O ano de 2016 teve algumas mudanças importantes na regra do futebol.  A mais importante delas é possivelmente a permissão de uso do árbitro de vídeo. Esta foi a questão mais tratada sobre a mudança de regra, porque é a que deve ter o impacto maior e mais visível. Ao mesmo tempo, o processo para adotar deve demorar – e nós ainda falaremos disso por aqui. Outra mudança de regra passou um pouco mais batida, mas também tem um impacto muito grande, o maior de todas as mudanças feitas neste ano: o fim da tripla punição. Ao menos esta é a opinião de Howard Webb, ex-árbitro que dirigiu a final da Copa de 2010.

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Webb se aposentou da carreira como árbitro em 2014, depois de se tornar um dos principais nomes da arbitragem na década. Tornou-se diretor dos árbitros profissionais na Inglaterra. É ele o responsável pela escalação de árbitros na Premier League desde março de 2015.

Quando perguntado pelo Red Bulletin sobre quais as mudanças teriam o maior impacto no futebol, tirando a introdução do vídeo, Howard Webb não teve dúvida. “Sem dúvidas a mudança na Lei 12, em referência à falta que impede uma chance clara de gol. Nós tínhamos o problema da ‘tripla punição’ aqui. Se um jogador comete uma falta dentro da área quando ele estiver em direção ao gol, então o jogador será expulso, será marcado pênalti e o jogador que fez a falta será punido com a suspensão de ao menos um jogo. É assim desde a temporada 1990/91”, explicou o árbitro. “Mas agora o jogador receberá um cartão amarelo se ficar claro que ele está fazendo uma tentativa genuína de jogar. Isto é muito importante. A tripla punição foi diminuída a uma e meia, por assim dizer, um pênalti e um cartão amarelo”.

Esta é a regra que muitas vezes ouvimos como “último homem”. No popular, muitas vezes ouvimos que se este chamado “último homem” faz a falta, ele tem que ser expulso, algo que a regra não diz. A ideia quando se modificou esta regra, que ao longo do tempo ganhou o apelido de tripla punição, era completamente diferente do que ela se tornou.

“A IFAB [International Football Association Board, que decide sobre as regras do futebol] sentiu que a velha regra não foi realmente usada do modo que ela tinha a intenção quando foi criada. Ela foi criada depois de alguns incidentes importantes nos anos 1980, incluindo uma final da Copa da Inglaterra, quando Willie Young, do Arsenal, cinicamente tropeçou em Paul Allen [do West Ham] por trás pouco antes de entrar na área, quando ele estava para chutar. O árbitro podia apenas dar cartão a ele por isso e marcar falta”, explicou Webb.

“Estas situações, aliás, continuam sendo faltas para expulsão se elas acontecerem fora da área sob a nova regra. Então, se você está impedindo uma chance clara de gol fora da área, o resultado será o mesmo de antes. Você só escapará com um cartão amarelo dentro da área se o árbitro decidir que você genuinamente tentar jogar. Se você colocar a mão na bola você será expulso. Se você puxar o jogador e derrubá-lo, é cartão vermelho. Se você for violento, usando força excessiva, é vermelho. É um pouco mais complicado agora porque os árbitros precisam pensar mais e fazer um julgamento sobre a intenção. Mas, no geral, moralmente, foi trazida pelas razões certas”, explicou ainda o ex-árbitro.

E quem é que queria esta mudança? Segundo Webb, a entidade com mais influência na Fifa entre todas as seis confederações: a Europeia. “Meu entendimento é que havia diferentes opiniões em diferentes partes do mundo. Os Sul-Americanos não queriam uma mudança, aparentemente. Eles achavam que uma diminuição seria contraproducente. Mas a Uefa fez muita força por isso. Jogadores e técnicos que aconselharam a IFAB e também afirmaram que a tripla punição foi muito dura para colisões ou faltas acidentais”, analisou ainda o árbitro da final da Copa de 2010.

Webb ainda respondeu se os defensores não tentarão fazer a falta fazendo parecer que estava disputando a bola. Ele respondeu que sim, que os defensores devem tentar fazer isso, explorar o elemento de dúvida. Esta, porém, parece uma consequência normal da situação e um preço barato a se pagar para acabar com a tripla punição, que de fato parecia ser rigorosa demais em algumas situações.

A tal “regra do último homem” é um exemplo de como a mudança da regra feita lá em 1990/91 foi mal interpretada. Não era para ser isso. A ideia era punir jogadores que deliberadamente matavam a jogada diante de uma clara e manifesta situação de gol. Acabou virando, no imaginário popular, a regra que se o “último homem” fizer a falta, ele deve ser expulso. Por isso, a mudança é benéfica.

Assim como nem toda falta que gera um pênalti deve ser punida com cartão amarelo, nem toda falta que impede uma chance clara e manifesta de gol deve receber cartão vermelho. O pênalti e o cartão amarelo parecem uma punição suficiente. E ela, de fato, tem chance de ter um impacto muito grande.