrava, com a massa aurinegra empolgada. O América tentava ameaçar nos contra-ataques, e Battaglia chegou a obrigar um milagre de Pereira, mas também mostrava o seu nervosismo na defesa. O Peñarol se impunha e martelava, com os atacantes misturados às bobinas espalhadas pela área de Falcioni. O gol da vitória por 2 a 1 teria o dedo de Tabárez, que promoveu a entrada de Jorge Villar a partir do banco de reservas. A três minutos do fim, em uma falta frontal, o camisa 18 se reuniu com outros três jogadores para a cobrança. Era a bola do jogo. E a formação da barreira favoreceu o canhoto, que bateu com extrema categoria por cima dos adversários, com curva, acertando o ângulo de Falcioni. Na comemoração, Aguirre saiu correndo para gritar na cara do goleiro argentino, famoso por suas provocações. O triunfo por 2 a 1 confirmava o reencontro três dias depois, em Santiago.

O saldo de gols superior do América de Cali não adiantou muito para o segundo jogo, mas tinha sua serventia ao terceiro. Em tempos nos quais os pênaltis ainda não haviam sido adotados na Libertadores, os colombianos possuíam a vantagem do empate no Chile. Assim, o Peñarol carregava o peso da responsabilidade de derrotar novamente os Diablos Rojos. E, para tirar os adversários do sério, os jogadores de Gabriel Ochoa Uribe iam à forra. Um episódio simbólico aconteceu no hotel compartilhado pelas equipes em Santiago. Battaglia passou diante dos jogadores aurinegros com uma camisa do Nacional, que havia conseguido em Montevidéu. A alfinetada, contudo, só aumentou o brio dos charruas.

Em 31 de outubro de 1987, durante o aquecimento, um sentimento especial tomou os jogadores do Peñarol. Estavam no mesmo estádio onde, cinco anos antes, se consumou o quarto título continental. Aos 44 do segundo tempo, no jogo de volta contra o Cobreloa, Fernando Morena anotou o tento decisivo da Libertadores de 1982. Aguirre, em particular, se recordava do que seu ídolo fizera ali. “Pensei: ‘Que momento! Estou na mesma área e diante do mesmo arco onde Nando fez o gol em cima da hora, em 1982. Que bom seria fazer um gol aqui e repetir a história’. Eu te juro que imaginei isso”, contou o veterano, à revista SoHo.

Quando a bola rolou no Estádio Nacional, diante de 25 mil presentes nas arquibancadas, o pau comeu. O primeiro tempo foi bastante duro, com muitas entradas fortes de ambas as equipes. Os ânimos estavam bastante exaltados, por tudo aquilo que se vivera nos dois jogos anteriores. Perdomo sequer conseguiu permanecer na partida, substituído por Gonçalves no intervalo, após uma entrada dura de Santín. As duas equipes chegavam ao ataque, mas o nervosismo pesava na hora de concluir as jogadas, sem definir da melhor maneira. A tensão se arrastaria por mais tempo.

Na segunda etapa, as chances claras foram aparecendo de ambos os lados. O Peñarol chegou a acertar a trave esquerda da Falcioni, em chute de Viera. Aguirre, por sua vez, viu um belo gol por cobertura ser anulado por impedimento – até hoje, o atacante jura que o tento foi legítimo, embora a transmissão não tenha oferecido imagens conclusivas. O América também respondia e ameaçava a meta de Pereira. Além disso, cada equipe ficou com um a menos a 15 minutos do fim, quando Herrera e Cabañas trocaram agressões na linha de fundo. Os dois times perdiam jogadores importantes, embora o prejuízo técnico dos Diablos Rojos fosse maior. O paraguaio, mesmo assim, estava no lucro. Antes, tinha deixado Gonçalves com a boca sangrando e acertou um soco no olho de Aguirre fora do lance, em agressões que passaram impunes pela arbitragem.

