Além das piadas, das tirações de sarro e das inúmeras discussões infrutíferas sobre a Bélgica, duas coisas eram fatos: o país contava com uma geração de raro talento, com jogadores espalhados pelos maiores clubes do mundo; mas, juntos, eles nunca haviam conseguido uma grande campanha em competições internacionais e sequer haviam igualado o que o time da década de oitenta havia conseguido. O primeiro dado continua sendo verdadeiro. O segundo, depois da Copa do Mundo de 2018, tornou-se inválido.

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Apesar da qualidade dos seus jogadores, a Bélgica vinha alternando campanhas em que meramente atingia as expectativas mínimas, como na Copa do Mundo de 2014, eliminada pela Argentina nas quartas de final, ou mesmo decepcionava, como na Euro de 2016, quando perdeu, também nas quartas de final, para o País de Gales. A história na Rússia foi diferente: os belgas conseguiram superar essa barreira e chegaram às semifinais, com direito à vitória marcante contra o Brasil, o grande jogo que o time tanto buscou.

A sombra dessa geração é o time dos anos oitenta. O argumento válido era que Kevin De Bruyne, Eden Hazard e companhia tinham potencial, mas ainda não haviam sequer repetido os feitos do grupo de Enzo Scifo e Jean-Marie Pfaf, semifinalistas de 1986. Pelo menos isso já foi igualado. Agora, o desafio é construir em cima desta campanha, principalmente com uma boa participação na próxima Eurocopa, já que os seus antepassados também conseguiram chegar à decisão do torneio europeu de 1980, perdendo para a Alemanha.

O desempenho belga na semifinal contra a França decepcionou um pouco. Após um primeiro tempo bem equilibrado, em que qualquer um dos lados poderia ter aberto o placar, a Bélgica sofreu para pressionar a adversária, depois que Samuel Umtiti fez 1 a 0, de cabeça. A pressão foi intermitente e, nos acréscimos, quando se esperava um abafa, foi a França quem conseguiu manter o controle, prendendo a bola no campo de ataque e criando chances. As substituições de Martínez não funcionaram e foi um pouco contestável tirar Fellaini de campo a dez minutos do fim, justamente antes do período em que teoricamente os belgas jogariam mais bolas na área e poderiam aproveitar o tamanho do gigante de 1,94 metros.

No entanto, a campanha teve ótimos momentos. A Bélgica sofreu um pouco no primeiro tempo contra o Panamá, mas conseguiu vencer sem grandes problemas. Passou o carro na Tunísia e ganhou até aquele jogo extremamente morno e cheio de reservas contra a Inglaterra. O primeiro solavanco foi nas oitavas de final. O Japão chegou a abrir 2 a 0 e parecia pronto para eliminar os belgas, que conseguiram empatar na bola aérea e garantiram a vaga em um lindo contra-ataque puxado por Kevin De Bruyne.

A vitória que serviu para dividir as águas na carreira desses jogadores na seleção foi nas quartas de final. Roberto Martínez planejou a estratégia para enfrentar o Brasil. E os atletas executaram-na à perfeição, principalmente no primeiro tempo, quando fizeram 2 a 0. Tiveram brio para resistir à pressão brasileira depois do intervalo, quando Courtois brilhou mais do que todos com uma série de defesas, e Hazard pela maturidade e qualidade para prender a bola no campo de ataque.

Esse foi o momento em que os belgas conseguiram reverter o curso natural da história. Chegar às quartas de final da Copa do Mundo e perder para o Brasil seria o esperado. Ninguém criticaria a Bélgica, mas ficaria a sensação de que, mais uma vez, a seleção contentou-se com o mínimo possível, que novamente não conseguiu estender os seus limites. Mas, depois de derrotar os pentacampeões, o que viesse pela frente seria lucro.

O time ainda é muito jovem. Tem pelo menos mais um ciclo de Copa do Mundo em alto nível sem precisar mexer demais as peças. Os líderes Hazard e De Bruyne têm apenas 27 anos. Romelu Lukaku está com 25. Thibaut Courtois, 26. A renovação precisará acontecer na defesa, já que Thomas Vermaelen (32), Vincent Kompany (32), Jan Vertonghen (31) e Toby Alderweireld (29) não têm tanto tempo sobrando. Mas a Copa do Mundo da Rússia foi apenas um passo à frente em uma trajetória que ainda não terminou.