Brwa Nouri tem uma nobre missão nesta temporada. O volante de 30 anos é o responsável por capitanear o Östersunds em sua empreitada na Liga Europa. Já tinha feito bastante no primeiro semestre, quando ergueu o troféu da Copa da Suécia, na surpreendente conquista de um clube que estava na quarta divisão nacional há seis anos. O dono da braçadeira ingressou na jornada dos rubro-negros em 2014, para auxiliar no inédito acesso à elite e, agora, se vê enfrentando clubes das principais ligas nacionais da Europa. Faz sua parte. Nesta quinta, foi dele o gol na vitória por 1 a 0 sobre o Hertha Berlim, a segunda na competição continental, que permite aos torcedores sonharem com outro milagre. Pois, não bastasse todo o seu simbolismo no Östersunds, Nouri ainda é um personagem e tanto.

Sua história de vida começa no interior do Irã, em uma família de origem curda. Nouri nasceu em Urmia, uma cidade próxima da fronteira com a Turquia, mas passou os seus primeiros anos de vida no Iraque. Tempos difíceis para os curdos, em que a repressão aos seus anseios nacionalistas resultou em milhares de mortes na região. Junto com sua mãe, migrou para a Suécia, fugindo do regime de Saddam Hussein. Os refugiados se estabeleceram na cidade de Solna, quando Nouri tinha cinco anos. Por lá, teria a oportunidade de se tornar jogador de futebol.

“Há um filme chamado ‘Gênio Indomável’, em que um garoto tem um talento natural para a matemática. Sinto que o futebol também é natural para mim. Nada mais importa, eu me foco totalmente em jogar. Por mais que existam outras pessoas que amam o futebol, eu sinto que para mim isso vai além. Há algo que os outros não têm. Não digo que é qualidade como jogador, mas eu amo tanto que isso é um assunto de vida ou morte para mim. O futebol sempre foi minha válvula de escape, é o único momento em que minha mente está livre. Jogando, eu posso meditar sem pensar em qualquer outra coisa. O mundo desaparece, eu não ouço mais nada”, declarou, ao site fotbolldirekt.

O talentoso garoto passou pelas categorias de base do Vasalunds, até ser incorporado ao AIK, um dos principais clubes do país. Não seria uma trajetória fácil. Quando tinha 15 anos, Nouri recebeu uma suspensão de oito meses, além de cumprir penas de correção, por, ao lado de outros colegas, agredir novatos em um “ritual de iniciação” nas categorias de base. Apesar da projeção nacional que o episódio teve, o jovem conseguiu refazer seu nome e chegar às seleções de base um ano depois.

No entanto, aos 17, uma nova reviravolta atingiria a vida de Nouri. Já no elenco principal do AIK, o meio-campista conheceu as drogas. Com diversos problemas de indisciplina, passou a ser emprestado com frequência. Não parava em clube algum. E, neste intervalo, tornou-se dependente químico. Usava maconha, cocaína e outras substâncias sintéticas, além de se envolver com traficantes. Os exames antidoping eram uma preocupação constante, mas nunca foi pego. Seu real problema veio em 2008, quando acabou detido pela polícia. Após passar por interrogatório, o AIK exigiu um exame de sangue. Nouri inventou desculpas para não realizar o teste e, diante da enrolação, o clube decidiu encerrar o seu contrato.

nouri1

Neste momento, a história de Nouri no futebol parecia acabada. Sua redenção veio no Dalkurd, um clube fundado por imigrantes curdos na cidade sueca de Borlänge. A agremiação surgiu em 2004, como um projeto social para ajudar os jovens da região. E esse espírito se manteve quando os dirigentes estenderam a mão para o meio-campista de 22 anos. Por lá, ele encontraria uma realidade bem diferente do AIK, em uma equipe que figurava na quarta divisão. Entretanto, teria todo o apoio para a sua reabilitação. Atendido por psicólogos e outros profissionais, Nouri conseguiu se afastar das drogas. Focaria apenas no futebol, ajudando o Dalkurd a subir para a terceirona sueca. Foram nove gols em 20 partidas em seu primeiro ano, já contribuindo para o acesso.

