O palco estava armado para a decisão. Muitos não reclamaram da falta de emoção no Brasileirão de 2013? Pois bem, lá estava. A finalíssima do campeonato foi acompanhada por milhões, todos vidrados em cada lance que se seguia no Rio de Janeiro. Às 17 horas em ponto, como bem mandam as rodadas derradeiras, começava a peleja. Não no Maracanã, mas na Arena STJD (o famoso Tribunalzão, ainda não venderam os naming rights dela, né?). Os craques trocavam chuteiras por ternos. E quem levava sucessivos pontapés não era a bola, e sim o próprio futebol.

É lógico que aquela final não seria ignorada pela mídia. A cobertura era completa, digna de uma verdadeira decisão. A transmissão, ao vivo, era feita por diversos canais. Várias câmeras para não perder um só detalhe do espetáculo. Os comentaristas jurídicos estavam a postos, para tornar a experiência mais palatável ao torcedor – por mais que suas análises seguissem o estilo ensaboado de comentar, amaciando sobre a atuação dos advogados no certame.

Ao contrário da dinâmica que o futebol sugere, a final do Tribunalzão viu seus jogadores apresentarem o próprio repertório, um a um. Também não existem críticas sobre o nível dos elencos que figuram no Brasileirão? Pois a qualidade técnica de alguns que se exibiram na decisão do tribunal também foi cornetada pela torcida que acompanhava o julgamento.

Torcedores do Flu comemoram o resultado do lado de fora do STJD (Foto: UOL)

Torcedores do Flu comemoram o resultado do lado de fora do STJD (Foto: UOL)

O primeiro tempo foi dominado pelo advogado da Portuguesa. João Zanforlin conseguiu manter a posse de bola, mas não se cansou das caneladas. Ameaçou pedir ajuda ao Papa Francisco, contou a história da carreira do zagueiro Paulão, comparou Heverton com um chuchu. Só não mencionou os argumentos legais que poderiam salvar os rubro-verdes. Teve uma atuação tão boa quanto daqueles que permitiram a escalação do jogador suspenso.

Sobe a plaquinha, Zanforlin era substituído por Michel Assef, advogado do Flamengo. A atuação do defensor substituto foi mais direta, como um contra-ataque puxado por Paulinho. Sem muito tempo na cancha, deu espaço ao atacante do Fluminense, Mário Bittencourt. O tricolor tentou inverter posições e usou a tática do coitadismo para tentar vencer: “O que está se tentando fazer nessa semana é um achincalhe à história do Fluminense”. Findada a partida, o resultado estava nas mãos do STJD.

Não dá para saber o quanto a atuação dos advogados pesou na decisão do relator do tribunal. A argumentação parecia pronta e dava o ganho de causa ao Fluminense. Ali, de fato, é que a goleada tricolor ganhava forma. Um, dois, três, quatro… Vitória do Flu por 5 a 0. Todavia, não era o clube das Laranjeiras que ganhava os pontos, mas a Lusa quem perdia. Quatro (mais a pesadíssima multa de mil reais), o suficiente para selar seu rebaixamento e a salvação dos cariocas no tapetão.

E o que é a vitória em uma final sem a festa da torcida? Dentro da Arena Tribunalzão, já se ouviam os gritos de “Nense” vindos do lado de fora. O nonsense que explodiu com a goleada. Enquanto fogos de artifício estouravam nas Laranjeiras, os advogados eram levados como heróis da decisão pelos tricolores.

O Brasileirão de 2013 ficará eternamente marcado por esse episódio. A Lusa tem o direito de recorrer, e o fará. Pode até reverter a decisão final, mas nada anulará o mundo alternativo em que todos entramos nesta segunda, vendo um julgamento como se fosse a partida mais emocionante da reta final do campeonato – e ignorando boa parte do que aconteceu naqueles 380 jogos de verdade, de maio a dezembro. Todos perderam nisso, até o Fluminense.