Imagine um clube sediado em uma área metropolitana de 12 milhões de habitantes. Que está inserido em uma cidade multicultural, onde o futebol pode servir de interesse comum a pessoas de diferentes origens. Que, além do mais, é o único da região na elite do campeonato nacional e atua em um dos estádios mais tradicionais da Europa. E que possui sua cena de ultras reavivada após anos de banimento por causa da violência. Neste ambiente é que Neymar foi apresentado ao Paris Saint-Germain. Os parisienses podem não ter a tradição de outras agremiações do país e sua impulsão nos últimos anos soa um tanto quanto artificial. Isso não quer dizer, entretanto, que o Parc des Princes costuma ficar às moscas. Até por todo o contexto da cidade, há uma torcida representativa. Algo que se evidenciou neste sábado, antes da estreia da equipe de Unai Emery pela Ligue 1, na vitória por 2 a 0 sobre o Amiens.

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Com quase 47 mil presentes na partida, Parc des Princes estava cheio para recepcionar Neymar, mesmo com sua apresentação acontecendo um bom tempo antes que a bola rolasse. O palco foi armado no centro do gramado para que o novo astro o tomasse. O brasileiro fez as suas graças com a bola, mandou uma mensagem aos torcedores e até arriscou algumas palavras em francês. Deu uma volta olímpica e jogou sua camisa à galera, enquanto já ouvia uma música dedicada a exaltá-lo – em adaptação de ‘Aquarela do Brasil’, como é comum entre tantos clubes europeus. Pôde sentir o calor dos parisienses.

Na saída do campo, Neymar não escondeu a sua surpresa pelo tamanho da festa realizada nas arquibancadas para dar as boas-vindas. “Inexplicável. A sensação que tive agora foi de arrepio a todo momento. Já imaginando conquistas e vitórias aqui. O carinho que recebi foi surreal. Estou muito contente, e agora estou com gana de poder jogar e fazer essa torcida muito feliz”, declarou, em entrevista à Rede Globo na saída de campo.

O processo de popularização do Paris Saint-Germain precisou ser um tanto quanto “acelerado”, diante do intuito de criar um clube forte o suficiente para representar a cidade na Ligue 1. Os preços baixos nos ingressos ajudaram a atrair o público da periferia às arquibancadas do Parque des Princes. Já a consolidação do time como uma potência nacional durante os anos 1990 impulsionou os números. A partir de 1994/95, a média de público do PSG na Ligue 1 sempre superou os 30 mil pagantes – com exceção feita a uma temporada, 2010/11. Na virada da década, os parisienses já batiam a marca de 40 mil por jogo. A projeção pelos resultados contribuía, assim como os efeitos sentidos em todo país pela realização da Copa do Mundo de 1998, que também se refletiu nas médias.

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Neste momento, o PSG chegou mesmo a superar as médias de público do Olympique de Marseille. A rivalidade entre os dois clubes, aliás, ajudou a impulsionar os parisienses. As duas maiores cidades do país também possuem uma rixa histórica que se expande por séculos, em diferentes áreas, da política à cultura. Isso acabou sendo levado para os estádios. Se os marselheses viam no Olympique a grande representação de seu regionalismo provençal, o PSG se erigia como a oposição da capital. E a inimizade ganhou força especialmente no início dos anos 1990, quando as duas agremiações se colocaram como as maiores potências econômicas do Campeonato Francês – o OM bancado por Bernard Tapie, enquanto o Canal+ derramava seu dinheiro em Paris.

Neste cenário, tornou-se um tanto quanto natural a constituição de uma “identidade parisiense” particular ao redor do Paris Saint-Germain. O que descambou para a violência, sobretudo a partir da década passada. Os clássicos com o Olympique de Marseille se tornaram de alta periculosidade, aplicando até mesmo a adoção de torcida única. Enquanto isso, as facções de hooligans inspiradas nas firms inglesas, que surgiram nos anos 1980, protagonizavam cada vez mais episódios de intolerância. O segregacionismo se notava não apenas contra os clubes do interior, mas também contra próprios grupos de imigrantes nas arquibancadas do Parc des Princes.

neymar

A partir de 2008, diante das seguidas mensagens preconceituosas e até mesmo de mortes causadas pelos hooligans, a diretoria do PSG e o poder público local resolveram agir contra os ultras. As facções foram inicialmente dissolvidas (em especial, Boulogne Boys, principal delas), até serem banidas de vez em 2010. A sequência de fatos impactou diretamente nas médias de público no Parc des Princes, caindo mais de 25% até a baixa para 29,3 mil pagantes por jogo em 2009/10. A política rigorosa do clube coincidiu, meses depois, com a chegada dos novos donos catarianos. O investimento em astros, assim, não apenas atraiu novamente os torcedores para o Parc des Princes. Também ajudou a formar uma nova cultura de arquibancada.

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Desde 2011/12, as médias de público do Paris Saint-Germain superam os 42,8 mil presentes por rodada. Logicamente, o aumento do apelo midiático da equipe tornou o Parc des Princes um destino mais procurado por turistas. Ao mesmo tempo, o basta à violência passou a atrair grupos mais diversos – incluindo árabes e negros dos subúrbios de Paris, antes à margem da torcida. “A popularidade do clube está proporcionando uma função social interessante – unindo Paris e os subúrbios de uma maneira como nada antes tinha sido capaz de fazer”, afirmou Darren Tulett, apresentador do canal BeinSport, em entrevista à BBC.

Só havia um entrave principal diante de todas as mudanças: a perda da atmosfera. Por mais que os ultras causassem problemas execráveis, eram eles quem ditavam o ritmo do espetáculo além das quatro linhas. Por isso mesmo, desde setembro do ano passado, a diretoria do PSG reabriu suas arquibancadas a um novo grupo, o Collectif Ultras Paris – independente e desvinculado de ideologias extremistas. As concessões são graduais, controladas pela polícia parisiense. De qualquer forma, o impacto no ambiente do estádio foi imediato.

São esses os caras que fizeram uma enorme festa quando Neymar chegou a Paris e participou do primeiro evento com o PSG. São esses caras que se posicionam atrás dos gols e levantaram o moral do camisa 10 neste sábado. Aliás, o camisa 10 poderá ter um papel importante na nova realidade vivida no Parc des Princes. É o primeiro grande ídolo a entrar em contato com a torcida organizada desde o seu retorno. Será um novo elemento na redefinição da cultura de arquibancada nos jogos dos parisienses. Um processo que, entretanto, pode não ser apenas de popularização e expansão, considerando o projeto comercial que tende a aumentar os preços diante da demanda por ingressos. Transformação esta que só poderá ser conhecida com o passar do tempo.

Além de Neymar, o Collectif Ultras Paris e os outros torcedores do Paris Saint-Germain puderam festejar o triunfo sobre o Amiens, recém-promovido à primeira divisão. Os pequeninos fizeram jogo duro e seguraram os anfitriões durante a maior parte do tempo, mas acabaram cedendo ao bombardeio. Aproveitando cruzamento de Daniel Alves, Edinson Cavani abriu o placar pouco antes do intervalo. Já no segundo tempo, Javier Pastore ampliou a diferença e fechou a conta. Foi uma atuação insatisfatória do time de Unai Emery, sem aproveitar as chances que criou, apesar da inferioridade técnica dos adversários. Ao menos garantiu os três pontos – e também a empolgação inicial para que Neymar finalmente possa estrear pelo novo clube.