A ansiedade tomava conta da atmosfera em Porto Alegre. Ela se dispersava pelo ar e era respirada com toda a força por cada peito coberto com a camisa tricolor. O gremista tinha ânsia por viver esta quarta. Por experimentar uma sensação tão alheia nos últimos anos, embora tão costumeira a um clube de história vitoriosa. Depois de grande inverno, enfim, era hora de celebrar. A penúria atravessada desde 2001, desde o último título nacional em primeiro nível, guardava as desconfianças. Ainda assim, não havia tanto o que temer. O Grêmio foi senhor do seu destino na Arena. Saiu satisfeito com o empate por 1 a 1, muito graças à enorme vitória no Mineirão. Pôde proclamar-se, enfim, campeão da Copa do Brasil. O maior campeão da Copa do Brasil. Pentacampeão.

A quarta-feira aguardada por mais de uma década se espalhou nas ruas tomadas pelo azul, pelo preto e pelo branco. Quem não conseguiu o ingresso para a final, lotou a Avenida Goethe. Milhares se concentraram no tradicional ponto de encontro da capital gaúcha. Porém, o espírito de todos estavam mesmo na Arena. A nova casa do Grêmio não cabia em si. Quebrou o seu recorde de público, com 55,3 mil presentes. Explodiu de alegria, lembrando os momentos inesquecíveis vividos no velho Olímpico.

Bem antes do apito inicial, as arquibancadas já pulsavam com força. A “geral”, em especial, extravasava a espera carregada por tanto tempo. Os 15 anos se resumiriam em 90 minutos. Por isso mesmo, não havia empolgação que se contivesse. A expectativa se traduzia em bobinas, em papel picado, em fumaça. Em cânticos cada vez mais rasgados, saindo da garganta. Em uma noite que não seria esquecida. Independente da vantagem, a energia da torcida não faltaria para empurrar o Grêmio ao alto do pódio.

O início da partida acabou marcado pela emoção. A homenagem indescritível à Chapecoense. Contidas as lágrimas de comoção, os gremistas voltaram a gritar, na espera das lágrimas de alegria. E o time fez o seu papel, em um primeiro tempo pegado. O Atlético Mineiro tinha a iniciativa e tentava se postar no ataque, de maneira bem mais organizada do que no Mineirão. Mesmo assim, não era suficiente para superar a barreira tricolor à frente da área de Marcelo Grohe. As poucas chances vinham em bolas alçadas ou chutes de longe. Nada suficiente para fazer os mineiros vislumbrarem a milagrosa virada.

Do outro lado, Douglas era a principal arma. O Grêmio não atacava tanto, mas conseguiu ser contundente quando se aproximou da meta de Victor. O meia quase abriu o placar em uma cobrança de falta perigosíssima. Depois, deu um passe magistral de letra para Everton. Na cara do gol, o atacante chutou em cima do santo atleticano. Desperdiçou a melhor oportunidade de abrir o marcador na etapa inicial.

Na volta do intervalo, a decisão ficou ainda mais arrastada. Sobressaía a segurança defensiva do Grêmio. Geromel era praticamente perfeito em suas antecipações, principalmente pelo alto. Ao seu lado, outro a fazer uma partidaça foi o argentino Kannemann. O zagueiro não deixou o seu compatriota Lucas Pratto respirar. Acompanhou o atacante a todo instante. Anulou uma das principais ameaças atleticanas.

À medida que o tempo passava, o desespero batia no Galo. E o Grêmio parecia mais próximo de matar o jogo. Quando a bola chegava ao campo de defesa dos adversários, os tricolores apertavam mais a marcação. Empenho premiado aos 43, com o gol do título. Em contra-ataque, a bola passou por Luan e Everton, antes de sobrar limpa a Bolaños, que acabara de sair do banco. O equatoriano não perdoou. Ainda houve tempo para Cazares empatar, em um dos tentos mais fabulosos já marcados em finais no Brasil. O atleticano arriscou de antes do meio de campo e, com Marcelo Grohe adiantado, mandou a bola no ângulo. Gol antológico, mas que não valeu de nada. A taça era do Tricolor, por mais que os alvinegros perdessem a cabeça ao final.

Por fim, a Arena do Grêmio pôde completar a festa que sempre sonhou desde a inauguração do estádio. O azul tomou os céus da noite de Porto Alegre, junto com os fogos do artifício. A comemoração em campo, mais uma vez, contou com homenagens à Chapecoense, em diversas camisas. Já na entrega do troféu, outra demonstração de empatia, com a presença de Gabriel, que foi perseguido pelas lesões nos últimos anos e ganhou o direito de erguer o prêmio, ao lado de Marcelo Grohe e do capitão Maicon.

O título do Grêmio é de Renato – Gaúcho ou Portaluppi, como preferirem. O homem que, ao lado de Valdir Espinosa, conseguiu reinventar o trabalho que não vinha rendendo com Roger Machado e fez o time dar passos à frente, muito mais consistente na defesa, letal nos contra-ataques. O título também é de Luan e de Geromel, dois talentos incontestáveis neste elenco. De Maicon e Douglas, tão importantes pela tarimba. Do decisivo Pedro Rocha, do incansável Walace, do mordedor Kannemann. De Grohe, Edílson, Marcelo Oliveira, Ramiro, Everton e qualquer outro que se doou em campo. Mas o título é, sobretudo, do torcedor do Grêmio. Daquele que conviveu com o vazio desde 2001, mas que nem por isso caiu no desengano. A fé se manteve, sempre. E desencadeou no terremoto que estremeceu a Arena nesta quarta. Na avalanche que carregou consigo 15 anos de ansiedade e se transformou puramente em êxtase. Desabou em alegria pelo pentacampeonato da Copa do Brasil.