O segundo estado com mais clubes na primeira divisão do futebol brasileiro, ano que vem, pode ser Santa Catarina. Basta o Criciúma sobreviver, e Fluminense e Vasco serem rebaixados. Difícil, mas nada impossível. O processo que levou os catarinenses a superarem Rio Grande do Sul, Minas Gerais e o próprio Rio de Janeiro envolve características regionais e um trabalho profissional na maioria dos clubes.

O gerente de futebol do Criciúma, Cícero Souza, aponta três motivos principais para essa ascensão de Santa Catarina. Ele acredita que a força do Campeonato Estadual, a força dos clubes do interior e a busca por profissionais do futebol para exercer cargos importantes são fatores preponderantes. Sandro Pallaoro, presidente da Chapecoense, contou que há cinco anos os clubes juntaram-se para tomar decisões, junto com a Federação Catarinense, que beneficiassem todos. A aposta dele é em “seriedade e comprometimento”.

O estadual ideal?

Apenas dez times disputam o Catarinense, que houve quatro campeões diferentes nos últimos seis anos. Não há favoritos destacados que nem no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais. Essa competitividade ajuda a preparar as equipes para o resto da temporada. “Não é um demonstrativo do que vem pela frente, mas é melhor que os campeonatos mineiro e gaúcho”, explicou Cícero Souza.

O interior de Santa Catarina tem três equipes nas duas primeiras divisões do futebol brasileiro e elas conseguem rivalizar com os grandes da capital. “Eu sou gaúcho e trabalhei seis anos no Grêmio”, lembrou. “As equipes do interior (do Rio Grande do Sul) não entram com possibilidade de título. Aqui, elas têm esse histórico. Assim é mais fácil vender a emoção para o torcedor, com um marketing bem desenvolvido”.

A divisão da paixão
A Chapecoense só não tem mais que 9 mil sócios porque o estádio ainda tem capacidade pequena

A Chapecoense só não tem mais que 9 mil sócios porque o estádio ainda tem capacidade pequena

Afinal, os times do interior estão à altura de Figueirense e Avaí não só na bola, mas também no coração da torcida. O Criciúma tem mais de 15 mil sócios, o Joinville, 10 mil, e a Chapecoense, mesmo com estádio para 12 mil, tem 9 mil torcedores associados. Esse tipo de programa permite à diretoria planejar melhor o orçamento da temporada e garante um público médio muito bom na maioria dos jogos.

“No Rio Grande do Sul, preocupam-se muito com o Gaúcho e ficam seis meses de campeonato fechado. Não conseguem criar o torcedor porque não têm calendário”, analisou o presidente da Chapecoense, Sandro Pallaoro. “Aqui temos calendário o ano inteiro”. O Catarinense terminou em 19 de maio, mas a Copa Catarinense, que é facultativa e começou em outubro, é uma opção para o segundo semestre.

O dirigente também disse que Santa Catarina se favorece por não ter uma dupla de clubes que monopolizam o coração dos fãs do futebol. “O Inter e o Grêmio são muito fortes no Rio Grande. Aqui na nossa região (oeste do estado), a maioria do torcedor é Chapecoense. Em Florianópolis, é Figueirense e Avaí. No norte, é Joinville. Os clubes do interior do Rio Grande ganham bem mais dinheiro para participar do estadual, pagam salários altos e depois fecham as portas. Você nunca vai conseguir ter sócio e não vai criar torcedor”.

Austeridade
Cícero Souza é o homem forte do futebol do Criciúma

Cícero Souza é o homem forte do futebol do Criciúma

E pagar salários altos é praticamente uma heresia para as gestões profissionais dos clubes de Santa Catarina. A Chapecoense subiu com uma folha salarial de apenas R$ 550 mil. O Figueirense também controla os gastos e conseguiu o acesso. Ainda na Série B, Joinville e Avaí, que não subiram, gastam um pouco mais. Para combater os milionários Flamengo e Corinthians, o Criciúma paga apenas R$ 1,3 milhão por mês aos seus jogadores.

“Qualquer acordo é cumprido rigorosamente, quando não antes. Isso se espalha rápido no mercado e os profissionais ficam satisfeitos”, contou Souza. A Chapecoense vai receber uma verba muito maior ano que vem por causa do acesso, mas sabe que não pode cometer erros comuns entre os pequenos e médios que disputam a primeira divisão. Sabe que não pode prometer salários altos, contratar medalhões, que às vezes não dão certo e ficam encostados, e sabotar todo um projeto que vem dando certo.

“O clube tem que ter consciência”, afirmou Pallaoro. “O Flamengo, por exemplo, reduziu (os gastos), trocou de treinador e conquistou a Copa do Brasil. Agora tem que manter os pés no chão. Não pode extrapolar agora que vai para a Libertadores”.

Ajuda local
A 101 do Brasil, dona da marca de energéticos Red Horse, patrocinou o Joinville em 2013

A joinvilense 101 do Brasil, dona dos energéticos Red Horse, patrocinou o Joinville

Empresas sediadas em Santa Catarina ajudam as equipes. Entendem que ter times de destaque no futebol brasileiro aumenta a notoriedade das cidades e movimenta bastante a economia local, principalmente quando clubes de São Paulo e Rio de Janeiro viajam para jogar como visitantes.

Em 2013, Figueirense e Avaí tiveram pelo menos seis parceiros catarinenses. O interior não consegue atrair tanto investimento, mas conta com uma ajuda maior do poder público. A prefeitura de Florianópolis às vezes facilita um pouco a vida dessa dupla, com parcelamento de dívidas, por exemplo. Os estádios de Chapecoense e Joinville são de propriedade do município e, no caso do Verdão, ele ainda contribui com as categorias de base do clube.

“O empresariado local sempre nos ajudou. Agora, na Série A, muitos patrocinadores não vão conseguir ficar, mas virão empresas de nível nacional, que têm interesse de divulgar a marca”, ponderou Pallaoro. “O poder público também nos ajudou muito com estádio e outros recursos, para as categorias de base”.

O Criciúma não está tão satisfeito assim com a prefeitura. Dono do Heriberto Hülse, o clube de Cícero Souza não anda conseguindo convencer a cidade a ajudá-lo. “Ela não atende praticamente nada que a gente necessita”, disse. “Colocamos a cidade no cenário nacional, vendemos uma boa imagem da comunidade, conseguimos trazer para o comércio local um envolvimento das principais equipes do futebol brasileiro. A prefeitura de Criciúma tinha o dever e a responsabilidade de contribuir mais”.

Mesmo sem o apoio da prefeitura, o Criciúma está bem posicionado para se manter na Série A e, pela primeira vez na história dos pontos corridos, sacramentar três clubes catarinenses na primeira divisão do futebol brasileiro. O estado, que desde 2002 sempre teve ao menos um representante na elite, pode chegar ao seu ápice ano que vem graças a uma conjunção de fatores que inclui um trabalho sério e bem feito.