Durante os últimos anos, o noticiário em torno do Guarani foi tomado por desgraças. Crise financeira, dívidas enormes, rebaixamento tanto no Brasileiro quanto no Paulista. Brinco de Ouro acabou vendido. A falência, para muita gente, parecia inescapável. Quando causava algum rebuliço positivo nas manchetes, era mais por aquilo que o Bugre imaginava (como na contratação de Flávio Caça-Rato), e não pelo que de fato o clube conquistava. Depois de uma fraca participação na A-2 do Paulistão, porém, os alviverdes viraram o jogo. Encabeçaram uma excelente campanha na fase de classificação da Série C. E, com sua dose de drama, confirmaram o acesso na Terceirona neste sábado, com a vitória por 3 a 0 sobre o ASA de Arapiraca. Epopeia que se concentra em três protagonistas: o capitão Fumagalli, o técnico Marcelo Chamusca e a apaixonada torcida.

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A narrativa do sucesso bugrino parte de tantos insucessos que Fumagalli sentiu na pele. Ídolo do clube no início da década passada, o veterano retornou a Campinas há quase cinco anos. Arrebentou no vice-campeonato paulista de 2012, o último momento de brilho antes das penúrias começarem. Caiu no Brasileiro ao final daquela temporada e no estadual do ano seguinte. Viu de perto todas as calamidades ao redor da situação extracampo. E, dentro de campo, acostumou-se com a mediocridade do time. Foram três campanhas consecutivas na Série C sem sequer avançar aos mata-matas e, pior, até flertando com o rebaixamento em 2014 – quando os atrasos salariais quase levaram o elenco à greve e culminaram na renúncia do presidente. Foram três campanhas consecutivas na Série A-2 passando longe do acesso. Nem por isso o capitão abandonou o barco. Nem por isso ele deixou de se dedicar ao clube.

Em abril, Fumagalli ganhou a companhia do outro líder que ajudaria a reinventar o Guarani. Marcelo Chamusca foi contratado em abril, após o fracasso na A-2. O treinador chegou gabaritado pela experiência de grandes campanhas na Série C. Mas também uma vocação inegável à tragédia. Ele estava à frente do Fortaleza nos dois últimos acessos que os cearenses perderam na Terceirona. Viu Macaé e Brasil de Pelotas calarem o Castelão abarrotado, em conquistas épicas para ambos, mas traumáticas para os tricolores. O Bugre oferecia a Chamusca uma chance de redenção. E ele acreditou no projeto ousado que se moldou às vésperas do campeonato. Os alviverdes investiram no elenco só depois da A-2, trazendo jogadores que disputaram o estadual por equipes das primeiras divisões. Apostaram em vários nomes tarimbados, como Leandro Amaro e Pipico. Além disso, o novo comandante exigiu mudanças estruturais dentro, incluindo no departamento médico e no de análise de desempenho. Deu liga.

O Guarani sobrou na fase de classificação da Série C. O Grupo B contava com vários clubes que também não tiveram um bom desempenho nos primeiros meses do ano. Isso ajudou os bugrinos a ganharem consistência durante a competição. A equipe venceu 11 das 18 partidas que disputou. Permaneceu invicta no Brinco de Ouro, com sete vitórias e dois empate. Fumagalli, por sua vez, orquestrou seus companheiros. Aos 39 anos, foi o líder no futebol e no espírito de luta. Marcou seis gols e comeu a bola na criação. Os alviverdes acabaram somando 38 pontos, a maior marca de um time na fase de grupos da Terceirona desde 2012. Parecia que só um desastre desviaria os campineiros de sua caminhada rumo ao acesso.

A Série C, todavia, se faz traiçoeira. Tudo começa do zero nos mata-matas e o acesso se define em apenas dois jogos. Marcelo Chamusca estava mais do que ciente disso. E certamente reviveu seu pesadelo depois do duelo de ida contra o ASA. O Guarani sofreu sua terceira derrota no campeonato de maneira inapelável. De virada, os alagoanos venceram por 3 a 1 em Arapiraca e complicavam a missão dos bugrinos. Era preciso de calma e confiança. Algo que o treinador ofereceu, junto com seu bom trabalho, ainda que suas memórias pessoais o massacrassem.

Dentro do Brinco de Ouro, Fumagalli e Chamusca contaram com o apoio irrestrito dos torcedores no jogo decisivo. A média de público durante a primeira fase, a despeito do momento, nem impressionou tanto assim: se manteve por volta dos quatro mil pagantes por partida. Mas esta era a hora de abraçar o time e reacender a paixão. Mesmo com algumas áreas das arquibancadas interditadas, 12,7 mil bugrinos compareceram, no maior público do estádio desde a semifinal do Paulista de 2012. Fizeram um barulho digno de uma massa bem maior, que não pôde estar representada por completo.

Como era inescapável, a noite esteve repleta de dramaticidade, embora o Guarani tenha construído o placar de maneira relativamente tranquila. O primeiro gol saiu aos 26 minutos, a partir dos pés de Fumagalli, que cobrou a falta desviada às redes por Leandro Amaro. Já no segundo tempo, Eliandro se tornou ídolo imediato em sua segunda aparição pelo clube. O atacante foi contratado junto ao Bragantino especialmente aos mata-matas e fez a diferença, se transformando no herói do acesso. Em um lance de raça, se jogou na frente de um chute do goleiro Thiago Braga e marcou o segundo tento aos 10 minutos. Naquele momento, pelo gol fora, o acesso já era dos campineiros. E o novato ofereceu ainda mais garantias aos 27, com o terceiro. Quando o ASA pressionava, pouco depois de forçar grande defesa de Leandro Santos, um chutão da zaga virou oportunidade. Eliandro brigou e fechou a conta.

Ao final, ninguém melhor do que Fumagalli para resumir o sentimento. “Fiz de tudo e quero fazer mais para que o Bugre volte a ser um time grande. Agora vamos buscar o título. Essa torcida merece não só subir de divisão, mas merece voltar a elite do futebol brasileiro”, declarou, em meio à festa. A caminhada ainda é longa. O acesso à Série B só foi o primeiro passo em um trajeto tortuoso. Por mais que as perspectivas comerciais melhorem na Segundona e a atual diretoria tenha conseguido tirar o clube da lama em 2014 (mas também com decisões discutíveis desde então), o presente não anula os problemas que se arrastam. Para resgatar sua história grandiosa, o Bugre precisa enfrentar o passado que sufoca o seu futuro. O presente, ao menos, é redentor e clareia o horizonte no Brinco de Ouro, naquela que talvez seja a última glória do estádio negociado.