O histórico de Max Meyer nas seleções de base da Alemanha é suficiente para referendá-lo como uma das maiores promessas do país nos últimos anos. Conquistou o Europeu Sub-21 em 2017, foi vice no Sub-17 em 2012, ficou com a prata nas Olimpíadas de 2016. Também recebeu diversos prêmios individuais, inclusive duas medalhas Fritz Walter, condecoração que elege todos os anos os melhores jovens do Nationalelf. Jogou quatro partidas sob as ordens de Joachim Löw e acumulava cinco temporadas como titular no Schalke 04. O anúncio de que não renovaria com os Azuis Reais abriu uma grande possibilidade no mercado. Alguns clubes de peso foram especulados como possíveis destinos. Surpreende, no entanto, qual o real futuro do meio-campista de 22 anos. Ele assinou com o Crystal Palace, em negócio um tanto quanto emblemático, em diversos aspectos.

Meyer não apresentou números ofensivos tão impressionantes nas temporadas mais recentes, mas seguia como um jogador importante ao Schalke 04. De qualquer forma, os imbróglios o circundavam, diante das dificuldades na renovação de seu vínculo com os Azuis Reais. Assim como acontecera com outras revelações nos últimos anos, a exemplo de Leon Goretzka, o clube de Gelsenkirchen perdia de graça aquele que deveria ser tratado como futuro da agremiação, embora não tenha completa culpa pelo fracasso na negociação. E mesmo que o desempenho recente não fosse tão chamativo, o camisa 7 não precisava provar a ninguém o seu talento. Quem não deseja contratar um jogador de muita qualidade técnica, que une precisão nos passes e criatividade? Interessados não faltariam.

O Bayern de Munique, é claro, apareceu na lista de possíveis destinos de Max Meyer. Mesmo na Inglaterra surgiam equipes grandes querendo fechar negócio, como Liverpool e Arsenal. Entretanto, o meio-campista também queria aproveitar a oportunidade de mercado e, já que não gastariam com sua transferência, aumentou sua pedida salarial. Esse, aliás, já tinha sido o problema em suas tratativas para ficar no Schalke 04. Christian Heidel, diretor esportivo dos Azuis Reais, afirma que ouviu do empresário do jovem: “Antes que comecemos, precisamos saber se estamos falando do mesmo jogador, então você poderá me fazer uma oferta. Estou falando sobre um world-class, alguém que pode ser titular em qualquer grande clube da Europa”. Ao que o dirigente respondeu: “Ele é um ótimo jogador na Bundesliga, alguém com grande potencial, mas que ainda pode melhorar”. Não achava que o camisa 7 valia além dos €100 mil semanais pedidos pelo agente.

Não à toa, demorou para que Meyer encontrasse um novo clube. O salário exageradamente alto foi um problema aos interessados em seu futebol – não apenas para cumprir o primeiro contrato, mas também para renovar o vínculo nos anos posteriores, precisando aumentar os números ainda mais. Além do mais, nada impediria que a postura gananciosa que teve diante do Schalke 04 se repetisse com outras agremiações. Mais por sua atitude do que por seu talento ou por sua idade, o meio-campista tornou-se um negócio de risco. Seria preciso assumir esta realidade.

Nos últimos dias, o nível competitivo dos interessados diminuiu. West Ham e Hoffenheim surgiram como possíveis compradores. Entretanto, quem foi capaz de atender as altas demandas salariais e fechar o acordo foi o Crystal Palace. Segundo o Daily Mail, os londrinos pagarão um salário semanal de £170 mil ao alemão. É £50 mil a mais que o jogador mais bem pago do elenco na temporada passada, o centroavante Christian Benteke. Além disso, coloca o novato entre os 20 mais bem pagos da Premier League, no mesmo patamar de antigas estrelas do futebol alemão, como Henrikh Mkhitaryan e Pierre-Emerick Aubameyang.

Ao Crystal Palace, sem dúvidas é um grande acréscimo. Meyer é o terceiro reforço do time de Roy Hodgson para a temporada, após buscarem Cheikhou Kouyaté no West Ham e trazerem o goleiro Vicente Guaita, que estava no Getafe. O alemão pode atuar em diferentes posições no meio-campo e fazer o time orbitar ao redor de si, por sua qualidade na construção. Adiciona bastante a um setor que pode ser considerado o mais bem servido do time e possui capacidade de variações táticas. Mas, por outro lado, o negócio também engloba entraves.

Primeiro, pela adaptação do jovem na Premier League. Depois, pelo próprio encaixe ao estilo de jogo, em uma equipe que confia bastante no contato mais físico; nas ações diretas, concentradas pelos lados de campo; e com uma marcação bastante agressiva. Além disso, será necessário ver como a notícia será recebida no próprio vestiário das Águias. É bem possível que o salário suntuoso do meio-campista gere uma bola de neve com pedidas maiores. Principal jogador da equipe na última temporada, Wilfried Zaha recusou uma melhora de seu contrato, diante do interesse de Tottenham e Borussia Dortmund. A oferta do Palace? “Apenas” £120 mil.

Já a Meyer, a responsabilidade aumenta bastante. O desenvolvimento do jogador não seguiu a ascensão aguardada nas últimas temporadas, e ele poderia tentar amadurecer um pouco mais como protagonista de um time importante em uma liga secundária ou como coadjuvante em uma equipe maior. Não. Preferiu encher os bolsos e partir a um clube que nunca passou do 10° lugar desde que a Premier League foi instaurada. Não apenas terá pouco tempo para se provar como um atleta pronto à missão, assim como precisará “fazer chover” em algumas partidas. Talento não falta, mas uma passagem mediana em Selhurst Park pode fechar as portas em clubes de primeira linha. Mais do que um grande investimento das Águias, a maior aposta quem faz é Meyer em si mesmo.

Apesar dos receios, é preciso enfatizar que a contratação de Meyer não deixa de ser um baita negócio para o Crystal Palace, valores do salário à parte. É um tipo de jogador que dificilmente cogitaria defender o clube. E que acaba possibilitado pelos bilhões girando ao redor da Premier League, graças aos últimos contratos televisivos. Um clube pequeno do país consegue ser mais competitivo que um grande da Alemanha, por exemplo, e reflete claramente um fenômeno comum, de vários jogadores relevantes partindo ao futebol inglês. Por outro lado, há uma bolha que preocupa olhando para o futuro. Resta saber se as exigências atendidas com Meyer são exceção ou se cada vez mais se aproximarão do padrão.