Nos minutos finais do tempo regulamentar, aconteceram dois lances emblemáticos, um de cada lado do campo. Primeiro, em um cruzamento na área, Trasante tentou recuar de peito a Pereira, mas exagerou na força. A bola passou pelo goleiro e bateu no travessão, sobrando limpa para Gareca dentro da pequena área. O atacante do América emendou a bicicleta, incrivelmente errando o alvo. O argentino ainda se machucou no lance, precisando ser substituído. Além disso, a arbitragem também beneficiou os colombianos. Houve um pênalti escandaloso sobre Jorge Villar, que o chileno Hernán Silva não assinalou. Depois de 270 minutos de futebol, seriam necessários mais 30 de prorrogação até que o campeão se proclamasse.

O tempo extra, como era de se prever, foi ainda mais nervoso. Pesava o cansaço sobre as pernas, o número reduzido de jogadores em campo, as chagas da batalha. O América se empenhava em gastar os minutos para que a sonhada taça se aproximasse. O Peñarol era mais ofensivo, brigando demais no campo de ataque, mas não conseguia superar a barreira alvirrubra. Aguirre, bem marcado e com um hematoma abaixo do olho causado pelo soco de Cabañas, se debatia em vão. Além disso, os aurinegros tomavam os seus sustos nos contragolpes dos colombianos. E o clima bélico se espalhava até mesmo pelas arquibancadas, onde as duas torcidas pareciam prestes a se engalfinhar, com provocações e objetos atirados de um lado a outro.

As melhores chances aconteceram no segundo tempo da prorrogação. Logo nos primeiros minutos, Pereira fez uma belíssima defesa em chute rasteiro. Pouco depois, seria a vez dos carboneros responderem e Falcioni salvou o América. De qualquer forma, prevalecia a cera dos Diablos Rojos. Os reservas (e o expulso Cabañas) insistentemente atiravam bolas em campo para retardar a partida, retiradas a pontapés pelos charruas. E tudo parecia perdido quando, aos 14 minutos, Villar recebeu livre no bico da grande área e bateu para fora. O tiro passou a centímetros da trave, sem que Viera conseguisse completar. O atacante caiu prostrado no gramado, com as mãos na cabeça, lamentando. Carlos Muñoz, célebre narrador que acompanhava a partida, decretava que aquela havia sido a última oportunidade, que não haveria mais nenhuma igual. Restava mais um minuto.

O América cobrou o tiro de meta em direção ao ataque. Willington Ortiz prendia a bola na lateral, quando a perdeu e cometeu falta. O jogo ficou parado por alguns segundos, por causa dos suplentes colombianos, que já tentavam invadir o campo para comemorar. Pereira recebeu a bola e mandou o chutão a esmo ao ataque, na última esperança. A pelota pipocava na intermediária, entre os jogadores alvirrubros tentando expurgar o perigo e os aurinegros se esfolando para colocá-la na área. Enquanto isso, a torcida do América presente no Estádio Nacional fazia uma contagem regressiva pelo apito final, em alto e bom som. Villar, enfim, dominou e ajeitou a Aguirre. O atacante passou pelo primeiro marcador, invadiu a área e, após um leve giro, soltou o pé esquerdo. Um chute cruzado, rasante. Certeiro, que venceu Falcioni e morreu no fundo das redes. Aos 15 do segundo tempo da prorrogação, o Peñarol era campeão. E não era possível acreditar no que acontecera.

“Não dava para acreditar. Não teve nada de tática, era tudo absolutamente improvisado, como se fosse um jogo de várzea. Foi um gol casual. Isso era incrível. Olhei o relógio e faltava um minuto, queria devolver as pancadas que tinham me dado. Pensei: ‘É agora’. Gonçalves, que adorava brigar, estava por perto e disse a ele: ‘Vou matar este que tenho do lado, fica por aqui’. Ele me respondeu para ficar tranquilo. E eu fui me acomodando para estar perto do defensor. Aí que Viera cabeceou, Villar ajeitou, eu fiquei com a bola e fiz este golaço. Óbvio que esquecemos de tudo. Ia ser uma confusão no final, porque todos queríamos brigar, pela maneira como nos bateram durante os jogos. Seria uma vergonha. Por sorte ganhamos e não aconteceu”, rememora o herói.

