A Coreia do Sul estava por um fio. Dependia apenas de si para se classificar à Copa do Mundo, mas tinha uma tarefa no mínimo arriscada: precisava segurar o Uzbequistão em Tashkent e torcer para que uma surpresa da Síria não acontecesse em Teerã, contra o Irã – já classificado e “rival” recente dos sul-coreanos nas Eliminatórias. Os Guerreiros de Taegeuk até correram riscos. Viram os sírios ficarem momentaneamente com a vaga direta, embora tivessem o controle e criassem as melhores chances contra os uzbeques. Ao apito final, puderam respirar aliviados. O empate por 0 a 0 bastou para confirmar a equipe do técnico Shin Tae-yong no Mundial. Vão para a nona edição consecutiva do torneio, a décima de sua história, na maior série de um país fora da Europa e da América do Sul.

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A condição da Coreia do Sul como potência no continente asiático é inegável. Desde a afirmação da geração dos anos 1980, liderada por Cha Bum-kun, o país sempre bateu cartão na Copa do Mundo. E o aumento no número de vagas no Mundial facilitou o caminho dos sul-coreanos. De saco de pancadas em suas primeiras participações, passaram a ameaçar um pouco mais a partir de 2002, apesar da fraca participação na última edição. Além disso, é um time que sempre briga pela taça na Copa da Ásia, apesar da draga que o acompanha desde 1960, quando conquistou seu último título. De qualquer forma, a força se evidencia.

O problema é que a Coreia do Sul não engrenou nestas Eliminatórias. O time levou mais sustos do que deveria em casa, com uma defesa frágil, e perdeu pontos importantes longe de seus domínios, sobretudo pela derrota na visita à China. Não à toa, o técnico Uli Stielike acabou demitido pela falta de resultados em junho, dando lugar a Shin Tae-yong, que era assistente e trabalhava nas equipes de base. Na penúltima rodada, quando poderia garantir uma folga maior contra o Irã, não saiu do empate por 0 a 0 em Seul, mesmo jogando com um a mais durante quase todo o segundo tempo. O jeito seria mesmo resolver no confronto direto com o Uzbequistão. A sorte dos Guerreiros de Taegeuk estava em jogo.

A incompetência do Uzbequistão, porém, pesa demais para o seu insucesso nas Eliminatórias. Em 2006 e 2014, os ex-soviéticos tinham caído na repescagem. Já na atual campanha, tiveram três oportunidades consecutivas de ultrapassar os sul-coreanos na tabela. Não aproveitaram nenhuma. A derrota na visita ao Irã era compreensível, mas esperava-se mais contra a China em Wuhan, quando perderam com um gol aos 39 do segundo tempo. Já no confronto decisivo desta terça, a decepção aconteceu bem diante dos olhos da torcida em Tashkent. Os uzbeques pouco ameaçaram a meta de Kim Seung-gyu e, por aquilo que aconteceu durante os 90 minutos, não seria surpreendente uma vitória sul-coreana.

Confirmada na Copa do Mundo, a Coreia do Sul já se dá por satisfeita com a presença na Rússia. A não ser que o sorteio ajude, as perspectivas da equipe não parecem muito boas. E não apenas pelas dificuldades enfrentadas durante as Eliminatórias, mas também pelas opções para dar uma guinada. O elenco não possui tantos nomes de destaque nos principais centros. Son Heung-min, do Tottenham, é a grande referência da equipe. No meio-campo, ainda há Ki Sung-yueng e Koo Ja-cheol como jogadores experimentados no futebol europeu. Mas, além destes, as opções se concentram principalmente em atletas que atuam em clubes asiáticos – não só na K-League, mas também no Japão e na China. São importantes localmente, mas precisam demonstrar uma qualidade coletiva além na Rússia. Algo que não se viu tantas vezes no atual ciclo.

Outro ponto sobre a Coreia do Sul são as expectativas de renovação. A atual geração atravessa o seu auge, com a maioria dos jogadores entre os 25 e os 30 anos. Porém, são escassos os nomes promissores abaixo desta faixa etária. Uma exceção é o atacante Hwang Hee-chan, de 21 anos, que milita no Red Bull Salzburg e se destacou na conquista do último Campeonato Austríaco. O novato vem ganhando espaço e é o novo camisa 10. Mesmo assim, no banco de reservas continua sendo convocado Lee Dong-gook, de 38 anos, que pode ir à sua terceira Copa do Mundo – esteve presente também em 1998 e 2010 – embora viesse sendo decisivo nas últimas edições da K-League e fizesse por merecer as oportunidades.

Independentemente do que acontecerá na Rússia em 2018, a Coreia do Sul deve comemorar. Apenas outras cinco seleções no mundo possuem uma série de presenças em Copas tão grande – Alemanha, Argentina, Brasil, Espanha e Itália. E quando tudo parecia pronto para uma tragédia dos Guerreiros de Taegeuk, a rodada final até careceu de emoção, diante das circunstâncias. Resta mais um ano para botar ordem na casa e fazer uma participação ao menos digna.