Que o futebol é um esporte machista não é nem preciso ser muito atento para perceber. Lutar contra uma cultura machista no futebol e nos estádios é uma necessidade. Primeiro do ponto de vista humano e de direitos das mulheres de frequentarem esse espaço e terem o respeito que merecem. Segundo, porque todos os atores do futebol sabem que as mulheres são importantes como público. Mais da metade da população é composta de mulheres. Elas estão nas arquibancadas. É preciso que elas sejam bem tratadas, porque são torcedoras que consomem o clube, seja como sócia, indo ao estádio, comprando produtos ou mesmo pela TV.

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Nada disso, porém, vem fácil. Há diversos grupos de mulheres que se unem para torcer pelos seus clubes e lutar por seus direitos, contra o machismo que leva a assédio e ameaças às mulheres nos estádios ou a caminho deles. E por isso, grupos como o Coletivo INTERfeminista é importante. Falamos com as integrantes do coletivo para entender um pouco sobre o surgimento e as campanhas que estão sendo feitas.

O coletivo é composto por 266 torcedoras coloradas e sete delas organizam a página no Facebook. Najla Rodrigues Diniz, 39, professora e advogada; Patrícia DÁvila, 42, dentista; Aline Carlosso Neibert, 34, advogada; Fabiane Dutra, 35, assessora parlamentar; Isadora laguna Soares, 24, professora; Paula Rabello, 30, advogada; e Alice Dutra, 23, estudante. Confira abaixo a entrevista da Trivela com o Coletivo.

Trivela: Quantas pessoas fazem o coletivo?

Coletivo: Temos um grupo fechado de debate no Facebook com 266 coloradas. Ali conversamos sobre assuntos que nos interessam, combinamos ações, marcamos encontros. Mas na coordenação do coletivo somos sete, responsáveis pela manutenção da página e pelo Twitter (@interfeminista): a Alice, a Aline, a Fabiane, a Isadora, a Najla, a Patrícia e a Paula.

Trivela: Como e quando surgiu a ideia do coletivo? 

Coletivo: A ideia do coletivo surgiu de uma demanda bem específica. A Najla é conselheira do clube, pelo movimento O Povo do Clube, e na última reforma estatutária propôs uma cota feminina para as nominatas que concorressem à eleição do Conselho Deliberativo. A proposta era a de que de a cada 10  nomes, 2 fossem femininos, representando a proporção de 22% do quadro social do Inter.  A proposta, num ambiente em que há 325 conselheiros homens e apenas 15 conselheiras mulheres, foi ridicularizada entre muitos e arquivada. Inconformada com a falta de representatividade num espaço tão importante surgiu a necessidade de conhecer melhor quem são e o que pensam as torcedoras do clube.

Nesse meio tempo, o Inter promoveu no dia da mulher, uma peça lamentável de marketing em que dava a entender que a maior conquista de uma colorada era a admiração de (homens) colorados. A rejeição foi tanta que no começo da tarde do próprio 8 de março, o clube tirou a peça do ar. Uma sócia, a Isadora,  escreveu uma carta aberta ao clube, questionando a visão que a instituição tinha de suas torcedoras.

Numa visita da Maria da Penha ao clube, a Najla comentou com a Isadora sobre a carta que a própria Isadora tinha escrito (elas não se conheciam)… Desse encontro saiu o grupo fechado que virou página.

Trivela: Qual o retorno que vocês tiveram dos torcedores ao criar a iniciativa?

Coletivo: O retorno foi extraordinário, tanto no Facebook como no Twiter.  Muitos comentários e compartilhamentos de diversas partes do Brasil. Foram poucos os comentários ofensivos, a aceitação foi de um modo geral. É um fenômeno que não se restringe ao Beira-Rio; a maioria das mulheres, em todos os estádios do país, já passou por algum tipo de situação constrangedora.

Trivela: A ação #OuviNoEstádio surgiu como?

Coletivo: Nós sempre conversamos e colocamos em pauta o modo como as mulheres são tratadas no estádio, inclusive porque foi assim que o coletivo surgiu. Há algumas semanas isso foi levantado no grupo em função das ofensas que uma participante do coletivo ouviu de torcedores para uma gandula, e aí começamos a pensar em como poderíamos expor tudo que a gente passa de modo a dar visibilidade para esse problema e conscientizar quem ainda acha que o machismo no futebol já foi superado. Pensamos em algumas possibilidades, mas, como temos uma ferramenta tão potente como as redes sociais, achamos que uma campanha online teria um bom alcance, e surgiu a ideia de fazer as imagens. As primeiras cinco imagens que publicamos no álbum foram de frases que as meninas postaram no grupo mesmo, em menos de 24h, já temos mais 12 frases enviadas por torcedoras

Trivela: Vocês já fizeram alguma ação em estádios? Se sim, como foi a reação das pessoas?

Fizemos um encontro antes de Inter x Sport, após o lançamento da nova camiseta da Nike, que trouxe como modelo único feminino um super decote. Cada uma foi com sua camiseta preferida e demonstramos  assim que a torcida é múltipla e diversa. E essa diversidade deve estar presente  também nos produtos que são oferecidos aos torcedores. Nada contra o decotão, mas e se a gente  quiser uma camiseta igual a do campo?

Pros próximos jogos, vamos nos encontrar sempre duas horas antes das partidas. Estender um “trapo” que nos identifique e promover o debate com as coloradas que quiserem nos conhecer. Uma sociedade mais igualitária só será realmente possível quando nos empoderarmos e trazermos à tona nossas perspectivas e anseios. Participar da vida do clube como um todo:da arquibancada à gestão, afinal, somos todas multiplicadoras de um amor vermelho.

Abaixo, veja uma das ações do coletivo: