Diante da situação desesperadora que vive no grupo A das Eliminatórias europeias para a Copa de 2018, era de se esperar um ambiente de alta ansiedade envolvendo a seleção da Holanda, antes das duas últimas rodadas que reservam tarefas dificílimas. Afinal de contas, ou a Laranja vence Belarus (neste sábado, às 15h45, em Borisov) e Suécia (próxima terça, também às 15h45, na Amsterdam Arena) – e tira um saldo de seis gols -, ou estará fora de uma Copa do Mundo, após 16 anos. Porém, o que se vê é uma melancólica tranquilidade. Como se a Holanda já não tivesse mais chances.

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A começar pelo próprio técnico. Dick Advocaat, 70 anos completados no dia 27 de setembro, cedeu entrevista inesperadamente calma à revista “Voetbal International”. Certo, a conversa falava sobre toda a carreira de Advocaat. Ainda assim, eram de se esperar palavras mais nervosas. Que nada: o treinador comentou sobre seu futuro na carreira (“Se eu parar e ninguém mais me telefonar, ficarei tranquilo. Mas telefonarão de novo. Sempre telefonam. (…) Eu já posso me aposentar, mas primeiro quero levar a Oranje à Copa. Depois? Não sei.”). E como se já estivesse de carreira terminada, até comentou sobre um hipotético substituto – o próprio auxiliar: “Ruud Gullit seria um excelente técnico da seleção. Os holandeses esquecem o tamanho do símbolo que ele é”.

Nem mesmo a convocação causou celeuma. Talvez porque nem haja muito o que questionar, entre caras conhecidas (Arjen Robben, Daley Blind) e nomes que começam a ganhar espaço definitivo para os próximos anos, como Wesley Hoedt, Tonny Vilhena e… Davy Pröpper. Após a boa atuação contra a Bulgária, na rodada passada das Eliminatórias, o meio-campista deverá ocupar o lugar de Wesley Sneijder entre os titulares.

Eis uma surpresa implícita: por mais que a importância histórica de Sneijder seja indiscutível, ninguém lamentou excessivamente sua ausência na convocação. Justo. Afinal de contas, o meio-campista já perde espaço para Allan Saint-Maximin no Nice (na Liga Europa, sequer é relacionado para algumas partidas). Diante dos perigos que a Holanda corre, e dependendo do que acontecer, pode ser que os 45 minutos jogados contra a França tenham sido os últimos momentos de Sneijder com a camisa laranja, após 14 anos e 132 partidas.

Se a história de um símbolo da seleção holandesa pode ter acabado, a história de um veterano recomeçou graças a uma surpreendente convocação. Certo, convocação merecida: Ryan Babel tem mostrado ótimo desempenho neste começo de temporada, no Besiktas. Mas já não jogava pela Laranja desde 15 de novembro de 2011 (derrota para a Alemanha em amistoso, 3 a 0), quando o técnico ainda era Bert van Marwijk. Babel sequer foi convocado pelos sucessores. Até o bom começo no Besiktas – e a lesão de Quincy Promes, habitual relacionado, possibilitando o retorno de Babel à seleção. Retorno tão imprevisto que o próprio se surpreendeu: “Seis anos é um longo tempo. Achei que todos tinham se esquecido de mim”.

Os 25 convocados chegaram já com o discurso decorado – e sintetizado nas palavras do capitão Robben à NOS, emissora pública holandesa: “Só vencer dois jogos já é uma tarefa muito difícil. E também precisar vencer por uma diferença de gols dessa… Nunca se deve dizer ‘nunca’, mas é muito, muito difícil. Vai depender muito do que acontecer nos jogos do final de semana. A diferença de saldo está em +6 [a favor dos suecos], e não pode ser maior do que isso depois de sábado”.

Num ambiente com tal obrigação, era de se esperar a contenção de quaisquer prejuízos em potencial. Não aconteceu (afinal, é a Holanda). Já antes da convocação definitiva, o lesionado Stefan de Vrij pediu à dupla Advocaat-Gullit para ficar de fora da lista. Pedido atendido. Mas nem o técnico, nem o auxiliar contavam com o que veriam no domingo: De Vrij jogando 67 minutos pela Lazio, até marcando gol nos 6 a 1 sobre o Sassuolo, pelo Campeonato Italiano.

Gullit obviamente estranhou, como comentou à mesa redonda “Rondo”, do canal a cabo Ziggo Sport: “Telefonaram para nós, o médico disse que ele não poderia jogar, e era essa a informação que tínhamos. Aí se vê a escalação, e o nome dele está lá. E você pensa: como assim? Falamos com o jogador, e ele comentou que pôde jogar, mas que não se sentia bem o bastante para atuar pela seleção”. Nenhuma briga aconteceu, e De Vrij engrossou a voz contra as suspeitas de que não quis jogar pela Oranje, falando à NOS: “Joguei 67 minutos, mas não foi sem dor. A cada passe que eu dava, sentia dores. É absoluta besteira [que eu não quisesse jogar pela seleção]”. Mesmo assim, ficaram as desconfianças.

Dentro de campo (com Virgil van Dijk convocado para a zaga), a coisa piorou com o mau desempenho holandês nos treinos de finalização. Além do mais, com uma lesão muscular, Kevin Strootman foi cortado na quarta passada. O que não quer dizer que o ambiente é caótico. É apenas… melancólico. Cercado de opiniões quase unânimes: a Holanda não estará na Copa de 2018. Foi o que afirmou Ruud Gullit, entre um treino e outro: “Temos jovens talentosos, mas eles vão cedo para a Europa e ficam no banco”. Foi também o que escreveu Willem van Hanegem, em sua coluna no diário “Algemeen Dagblad”: “Naturalmente, seria lindo se alcançássemos o Mundial da Rússia, mas não acontecerá. Temo que os jogos contra Belarus e Suécia sejam os últimos de Robben com a seleção”.

Pois o dono da braçadeira de capitão na Oranje talvez seja o único a não dar o braço a torcer. Robben segue com uma ambição notável, pelas declarações emocionadas dadas à “Voetbal International”: “Claro que penso até quando aguentarei continuar na seleção. Mas não revelarei publicamente o que penso. Até porque, para mim, não acabou. A curto prazo, penso no cenário mais positivo: que nos classifiquemos para a Copa. Quero estar lá. Os outros cenários não entram na minha cabeça. Estar numa Copa é lindo. E a Oranje me traz algo muito bonito. Não pode terminar assim”.

A revelação sobre as perspectivas que a Holanda ainda pode ter surgirá até antes da equipe entrar no gramado da Borisov Arena, contra os bielorrussos. Afinal, a Suécia jogará antes contra Luxemburgo, às 13h do sábado. Enquanto um importante jogador da seleção da camisa amarela protestou (“É incrivelmente estranho que os dois jogos importantes da rodada não sejam disputados simultaneamente”, lamentou Sebastian Larsson), Robben advertiu: “O resultado [da Suécia] poderá nos impulsionar, saberemos o que será esperado de nós”.

Por enquanto, o que é esperado da Holanda é a confirmação da crise no futebol do país. Até pela baixa expectativa, e pelos maus resultados, ninguém espera que a sorte ajude. Enfim: torcida e imprensa já estão preparadas para a previsível decepção de ficar fora da Copa. A ver se a atitude terá sido precipitada ou previdente.