Fred cava pênalti na vitória do Brasil sobre a Croácia na abertura da Copa 2014 (AP Photo/Thanassis Stavrakis)

Brasil 3×1 Croácia: o jogo em que uma queda salvou a Seleção

A CRÔNICA

“Desde que eu aprendi a andar.” Muita gente define sua capacidade em tomar suas próprias decisões com o momento em que conseguiu se locomover pelas próprias forças. Mas nem sempre é tão fácil. No dia em que um cientista brasileiro mostrou que é possível criar um equipamento comandado pelo cérebro humano para permitir que deficientes voltem a caminhar, vários atletas profissionais sofreram com essa dificuldade. Foi a perna trêmula e a queda que marcaram a dura vitória do Brasil por 3 a 1 sobre a Croácia na estreia da Copa do Mundo.

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O hino cantado por todo o estádio, à capela, assusta, domina. Ele faz qualquer pessoa com um mínimo de alma se emocionar. O adversário pode sofrer um baque, mas a emoção da estreia em casa era tamanha que o impacto foi maior no Brasil. O tamanho do momento ficou evidente, e demorou para a Seleção perceber que a simbiose com a torcida havia acabado e o jogo já rolava.

Os brasileiros começaram o jogo perdidos, sem saber para onde andar. A perna não obedecia o comando, e as jogadas não tinham como sair. A Croácia dominava, e acabou abrindo o marcador em um lance em que um lateral não correu para o setor em que deveria estar e outro vagava sem ler direito a jogada, chutando sem perceber a bola para dentro do próprio gol.

O empate veio em um chute despretensioso, que provavelmente não saiu da chuteira de Neymar como ele imaginou. E a virada que decidiu a partida também veio da impossibilidade de se manter em pé. Nesse caso, uma impossibilidade autoinfligida. Fred simplesmente não quis continuar a jogada, preferiu desabar. O árbitro comprou a versão do atacante e marcou o pênalti, convertido por Neymar.

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Foi uma estreia pouco convincente do Brasil, mas era nítido que a equipe jogou alguns níveis abaixo de seu potencial. E porque teve dificuldade de lidar com um jogo tão tenso, que deixa a perna de qualquer um bamba. Mas a vitória veio. Com uma ajuda substancial da arbitragem, mas veio.

BRASIL 3×1 CROÁCIA
Brasil escudo Brasil
Julio Cesar; Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz e Marcelo; Luiz Gustavo e Paulinho (Hernanes); Oscar, Neymar (Ramires) e Hulk (Bernard); Fred.
Técnico: Luiz Felipe Scolari
Croácia escudo Croácia
Stipe Pletikosa; Darijo Srna, Vedran Corluka, Dejan Lovren e Sime Vrsaliko; Luka Modric e Ivan Rakitic; Ivan Perisic, Mateo Kovacic (Marcelo Brozovic) e Ivica Olic; Nikica Jelavic (Ante Rebic)
Técnico: Niko Kovac
Local: Arena Corinthians (São Paulo)
Árbitro: Yuichi Nishimura (Japão)
Gols: Marcelo (11/1T, contra), Neymar (29/1T e 26/2T, de pênalti) e Oscar (46/2T)
Cartões amarelos: Neymar, Luiz Gustavo, Corluka e Lovren
Cartões vermelhos: Nenhum
OS GOLS

11/1T – GOL DA CROÁCIA
Olic aproveita o espaço nas costas de Daniel Alves e avança livre pela esquerda. Ele cruza rasteiro, Jelavic fura e a bola acaba batendo no pé de Marcelo, que vinha na corrida e acaba desviando para o gol.

29/1T – GOL DO BRASIL
Boa jogada de Oscar no meio, se livrando de três marcadores e tocando para Neymar. O atacante avança e chuta de fora da área. Ele não pega bem e a bola vai fraca e torta, mas acaba enganando Pletikosa e toca no pé da trave antes de entrar.

26/2T – GOL DO BRASIL
Bola na área da Croácia e Fred se atira diante da marcação de Lovren. Yuichi Nishimura marca pênalti. Neymar chuta no canto direito de Pletikosa, que pula bem e até toca na bola, mas não forte o suficiente para evitar o gol.

46/2T – GOL DO BRASIL
A Croácia pressiona e perde duas oportunidades em sequência. O rebote fica com o Brasil, que sai em contra-ataque. Oscar avança e chuta de pé trocado, de bico, no canto de Pletikosa.

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O CARA

Neymar

Oscar foi um dos melhores jogadores em campo, talvez o melhor, mas “o cara” foi Neymar. Não apenas pela atuação em si, mas por ter assumido o papel de jogador que tem capacidade de dar algo diferente ao time. Assumiu a responsabilidade e fez os dois gols da virada.

A TÁTICA
Brasil 3x1 Croacia_campinho

As formações iniciais de Brasil x Croácia

O Brasil veio um pouco diferente, com Hulk pela esquerda, Neymar no meio e Oscar pela direita. A formação não foi muito boa para Hulk, que se sentiu deslocado e apareceu pouco. Oscar e Neymar apareceram bem, mas os laterais não apareceram bem e a Seleção acabou ficando sem penetração. Tanto que Fred só apareceu quando cavou um pênalti.

Enquanto isso, a Croácia falhou demais na defesa, sobretudo o goleiro Pletikosa, que conseguiu despertar desconfiança da torcida até quando tomou gol de pênalti. Onde os croatas se deram bem no do meio para frente. A linha Modric-Rakitic-Kovacic tem criatividade e ainda tinha ajuda do trio Perisic-Jelavic-Olic marcando na saída de bola.

A ESTATÍSTICA

64%

O Brasil tocou 773 vezes na bola, 495 delas foi com Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz, Marcelo e Luiz Gustavo, ou 64% do total. Os cinco jogadores mais defensivos da equipe foram os cinco que mais ficaram com a bola nos pés, o que mostra a dificuldade de articulação da Seleção do meio para frente.