As perspectivas sobre a Rússia antes da Copa do Mundo eram péssimas. Para alguns, candidata a pior anfitriã da história dos Mundiais, incapaz de passar por um grupo sem grandes bichos-papões. Não era só um despeito barato, mas sim falta de sinais que comprovassem a força da equipe de Stanislav Cherchesov. Não tinha jogadores se destacando nas grandes ligas, não vinha bem nos amistosos, não impressionou na Copa das Confederações. Possuiria ao menos três jogos para mudar as sensações. E, com cinco partidas, despede-se com a dignidade que ninguém previa, honrando suas condições de dona da casa, eliminando um dos favoritos ao título e caindo em pé nas quartas de final. Foi uma participação para se orgulhar e para marcar o povo que viveu a Copa de perto. Com uma qualidade, aliás, para render além desses 32 dias.

A goleada contra a Arábia Saudita, um time extremamente frágil, poderia ser um ponto fora da curva. De qualquer maneira, não se negava certa dose de encantamento com os golaços anotados nos 5 a 0. Depois, a confirmação dos predicados contra o Egito, num início de segundo tempo arrasador. E que a derrota para o Uruguai tenha retomado as interrogações, acabou sendo um jogo circunstancial, tanto pela expulsão no início quanto pela ausência de alguns titulares importantes. Descanso necessário para a batalha desgastante contra a Espanha, de final feliz nos pênaltis. Para que, neste sábado, os russos flertassem com a classificação em vários momentos. A Croácia teve o controle da posse de bola, mas não do jogo, principalmente físico e emocional. Na prorrogação, a nova virada quase aconteceu. Já nos pênaltis, os detalhes não podem fazer os anfitriões abaixarem a cabeça.

O protagonista desta campanha, acima de todos, é Stanislav Cherchesov. O treinador era um sério candidato a professor pardal da Copa, criticado por suas decisões e por suas escolhas táticas. O time apresentou problemas ao longo de toda a preparação e não encontrava soluções. Algo bem diferente do que se viu no Mundial. Cherchesov soube adaptar-se às ocasiões e a mudar os seus sistemas táticos conforme os adversários. Ainda assim, as virtudes do time se evidenciavam em todas as aparições: a aposta nas bolas longas, a velocidade nas transições, o trabalho de pivô, a infiltração dos meias, a marcação agressiva no campo de ataque, a compactação sem a bola. Assim, a Rússia superou os adversários mais fáceis e complicou os difíceis. Natural se questionar uma decisão ou outra do comandante, como ficou evidente nas substituições contra os croatas. Mas há mais méritos que defeitos.

Para que o coletivo funcionasse tão bem, a seleção russa dependeu da entrega de seus jogadores. Saltou aos olhos (e até levantou suspeitas, afinal) a maneira como a equipe correu durante o Mundial. A energia era imensa para fazer um estilo de jogo tão físico se impor. E assim os russos conquistaram os seus principais resultados, aproveitando principalmente o gás de seus atletas para ganhar a bola no campo de ataque. Não foi um time exatamente ofensivo, mas que forçou as oportunidades e soube aproveitá-las. Ao mesmo tempo em que não concedeu grandes espaços na defesa, exceção feita ao jogo contra o Uruguai, também demonstrou uma precisão considerável no ataque.

Se o jogo contra a Espanha, o maior resultado da Rússia independente na história das Copas, deixou a noção de uma equipe entrincheirada e travando um adversário superior tecnicamente, contra a Croácia os anfitriões não se esconderam. Sem o controle do tempo, comandaram os espaços. O time de Stanislav Cherchesov pressionou a saída de bola e, no momento em que os adversários avançavam ao campo de ataque, montava a barreira diante de sua área. Mais do que isso, também brigou pelo protagonismo, atacando com vigor em certos momentos, botando os oponentes contra a parede. Os minutos em que isso ficou mais latente vieram já no segundo tempo da prorrogação, quando o fôlego e o ânimo dos donos da casa era elevado. Mário Fernandes anotou o gol de empate e não seria surpresa se o terceiro viesse. Detalhes punidos por dois desleixos na marca da cal.

