O Brasileirão acabou em uma escuridão maior do que a 38ª rodada poderia indicar. Tudo bem que o título já era do Cruzeiro faz tempo, mas, ainda assim, as definições das últimas vagas à Libertadores e dos últimos clubes rebaixados trazia emoção. No entanto, a violência vista em Joinville, tirou qualquer empolgação – por mais que o jogo tenha sido retomado, com comemoração e ênfase que contrastavam com a tragédia que acabara de ocorrer. Aos 17 minutos do primeiro tempo, o jogo parava na Arena Joinville e também acabava com a rodada.

O momento é mais de dúvidas do que de certezas. O caso urge atitudes duras não só contra os responsáveis pela briga, mas também de prevenção. Punir os culpados é tão importante quanto evitar que outras cenas dessas se repitam dentro dos estádios. As cobranças precisam vir de todas as partes. Ainda que o histórico brasileiro, depois de tantos casos parecidos, não seja nada animador.

É preciso ir além das soluções paliativas. Das punições que prejudiquem a qualquer torcedor que só foi ao estádio para o intuito que deveria ser o comum, de torcer. Do discurso genérico, já adotado por tantas autoridades nas últimas horas, que não faz nada além de rodear em torno da questão principal, inatingível diante desse tipo de atitude sem rumo – e, sobretudo, sem eficácia. O debate, ao menos, está colocado e precisa ajudar a mudar uma situação que incomoda a todos, há tanto tempo.

Ah, e também houve rodada de futebol. Abaixo, os destaques do que aconteceu dentro de campo, bem menos importantes diante de tudo o que rolou do lado de fora.

O Fluminense terá que buscar a volta à Série A no campo
Wagner lamenta resultado final do Brasileiro (Foto: Uol)

Wagner lamenta resultado final do Brasileiro (Foto: Uol)

Em uma hecatombe que parecia desenhada, o Fluminense não se salvou nem com a vitória sobre o Bahia. Pela primeira vez na história do Brasileirão, o atual campeão nacional é rebaixado. A imagem de Fred chorando acabará marcando a queda, mas a desorganização na escolha do comandante e os problemas na reestruturação do elenco também deveriam ser lembrados sempre. E, a partir de agora, os tricolores também terão que lidar com várias interrogações que se colocam para o próximo ano: quem será o técnico, como ficará a situação com a Unimed e qual a chance dos protagonistas permanecerem na barca? Pela tradição e força, o Flu provavelmente pagará a Série B já em 2014. Ao que tudo indica, com um contracheque bem mais enxuto.

A coroação da campanha do Atlético Paranaense

Deixando de lado tudo o que rolou fora de campo, o Atlético Paranaense fechou a campanha notável no retorno à Série A. De candidato ao rebaixamento, o Furacão mostrou ter mais gás que a maioria dos concorrentes a partir da 16ª rodada, quando não saiu mais do G-4. A goleada sobre o Vasco ficou até mesmo acima do esperado para um time consciente de suas limitações e que, por isso mesmo, muitas vezes jogou para fazer o resultado básico. Ederson, talvez o grande achado dos rubro-negros, também se destacou na despedida com os três gols anotados, confirmando a artilharia isolada da competição.

Do outro lado, a confirmação dos erros excessivos vascaínos

Em compensação, o Vasco não conseguiu reverter a condição de forte candidato ao rebaixamento, indicada desde o final do ano passado. Uma equipe limitada, que se perdeu entre problemas financeiros e de gestão de elenco, com três treinadores ao longo da trajetória. Dos ‘grandes’, é o clube que volta à Série B em menor intervalo, cinco anos após o acesso. E mais triste ainda foi notar a atitude dos dirigentes diante da tragédia em Joinville, que parecia interessada no adiamento do jogo não apenas pelo estado de saúde das vítimas.

Coritiba, o simbolismo do alívio pela permanência na elite
Jogadores do Coritiba comemoram a permanência na Série A (Foto: Divulgação)

Jogadores do Coritiba comemoram a permanência na Série A (Foto: Divulgação)

De todos os times ameaçados pelo rebaixamento, quem mais comemorou foi o Coritiba. Bastava um tento do São Paulo para que os alviverdes fossem à Série B. Mas o gol de Luccas Claro, na pouco movimentada vitória por 1 a 0, foi o suficiente para assegurar a permanência. Depois disso, as cenas que se seguiram em Itu foram de um alívio enorme aos jogadores, que extravasaram em forma de lágrimas e euforia. O tamanho da celebração, aliás, ajuda a dimensionar como o rebaixamento é superdimensionado no Brasil em relação a outros países. Um conceito relativamente novo para a liga, existente há 25 anos, e ainda pintado como ‘inferno’ por muitos – algo que não é bem assim. Além disso, aquela história de ‘time grande não cai’ sempre pesa em um país em que nove em dez clubes se sentem grandes. Seja Corinthians, Grêmio, Coritiba ou Sport, a desgraça quase sempre é colocada no mesmo patamar, ainda que as diferenças de nível entre os clubes sejam evidentes.

