Desde que o Mundial de Clubes voltou a ter representantes do país-sede, em 2007, os anfitriões costumam inspirar respeito. Os japoneses chegaram às semifinais em três de quatro tentativas – duas delas com clubes que também eram campeões continentais. Já os emiratenses traziam estrelas estrangeiras, embora nunca tenham registrado grande sucesso. Em 2013, no entanto, essa força é potencializada. Tradição, tarimba internacional e uma torcida inflamada impulsionam o Raja Casablanca como ameaça ao Atlético Mineiro na semifinal.

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A fase vivida pelos marroquinos nem é das melhores. Três vezes campeão nacional nas últimas cinco temporadas, os alviverdes vinham de um desempenho mediano em 2013/14. Ainda assim, fizeram sua parte ao eliminar o Auckland City e surpreenderam nas quartas de final, deixando para trás o Monterrey, tricampeão da Concachampions. A equipe treinada por Faouzi Benzarti, que foi contratado apenas cinco dias antes da estreia, possui algumas fragilidades evidentes. Porém, nenhum de seus rivais possui um ambiente tão favorável.

Além de não ter problemas de adaptação com o clima ou com o fuso horário, o Raja conta com a pressão de seus torcedores – são quatro grandes grupos de ultras dos Diabos Verdes. Nas duas primeiras rodadas do Mundial, as Águias levaram 35 mil pessoas ao estádio de Agadir: dois dos três maiores públicos de um anfitrião desde 2007 (excetuando confrontos com europeus e preliminares da final) e mais do que os 27 mil mobilizados para ver o Bayern de Munique. Tão importante quanto o tamanho, é a intensidade da torcida. Não à toa, o Raja é conhecido como Vox Populi – a voz do povo.

Um time das massas, motivado pelo nacionalismo
Père Jégo, lenda do Raja Casablanca

Père Jégo, lenda do Raja Casablanca

O Raja Casablanca é um dos times mais populares do Marrocos. E suas raízes estão diretamente ligadas às massas. O clube foi criado em 1949, em um momento no qual o nacionalismo marroquino e os anseios de independência da França eram maiores. A equipe atendia aos desejos daqueles que queriam levar a resistência local aos campos de futebol, representando a população. Entre seus fundadores, o chefe do sindicato de trabalhadores do país e um representante da união de advogados – que indicavam não apenas a diversidade, mas a força das lideranças.

Proibido de contar com um presidente marroquino, por imposição do poder central francês, o Raja contornou a lei ao nomear um argelino ao cargo. Nem por isso perdeu seu caráter nacionalista e acabou abrindo uma brecha na legislação seis meses depois. O próprio elenco era limitado apenas a jogadores nascidos no país, a fim de valorizar esse orgulho local.

A ascensão dos verdes foi imediata. Em dois anos, o time já fazia parte da primeira divisão do Campeonato Marroquino, de onde nunca foi rebaixado. A partir de 1955, com a independência da França, as Águias já figuravam como uma das forças do país.  E, em 1957, passaram a ser comandados por Père Jégo, técnico mais célebre da história do clube, famoso por incentivar um jogo ofensivo, de passes curtos e ímpeto ofensivo, inspirado em uma viagem que fez por vários países sul-americanos – tornando a equipe conhecida como ‘Raja Ifraja’, o Raja do espetáculo.

Apesar do futebol vistoso, o Raja não se firmou como um clube vencedor logo de cara. A grande decepção do clube aconteceu em 1959/60, quando terminou na liderança da liga ao lado de outras duas equipes e se recusou a disputar um triangular decisivo, considerando o direito à taça pelo saldo de gols superior. Diante disso, a torcida precisou esperar até 1974 pelo primeiro título, da Copa do Trono, e até 1988 para a então inédita conquista da liga.

A rivalidade com o Wydad

Morocco Soccer Club World Cup

Sem taças por tanto tempo, o que tornou o Raja Casablanca tão popular? O incentivo ao nacionalismo no período de independência e o jogo atrativo ajudaram. Porém, esse sucesso também é explicado por seu maior rival. O Wydad Casablanca se firmou como um dos maiores campeões nacionais desde o final da década de 1940. O surgimento de um adversário forte na capital econômica do Marrocos, então, formou um dos clássicos mais acirrados do norte da África.

Em comum, o Wydad também possui origens ligadas à resistência marroquina, criado para unir os muçulmanos na década de 1930. E também viveu grandes momentos sob a direção de Père Jégo, criador do departamento de futebol dos alvirrubros, que foi expulso do clube em 1952. Assim, o dérbi já nasceu acirrado em 1956, com a vingança do treinador graças à vitória dos Diabos Verdes. Todavia, nos últimos anos a rivalidade se desdobrou para violência crescente, com a morte de torcedores após brigas entre ultras.

Os três grandes momentos da história do Raja

De tanto ver o Wydad levantando taças, o Raja Casablanca só começou a ir à desforra no final da década de 1980. Era um período de ouro para o futebol marroquino, que alcançou três presenças em Copas do Mundo entre 1986 e 1998. Com alguns astros da seleção, como o ídolo Abdelmajid Dolmy, os alviverdes conquistaram o Campeonato Marroquino pela primeira vez em 1988 e, no ano seguinte, se sagraram vencedores da Liga dos Campeões da África.

Já o outro grande momento da história das Águias aconteceu na virada do século. O clube foi hexacampeão nacional entre 1996 e 2001, feito inédito no Marrocos. Além disso, faturou a Liga dos Campeões da África mais duas vezes, em 1997 e 1999 – esta última, garantindo o direito de disputar o Mundial de Clubes de 2000, no qual não venceu nenhuma partida, mas se honra do jogo duro feito contra o Real Madrid na derrota por 3 a 2.

Por fim, outro ponto alto da história vem justamente agora. Os três títulos nacionais desde 2009 colocaram o Raja como segundo maior campeão nacional (um atrás de Wydad e FAR Rabat) e coroaram a reestruturação empreendida pelo presidente Mohamed Boudrika, que tem ajudado a profissionalizar o clube. A campanha até a semifinal do Mundial de Clubes já é bastante satisfatória, mas a aparição na final soaria como um título. Se depender da torcida dos Diabos Verdes, não faltará esforço para que o milagre aconteça contra o Atlético.

Abaixo, os mosaicos feitos pela torcida do Raja contra Auckland e Monterrey. Um novo espetáculo deve acontecer nesta quarta: