A derrota do Bayern de Munique para o Paris Saint-Germain foi o golpe mais duro. Causou tanto impacto que Carlo Ancelotti acabou demitido. Mas a semana esteve longe de ser boa para o futebol alemão nas competições europeias. Em seis jogos, foram seis derrotas. E isso só amplia o retrospecto péssimo. Somando as fases preliminares da Liga dos Campeões e da Liga Europa, as equipes da Bundesliga perderam 12 das 16 partidas disputadas. Venceram apenas duas, contra Anderlecht e Domzale, que não são exatamente os adversários mais respeitáveis. Enquanto isso, o mau desempenho se reflete diretamente nos números da Uefa. A Alemanha acabou ultrapassada pela Itália (semanas atrás, já tinha sido deixada para trás pela Inglaterra) no coeficiente de países organizado pela entidade.

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Para sorte dos germânicos, a derrocada não causa mais impacto direto na tabela da Bundesliga. Com a reconfiguração da Liga dos Campeões, oferecendo quatro vagas a cada uma das quatro grandes ligas europeias, os clubes alemães estão a salvo. Mas não deixa de ser um sinal. É preciso ponderar que nesta temporada os coeficientes deixaram de contabilizar os números de 2012/13, quando a Alemanha teve um ótimo desempenho, com dois clubes na decisão da Champions. De qualquer forma, a explicação vai além.

Os números da Bundesliga ao longo das últimas temporadas, basicamente, dependem do Bayern de Munique e do Borussia Dortmund. São os dois clubes que alavancaram os pontos, por mais que os aurinegros tenham se ausentado da Champions em uma ocasião. No mais, há auxílios esporádicos de equipes como o Bayer Leverkusen e Wolfsburg. A classificação aos mata-matas da Liga dos Campeões até acontece com certa frequência, mesmo aos coadjuvantes, que não passam disso. Problema maior fica para o desempenho na Liga Europa, que está muito abaixo do esperado. Não há um representante do país sequer nas semifinais desde 2009/10, quando o Hamburgo conseguiu a proeza. Depois disso, no máximo, os germânicos foram quadrifinalistas – e só cinco vezes, em sete temporadas.

Pode-se até argumentar pontualmente sobre as derrotas desta semana. O Bayern, de fato, decepcionou – algo escancarado pela decisão da diretoria. O Borussia Dortmund não conseguiu fazer frente ao Real Madrid. Novato no exterior, o RB Leipzig não aguentou a pressão do Besiktas. O Colônia ampliou sua péssima fase perdendo em casa para o Estrela Vermelha. O Hoffenheim não foi competitivo suficiente contra o Ludogorets, tropeçando de novo. O Hertha Berlim acabou superado pelo surpreendente Östersunds na Suécia. Caso a caso, é possível achar desculpas? Sim. Só não dá para desculpar uma sequência tão ruim dos germânicos.

Há tempo para se recuperar. Mas, destes, apenas o Bayern de Munique tem um pouco mais de certeza que irá cumprir seu objetivo de classificação. O Borussia Dortmund e o RB Leipzig veem o tempo fechar, em grupos equilibrados na Champions. E, na Liga Europa, o Hoffenheim é aquele que pode ter um pouco mais de reação, considerando a qualidade de seu time, apesar das duas derrotas iniciais e dos desafios da chave. Mesmo assim, Julian Nagelsmann conta com um elenco sem profundidade tanta para se manter competitivo no torneio continental e na Bundesliga. A prioridade, neste caso, é um tanto quanto óbvia.

A Alemanha ainda conta com uma liga de ótimo nível técnico. Ok, eu sei que ninguém conseguiu competir com o Bayern nos últimos anos. Entretanto, a Bundesliga combina equilíbrio entre boa parte dos times e partidas quase sempre bem jogadas, independentemente da colocação na tabela. O problema é quando isso não reverte necessariamente em competitividade nas copas continentais. E a questão não é nem comparar com as equipes das outras grandes ligas. Quando Östersunds, Estrela Vermelha e Ludogorets se tornam algozes, há algo muito errado. Que não necessariamente tem a ver com investimento em contratações – o Everton que o diga.

Num episódio desses, logo surgem os primeiros cavaleiros do apocalipse. Longe do céu, mas também nem tanto ao inferno. A Alemanha possui um modelo de futebol louvável, especialmente pela maneira como costuma respeitar os seus torcedores e oferecer preços de ingressos acessíveis. Além do mais, a maneira como os clubes do país trabalham as suas categorias de base, mantendo um ritmo constante de formação de talentos, também merece elogios. Mas isso não quer dizer que não há nada para se repensar. Talvez, o modelo de negócio. É uma demanda antiga, sobre a própria capacidade dos times em trabalharem os seus recursos financeiros e atraírem talentos no mercado. Dentro da maior economia da Europa, observar este cenário é natural, especialmente pela maneira como o Bayern aproveita suas possibilidades comerciais. Isso esbarra, entretanto, em um padrão de gestão que privilegia a decisão democrática dos sócios e os interesses locais – ainda que isso, de tempos em tempos, venha sendo quebrado.

Qual a melhor decisão? Está aí a resposta do bilhão. Há clubes que reclamam da falta de abertura comercial oferecida pela liga, enquanto outros e a maioria absoluta das torcidas questiona justamente a excessiva comercialização. O consenso para mudanças mais incisivas ainda está distante. E o mau momento nas copas europeias talvez sirva justamente para acelerar as discussões. A queda do coeficiente é um sinal mais do que concreto. Que, por sorte, não custará um lugar na Liga dos Campeões.