A sorte continua ao lado do Paris Saint Germain na Liga dos Campeões. Após escapar de adversários complicados na fase de grupos e enfrentar rivais que ficaram bem longe de incomodá-lo, o time da capital mais uma vez teve seu caminho facilitado na competição. Nas oitavas de final, os parisienses encaram o Bayer Leverkusen. Bem melhor do que as possibilidades que se desenhavam para o PSG.

Depois de uma fase de grupos muito tranquila, o clube corria grande risco de encontrar um adversário de peso logo no começo do mata-mata. Enfrentar Arsenal, Manchester City ou Milan nas oitavas estava completamente fora dos planos parisienses. Claro que quem deseja ser campeão não deve escolher adversário e que cedo ou tarde pegará algum peixe grande, mas convém esperar o momento mais adequado para degustar o prato principal.

Paris Saint Germain e Bayer Leverkusen nunca se enfrentaram em uma competição continental. Os franceses contam com um retrospecto animador contra equipes alemãs em jogos por torneios europeus, no entanto: em onze partidas, o time da capital ganhou seis, empatou duas e sofreu apenas três derrotas. Os números, óbvio, não garantem a classificação do PSG às quartas, mas sem dúvida trazem certo conforto.

O PSG só não pode achar que o Bayer Leverkusen é uma galinha morta, com o mesmo nível dos rivais que encarou na fase de grupos, ou cair na falácia jocosa das piadinhas com os poucos títulos do “Neverkusen”. Apesar de ter sucumbido de forma retumbante por duas vezes diante do Manchester United (derrotas por 4 a 2 no Old Trafford e um impiedoso 5 a 0 no BayArena), a equipe treinada por Sami Hyppiä tem crédito na Bundesliga.

O Bayer Leverkusen ocupa a vice-liderança, tem a segunda defesa menos vazada, e demonstrou sua força ao bater o Borussia Dortmund por 1 a 0 no Signal Iduna Park. Ao lado do Freiburg, o time também conseguiu uma proeza rara: não foi derrotado pelo Bayern (empate por 1 a 1).  Isso sem levar em consideração as boas atuações de Stefan Kiessling, artilheiro da última Bundesliga e autor de nove gols nesta temporada no campeonato.

Hyppiä, mesmo com pouca experiência no cargo de treinador, revelou ser um técnico disciplinador e um bom estrategista. O finlandês montou o Bayer em um 4-3-3 ofensivo, com um estilo de jogo rápido pelas pontas. A defesa demonstra solidez com a regularidade apresentada pelo goleiro Bernd Leno e o miolo de zaga formado por Emir Spahic e Ömer Toprak. O ponto fraco está na lateral esquerda, tanto que o clube deve procurar um reforço na janela de transferências de inverno. No meio-campo, Rolfes, Bender e Castro se destacam pela polivalência, mas também pela imprevisibilidade.

Na Liga Europa, o Lyon também escapou de adversários complicados (sobretudo vindos da Liga dos Campeões), mas não se livrou de um duelo chato. O Chornomorets Odessa surpreendeu a ficar à frente do PSV na fase de grupos e tem condições de aprontar novamente, mesmo sendo o time ucraniano mais frágil da competição. Caso supere a longa viagem e passe pelo rival, o OL deve encarar, aí sim, um rival difícil caso o Shakhtar Donetsk confirme seu favoritismo diante do Viktoria Plzen.

Reis do camarote

A tabela de classificação da Ligue 1 apresenta uma peculiaridade no pódio. Nunca os três primeiros colocados apresentaram um desempenho tão avassalador em relação aos seus concorrentes a esta altura do torneio. Já se imaginava que Paris Saint-Germain e Monaco disputariam um campeonato à parte por conta de seus pesados investimentos, mas o Lille se juntou à dupla para formar uma trinca de respeito.

O LOSC, terceiro colocado, vê o Bordeaux, em quarto, de binóculos. A diferença entre eles é de nove pontos e nada indica que esta distância possa diminuir a médio prazo. Se o parâmetro for o líder PSG, este abismo aumenta para 13 pontos e já dá um panorama de como a disputa pelo título se transformou em algo bastante restrito em um intervalo de tempo tão curo. Basta lembrar que ainda falta uma rodada para o término do primeiro turno e a briga pelas posições mais nobres do topo da tabela já fechou as portas para 17 clubes.

Com praticamente metade da Ligue 1 já disputada, os números surpreendem. Juntos, PSG, Monaco e Lille somaram 123 pontos (média de 41), com apenas cinco derrotas – no campeonato, apenas Bordeaux e Reims perderam menos (quatro vezes). Se somarmos os gols sofridos pelo trio, chegamos a outro dado interessante: são 28 tentos, apenas três a mais do que o Lyon, na luta para sair do meio da tabela.

A disparidade entre os três primeiros colocado e os demais concorrentes provoca um desânimo em haver mudanças na disputa por uma vaga na próxima Liga dos Campeões. Pior: o tão propagado equilíbrio visto na Ligue 1 nos últimos anos está sob séria ameaça de extinção. A democracia vista após a queda do Lyon está debilitada, prestes a novamente dar lugar a uma monarquia absolutista.

Mais uma vez, os números se mostram cruéis. Desde o momento no qual uma vitória passou a valer três pontos, 94% dos clubes que somaram pelo menos 37 pontos após os primeiros 18 jogos do campeonato terminaram no pódio. A exceção foi o Bordeaux, na temporada 2009/10, com uma queda brusca de rendimento na fase final. Ou seja, as esperanças de algum intruso participar desta festa VIP são praticamente nulas.

E nesta Ligue 1 da ostentação, o PSG tem seu free pass garantido. Esta é a terceira temporada seguida na qual os parisienses aparecem no pódio no meio da temporada. Entre outras palavras, desde quando passou para as mãos dos qatarianos. Coincidência? O time da capital já deixou claro que, com ele na área, sobram apenas duas vagas em disputa, cujos donos variam conforme a força econômica e o desgaste provocado pela divisão em duas frentes de batalha.

A Liga dos Campeões também se tornou uma espécie de carrasca para os clubes franceses menos preparados para encará-la. Até equipes mais tradicionais como Lyon e Olympique de Marselha sacrificaram suas temporadas na Ligue 1 para tentar ir longe na Champions, mas sem sucesso. Montpellier e Auxerre também foram vítimas deste canto da sereia da LC e esta ilusão comprometeu qualquer chance de reação no campeonato nacional. Quem tinha elenco ou não estava no torneio continental soube aproveitar muito bem a brecha.

Infelizmente, esta tendência de polarização comum nos demais campeonatos nacionais europeus parece, enfim, ter chegado com força à Ligue 1. Enquanto PSG e Monaco se blindam das influências do calendário com a montagem de fortes elencos e com dinheiro a perder de vista, os demais concorrentes lutam por migalhas por uma chance cada vez menor de figurar entre os melhores. A esperança dos milhões vindos com uma classificação para a Liga dos Campeões se esvai ao se confrontar a realidade, de sacrifício e oscilações. Ter o nome na lista se tornou tarefa das mais ingratas para quem está fora do mundo do champanhe com fogo.

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