Aguirre saiu correndo em chamas na comemoração, diretamente ao setor onde estavam os torcedores do Peñarol. Vários jogadores carboneros colocavam as mãos na cabeça, maravilhados pelo inacreditável. Enquanto isso, os reservas do América continuavam criando a sua confusão. Nos microfones, as narrações de uruguaios e colombianos se punham em lados totalmente opostos da glória oferecida pelo futebol. Os cafeteros emudeceram. Lamentaram a maldição. Perguntaram por que, por que de novo, por que de novo com eles. Já os charruas perdiam a voz, desafinavam, choravam ao vivo, berravam como se fosse o último grito de suas vidas. Relembravam que, naquele mesmo arco do Estádio Nacional, começara a reação mítica contra o River na final de 1966 e acontecera o gol de Morena em 1982. Aquele que Aguirre imaginou no aquecimento.

Mas ninguém foi mais preciso ao narrar aquele lance do que Carlos Muñoz, antes descrente, agora em completo êxtase: “Diego… ¡Tirá, Diego, tirá! Goooooooooooool de Peñarol! La Fiera, La Fiera Aguirre! Qué increíbles que somos los uruguayos, por Dios! Qué increíble! Tengo ganas de gritar y no puedo, tengo ganas de saltar y no puedo, tengo ganas de llorar y no me salen las lágrimas, porque así somos los uruguayos! Porque así somos nosotros! Porque así somos los charrúas, porque hasta el último instante nos metemos en el partido. La buscamos, la luchamos. Ganamos los uruguayos porque somos así: porque luchamos hasta el último momento, porque no nos entregamos nunca, porque luchamos contra la adversidad, porque cuánto más difícil es, más nos gusta”.

Todavia, depois do gol, restavam os descontos. O América partiu ao ataque. Ainda atônito, mas desesperado. O Peñarol via a bola rondar a sua área, mas afastava cada perigo com o máximo de vontade. Falcioni já tinha se transformado em armador e, pouco depois, avançou para tentar cabecear um escanteio. Os uruguaios ainda poderiam ter marcado o segundo gol, em contra-ataque com a meta vazia, mas o árbitro não deu a vantagem e preferiu expulsar Jairo Ampudia, por uma falta violenta na construção do lance. Logo após a reposição, o apito final soou. Os jogadores uruguaios festejavam ensandecidos. A torcida aurinegra invadia o campo. Pela quinta vez, e com todos os descréditos, o Peñarol conquistava a América.

Logo depois da façanha, o ‘Peñarol de los milagros’ eternizava suas alcunhas nas capas dos jornais e das revistas sul-americanas. “A lógica mais pura, o raciocínio mais objetivo e desapaixonado, me indicavam que não podia existir no mundo uma equipe de futebol que guardara em sua alma e em seus músculos, em seu coração e em seus tornozelos, em sua mente e em suas fibras nervosas; este resto de lucidez, fervor, energia, integridade e potência capaz de produzir o milagre no escasso tempo que faltava. Tinham que penetrar em uma defesa que fechou muito bem todos os caminhos até Falcioni durante 119 minutos. Era necessário produzir a manobra profunda, certeira, direta e decisiva depois de quase duas horas de luta feroz, áspera, travada, psicologicamente desgastante e fisicamente esgotante. Não. O coração dos uruguaios que continuavam torcendo e gritando desafiava todas as leis da razão. Era, nada mais e nada menos, que um milagre”, escreveu Julio César Juvenal, lendário jornalista argentino, para a revista El Gráfico.

“Vinte e quatro horas depois desse momento, repasso o ocorrido, volto a vivê-lo e reafirmo o conceito inicial: o futebol é único. Mas à sentença falta um encerramento que a torne perfeita e outorgue justiça: o Peñarol também é único”, encerrou a reportagem, carregada de emoção, na qual afirmou que “não poderia tirar de dentro de si todo o dramatismo, toda a intensidade emocional desta decisão incrível” e agradeceu ao destino pela oportunidade de vivê-la.