Nouri permaneceu no Dalkurd por cinco temporadas. Não era apenas o maestro do time que figurava na terceira divisão do Campeonato Sueco. Por seu DNA, o clube incentivava seus jogadores a realizarem diversos trabalhos sociais, para ajudar outros imigrantes a se integrarem à comunidade local e quebrarem as barreiras do preconceito. O meio-campista passou a visitar escolas, a conversar com dependentes químicos, a treinar crianças. Moldou-se como um líder, algo fundamental para a sequência de sua carreira. Em 2013, levou o Dalkurd aos playoffs de promoção para a segunda divisão, mas não conseguiu o acesso. Em compensação, atrairia a atenção do Östersunds, contratado para disputar a segundona.

A partir de então, Nouri se tornou peça-fundamental no time do técnico Graham Potter, o inglês que assumiu os rubro-negros quando ainda estavam na quarta divisão. Em um elenco com vários outros imigrantes, o meio-campista se sobressaía na bola e na voz. Logo na primeira temporada já passou a usar a braçadeira esporadicamente. No segundo ano, auxiliou o time a conquistar o acesso inédito à primeira divisão, fazendo campanha segura para se manter na elite durante o terceiro ano. E no quarto, com Nouri efetivado como capitão, o Östersunds conquistou a Copa da Suécia. A equipe faturou a taça em abril deste ano, ao golear o Norrköping. Graças a isso, assegurou seu lugar na Liga Europa.

O desafio continental do Östersunds começou na segunda fase preliminar. O Galatasaray era franco favorito. E os azarões começaram a aprontar já na Suécia, com a vitória por 2 a 0. Nouri, porém, bateu boca com alguns jogadores turcos. Durante a partida, imigrantes curdos aproveitaram a ocasião para protestar contra os ataques realizados pela Turquia aos seus compatriotas. O meio-campista chegou a tirar uma bandeira curda do gramado, em respeito, o que gerou a reação dos adversários. Antes da visita a Istambul, o capitão do Östersunds foi ameaçado por torcedores do Galatasaray. Não se intimidou. Mais do que entrar em campo, ele marcou o gol de pênalti que selou o empate por 1 a 1, suficiente para a classificação dos rubro-negros.

Nas etapas seguintes da Liga Europa, Nouri enfrentaria o Fola Esch e o PAOK. Contra os gregos, anotou o gol de honra na derrota por 3 a 1 em Salônica, também de pênalti. Um tento que se provaria vital, diante da vitória cardíaca por 2 a 0 na Suécia. Graças ao gol fora de casa, o Östersunds se classificou à fase de grupos justo em sua estreia nas competições continentais. Titular, o volante participou do triunfo do Zorya Luhansk na estreia. Até decidir a vitória por 1 a 0 sobre o Hertha Berlim nesta quinta, mais uma vez na marca da cal. É o primeiro jogador iraquiano a anotar um tento na Liga Europa e o segundo nas competições europeias. Sucede Hawar Mulla Mohammed, que foi pioneiro na Champions de 2008/09, defendendo o Anorthosis Famagusta. Campeão asiático em 2007, o veterano é curdo como Nouri, e somou 113 jogos pela seleção iraquiana até sua aposentadoria.

Brwa Nouri também acumula convocações pelo Iraque. Apesar da passagem pelas seleções de base da Suécia, optou pela nacionalidade em 2016, participando da campanha nas Eliminatórias – titular contra o Japão no último mês de junho. E não é nenhum devaneio imaginar que seu impacto no Östersunds possa o levar a voos maiores, apesar dos 30 anos nas costas. Mas, por enquanto, ele continua comprometido em liderar a epopeia dos rubro-negros. Sua redenção no futebol continuará ao menos por mais quatro rodadas.