Individualmente, muitos jogadores desta Rússia merecem aplausos. Igor Akinfeev, o capitão e referência, não trabalhou tanto assim no Mundial. Contudo, fez boas defesas principalmente contra a Espanha, antes de ser premiado pela tarde heroica que muitos aguardavam em sua carreira. Na lateral direita, Mário Fernandes foi outro de participação imensa, digno candidato aos melhores da posição. Sólido na defesa, contribuiu também ao ataque, seja com suas subidas pelo flanco ou mesmo se aventurando na área. Já no miolo de zaga, quem sobrou foi Ilya Kutepov. Em uma Copa de ótimos zagueiros, o russo se coloca entre os principais, dono de presença física, mas também de bom posicionamento e combatividade. Seus passes longos eram importantes para iniciar os ataques e renderam até uma assistência.

No meio-campo, trabalho silencioso e impressionante de Roman Zobnin. Essa energia toda demonstrada pela Rússia dependeu do tanto que o camisa 11 preencheu a faixa central, seja para tentar roubar a bola ou para fazer o jogo fluir. É jogador para envergar a camisa da seleção por muito tempo. Mais à frente, a qualidade técnica de Aleksandr Golovin. O meia foi um dos mais importantes russos da Copa, por ser regular sempre. Não teve lampejos em todas as partidas, como na estreia, em que marcou um golaço de falta e deu duas assistências. De qualquer forma, se manteve como uma válvula de escape do time e o mais capaz a criar algo diferente nos momentos de sufoco, se desdobrando também na contenção. Contra a Croácia, aliás, seu melhor foi sem a bola.

Mais à frente, duas gratas surpresas. Denis Cheryshev era um jogador um tanto quanto menosprezado pela seleção, até por nunca mostrar a que veio. Na Copa do Mundo, apresentou o seu melhor, como talvez nunca mais repita na carreira. A chance contra a Arábia Saudita veio de repente e ele correspondeu com dois golaços. Marcou de novo contra o Egito. Acertou um chute fantástico contra a Croácia. Chamou a responsabilidade, partiu para cima, arriscou bastante. Inclusive, deveria ter mais minutos do que os que recebeu no torneio. Já na frente, Artem Dzyuba foi convocado por conta de lesões e de sua mudança de clube no último semestre. Botou no banco o decepcionante (para não dizer ridículo) Fyodor Smolov e não saiu mais. É mais que um grandalhão para disputar a bola no alto e ganhar no corpo. Uniu inteligência, bom trato da bola, visão de jogo. O setor ofensivo dos russos funcionou muito graças a ele. E há ainda jogadores que não brilharam tanto, mas merecem menção, como Aleksandr Samedov, Daler Kuzyaev e Yuri Gazinskiy.

Indo além do que aconteceu na Copa, a impressão é a de que muitos desses jogadores têm bola para jogar em clubes maiores. Inclusive, para voltar a colocar o futebol russo em evidência nos grandes centros. Alguns desses jogadores são opções interessantes no mercado, embora seja difícil competir com os salários e as comodidades que eles encontram na própria Rússia. De qualquer maneira, merecem ser observados mais de perto, inclusive alguns que não ganharam tantos minutos em campo, como o meio-campista Aleksei Miranchuk. A idade faz valer o investimento: Mário Fernandes e Cheryshev têm 27 anos; Zobnin e Kutepov, 24; Golovin, 22.

A juventude desta espinha dorsal, aliás, permite imaginar que a Rússia pode voltar com força em outras competições internacionais, principalmente a Euro 2020. Há um time em desenvolvimento e que descobriu o caminho para seguir em frente. Obviamente, há peças a se substituir e posições a se fortalecer. Mas existe capacidade ao menos para brigar pelos mata-matas, passando longe dos resultados amargos das campanhas recentes, na melancolia da eliminação na fase de grupos. Golovin, Zobnin e Kutepov talvez sejam rostos para conduzir esta nova seleção.

Não se nega que existe uma conjunção de fatores que explica o sucesso da Rússia na Copa do Mundo, a começar pela motivação de jogar em casa e pelo impulso que o time deu neste momento. Mas, por aquilo que se viu nestes cinco jogos, a impressão agora é bastante diferente da expectativa inicial. É a de que será possível manter este trabalho, se não para repetir um resultado tão surpreendente, ao menos para manter a dignidade. Com tal capacidade coletiva, adaptação aos momentos e bons valores individuais, dá para tirar um pouco mais. A seleção russa se despede do seu Mundial como uma grata e bem-vinda surpresa, especialmente por superar todos os prognósticos.