A tragédia de Hillsborough é um marco no futebol inglês. Não apenas pela morte dos 96 torcedores do Liverpool, como também por seus desdobramentos. Serviu para que o governo combatesse o hooliganismo, mas também com visões distorcidas, que colocavam a culpa pelo desastre nos próprios torcedores. A partir de então, os estádios ingleses se transformaram. Garantiram mais conforto, é verdade, mas também elitizaram os espaços e perderam muito da atmosfera antiga, limitando o acesso de muita gente pacífica que frequentava os estádios. Uma mudança que, de fato, já era articulada por Margareth Thatcher quatro anos antes.

LEIA MAIS: Por que a tragédia de Hillsborough aconteceu, e o que mudou depois dela

Em um país que vivia em crise econômica, com a queda do poder de compra das camadas mais pobres, o futebol servia como uma válvula de escape. Muito mal vista pelo governo britânico e pela primeira ministra Thatcher. A Dama de Ferro ensaiou o controle sobre o esporte em vários momentos, assim como fazia para reprimir as greves nos anos 1980. E seu tubo de ensaio começou a partir de um episódio ocorrido em 13 de março de 1985, há exatos 30 anos. A briga generalizada entre Luton e Millwall, pelas quartas de final da Copa da Inglaterra.

A presença do hooliganismo no futebol inglês, obviamente, já era enorme. As médias de público caíam vertiginosamente, indo de 26 mil a 18 mil torcedores por partida na primeira divisão desde o início da década. Mas o primeiro semestre de 1985 acabou sendo marcante pela quantidade de episódios fatídicos. E a partida em Kenilworth Road marcou o primeiro momento em que Thatcher passou a interferir nos direitos civis de todos os que iam aos estádios para combater um problema espalhado pelo país, mas específico dos hooligans.

LEIA MAIS: Hillsborough não foi hooliganismo: foi negligência, despreparo e preconceito

Naquele 13 de março, os ultras do Luton receberam reforços. As firmas de West Ham e Chelsea, de péssima reputação, assistiram ao jogo no setor mandante e aproveitaram o fim da partida para transformar o estádio em um campo de batalha. A briga com os torcedores do Millwall invadiu o campo e também se espalhou pelas ruas da cidade. Enquanto a maioria dos 17 mil presentes nas arquibancadas corria para se proteger, os hooligans arremessavam objetos e distribuíam socos entre rivais e policiais. Os jogadores precisaram correr para os vestiários e o técnico do Luton teve que se desvencilhar de um vândalo que o agarrou.

O estádio ficou destruído, com cadeiras e corrimãos arrancados para servir de armas. Não houve nenhuma fatalidade, mas 81 pessoas ficaram feridas, incluindo 31 policiais. Um deles foi ressuscitado dentro de campo, após ser atingido por um bloco de concreto na cabeça e parar de respirar. “Enquanto eu observava a briga, tinha vontade de chorar. Crianças se agarravam aos seus pais por medo, enquanto mulheres e idosos prometiam nunca mais voltar a um estádio. As cenas eram de uma sangrenta guerra. Como um verdadeiro torcedor do Millwall, era impossível não sentir vergonha”, afirmou Jim Murray, um dos presentes no estádio.

Então na primeira divisão, o Luton acabou eliminado pelo Everton na semifinal e foi previamente eliminado da edição seguinte da edição seguinte da Copa da Inglaterra. No entanto, as maiores mudanças ganharam o patrocínio do próprio governo britânico. Partidário de Thatcher, o presidente David Evans abriu as portas para a interferência superior. A reforma do estádio extinguiu os setores em pé, enquanto a entrada passou a ser limitada por um sistema de identificação. Medidas que o governo queria espalhar para todo o país naquele momento, mas só conseguiu depois de Hillsborough.

LEIA MAIS: Goleiros “articulados” e Elton John eram as armas de Thatcher contra os hooligans

Thatcher aumentaria a sua interferência sobre o futebol a partir de então. Em abril, a primeira ministra se sentou para fazer uma série de exigências aos dirigentes da federação e da liga, como alambrados reforçados, circuitos de câmeras nos estádios e identificação dos torcedores. Para ela, os clubes não faziam o suficiente, mas se eximia das responsabilidades reais e não se aproximava das reais soluções. E sua voz ganhou força com a sequência de acontecimentos daquela temporada: o incêndio no estádio do Bradford, que matou 56 pessoas; a queda de uma parede em Birmingham após briga de torcedores, que vitimou um garoto de 15 anos; e o desastre de Heysel, em que 39 pessoas faleceram depois do embate entre torcedores do Liverpool e da Juventus na final da Champions de 1985.

Thatcher ignorou as razões da tragédia (como as péssimas condições do estádio e a negligência na segurança) para fazer valer o seu desejo de controle sobre o futebol, através do chamado “Gabinete de Guerra”. Ela mesmo sugeriu a suspensão dos clubes ingleses das competições continentais, alimentada também sobre os rumores de que seus opositores orquestraram a tragédia. A partir de então, os torcedores também começaram a se organizar, para combater a ideia de que eram a principal causa dos males do país, independente do hooliganismo. Uma queda de braço perdida com Hillsborough e as inverdades levantadas pelo Relatório Taylor, resultado também da própria negligência e o despreparo do poder para lidar com a questão.