A melancólica despedida de Tite

A torcida do Corinthians tem vários motivos para ser grata a Tite. Afinal, foi sob o comando do gaúcho que os alvinegros romperam os limites continentais, o treinador com mais títulos na história do clube. Todavia, os corintianos têm o direito de ficar na bronca na despedida do técnico. O tropeço da equipe evitou que o Náutico registrasse a pior campanha da história dos pontos corridos, encerrando uma sequência de 12 derrotas consecutivas do Timbu. Pior, expôs ainda mais as deficiências do clube do Parque São Jorge na Serie A, que passou em branco em 19 partidas e só teve mais vitórias que os dois últimos colocados na tabela. Diante de um desempenho tão decepcionante, com tamanho investimento, a frustração com Tite era inevitável, por mais que o respeito fosse grande.

O Galo (e Ronaldinho) encheram os atleticanos de esperanças

Em um campeonato de nível questionável de boa parte dos times, o Atlético Mineiro fez uma grande campanha. Não levou o torneio com a barriga como muitos campeões da Libertadores fazem, planejando uma preparação competente para o Mundial de Clubes. Acabaram em uma satisfatória oitava colocação, selada com a recuperação contra o Vitória no Independência. Um jogo que serviu, sobretudo, para mostrar que Ronaldinho está pronto para brilhar no Marrocos. Depois de dois meses e meio afastado de lesão, o camisa 10 retornou com dois gols, muitos passes e boas jogadas. Não à toa, a despedida dos alvinegros aos jogadores no aeroporto em Minas Gerais foi massiva.

O esforço do Botafogo – que pode não valer em nada
Seedorf e Oswaldo se abraçam no Maracanã (Foto: Jorge Rodrigues)

Seedorf e Oswaldo se abraçam no Maracanã (Foto: Jorge Rodrigues)

Depois de tanto derrapar, o Botafogo recuperou suas forças. E, com uma vitória contundente sobre o Criciúma, recuperou seu lugar no G-4 e a vaga na Libertadores. O resultado encadeou uma grande festa no Maracanã, sobretudo de Oswaldo de Oliveira e Clarence Seedorf, os protagonistas da boa campanha dos alvinegros. Mesmo assim, não dá para comemorar muito, já que o título da Ponte Preta na Copa Sul-Americana tiraria os botafoguenses da competição continental. Todo cuidado é pouco, ainda que os cariocas tenham motivos de sobra para se alegrar.

É isso mesmo que os santistas querem?

O Santos se despediu do Brasileirão com uma de suas atuações mais contundentes. Vitória por 3 a 0 sobre o Goiás, que lutava pela Libertadores, dentro do Serra Dourada. Os alvinegros acabaram com o sétimo lugar, uma posição até boa em um ano no qual Neymar foi embora e o elenco não era lá essas coisas. Bom trabalho de Claudinei Oliveira, que não continuará no cargo para o próximo ano. Oswaldo de Oliveira surge como uma boa opção, mas não foi tão inteligente assim encerrar um trabalho elogiável só pela falta de nome do seu comandante.

A Supercopa do Brasil teve seu protótipo
A troca de faixas entre Flamengo e Cruzeiro (Foto: Jorge Rodrigues)

A troca de faixas entre Flamengo e Cruzeiro (Foto: Jorge Rodrigues)

Uma das ideias que pintaram nos últimos tempos – e que incharia um pouco mais o calendário brasileiro – é o da Supercopa do Brasil. Uma iniciativa que tem sua validade, especialmente quando pensa em dar algum uso aos elefantes brancos que ficarão da Copa de 2014. E, por uma coincidência da tabela, uma edição informal foi realizada no Maracanã. Flamengo e Cruzeiro trocaram faixas e exibiram seus troféus, ainda que poucos campeões tenham entrado em campo. E o glamour da ocasião também não se refletiu em campo, com o razoável empate por 1 a 1. O destaque ficou com o goleiro César, herói do Flamengo no título da Copa São Paulo de 2011, que fez sua estreia entre os profissionais e fechou o gol.

D’Alessandro e as vaias da torcida colorada

O Internacional afastou a pequena chance de rebaixamento que tinha, mas de maneira pouco feliz para sua torcida. Empate fraco contra uma Ponte Preta rebaixada e repleta de reservas. Era natural que as vaias sobrassem nas arquibancadas. Mas não contentaram Andrés D’Alessandro, de longe o melhor do time na competição, que tem chances de deixar Porto Alegre. Após a partida, o argentino reclamou da postura da torcida, dizendo que o papel dela é torcer. Ele tem sua parcela de razão. No entanto, quando o campeonato já chegou ao fim e não há mais o que se fazer, o caminho também está aberto para exigir uma mudança de postura – e algo que não se limita apenas ao que aconteceu dentro de campo.