A camisa usada por Aguirre na final teve um destino peculiar. A caminho do Estádio Nacional de Santiago, estava no ônibus o filho de um dirigente do Peñarol. O garoto, que tinha seis ou sete anos, seria o único mascote dos uruguaios na finalíssima. Esperto, ele disse ao atacante: “Se você marcar um gol, me dá a camiseta, combinado?”. E o artilheiro carbonero aceitou o trato. Ao final da partida, mesmo com o gol de importância incomparável, Aguirre cumpriu a promessa nos vestiários. O manto, porém, não ficaria por tanto tempo com o menino. Uma semana depois, o dirigente achou que não era justo seguir com a relíquia e procurou a mãe do jogador, a quem entregou a camiseta. Ela ficaria guardada por bons anos, até que voltasse às mãos de seu dono. Hoje, tem lugar especial em sua casa, em Montevidéu. Em tom de confidência, afirmou em 2015: “Sabe de uma coisa? De tempos em tempos, paro só para admirá-la”.

Os jogadores manyas retornaram de maneira triunfal a Montevidéu, recebidos por centenas de torcedores. Seria o grande capítulo daquela geração. Um mês e meio depois, viajariam a Tóquio, onde acabaram perdendo o Mundial Interclubes para o Porto – ironicamente, com um gol na prorrogação, anotado por Rabah Madjer. Já do outro lado da moeda, o América viveu o seu declínio. O esquadrão aos poucos se desmanchou, perdendo a hegemonia local para o Millonarios. Além disso, não voltariam à final da Libertadores tão cedo. A nova chance aconteceu apenas em 1996, derrotados pela quarta vez, novamente ante o River Plate.

Desfeita aos poucos, a geração vencedora deixou seus últimos resquícios ao Peñarol no início dos anos 1990, mas sem levantar novas taças importantes. Boa parte daqueles jogadores rodaram o mundo, atuando especialmente por clubes europeus e de outros países latino-americanos. Mesmo jovens, raros desfrutaram de uma trajetória tão vencedora quanto naquele ano de 1987. A carreira mais notável seria a de José Herrera, que jogou por anos na Itália e foi o único a escrever uma história longa na seleção, campeão da Copa América de 1995. Como o lateral, Perdomo, Domínguez e Pereira também disputaram a Copa do Mundo de 1990, mas sem durar tanto com a camisa celeste.

Óscar Tabárez seria o mais bem sucedido. O Maestro deixou o Peñarol já em 1988, para assumir o Deportivo Cali, mas logo retornaria ao Paisito, comandando a seleção rumo à Copa de 1990. Viveu grandes sucessos no Boca Juniors campeão argentino, antes de se aventurar pela Europa, passando por Cagliari, Milan e Real Oviedo. Voltou à Argentina, mas sem impressionar por Vélez e novamente pelo Boca. Até que em 2005 surgiu a oportunidade de retomar o seu trabalho na Celeste. De revolucionar o futebol uruguaio, com seu plano que recolocou o país em uma semifinal de Copa do Mundo e o levou ao título da Copa América após 16 anos, além de render frutos nas categorias de base. Que o tornou o comandante com mais partidas à frente de uma equipe nacional em todos os tempos.

Aguirre, por mais que continuasse lembrado como o grande artífice daquele título, não deslanchou tanto quanto poderiam prever. Ficou no Peñarol até 1989, antes de rodar por diferentes países, passando inclusive pelo Brasil, onde defendeu Internacional, São Paulo e Portuguesa. Sequer chegou a vestir a camisa da seleção. Aposentado, causaria mais impacto como treinador. E, feito profecia, recolocaria o Peñarol em uma final de Libertadores depois de 24 anos, derrotado pelo Santos em 2011. Permanece como uma instituição carbonera. O herói dos segundos mais agonizantes, e ao mesmo tempo mais eufóricos, da história dos aurinegros.