A Argélia foi uma das seleções mais legais de se acompanhar na Copa do Mundo de 2014. Ninguém esperava muito das Raposas do Deserto. Entretanto, a equipe do norte da África superou todas as expectativas e, mais do que isso, empolgou muita gente – com uma ajuda também de sua animadíssima torcida. O estilo de jogo voraz valeu a classificação no Grupo H. Mais do que isso, criou extremas dificuldades à Alemanha, naquela que talvez tenha sido a melhor partida do Mundial. O Nationalelf se safou na prorrogação e certamente aprendeu muito com os riscos que sofreu contra os argelinos, amadurecendo no torneio rumo ao tetracampeonato mundial. Contudo, quando se traçava uma evolução dos alviverdes, os sonhos vieram por terra. A Argélia não estará na Copa de 2018.

No papel, a seleção argelina conta com um dos melhores elencos da África. Afinal, além de vários nomes estabelecidos no futebol europeu, as Raposas ainda viram a afirmação de Riyad Mahrez como um fenômeno no Leicester. O problema é que a diferença entre o papel e a realidade pode ser bastante ampla. Jogadores como Islam Slimani, Sofiane Feghouli, Saphir Taïder e Djamel Mesbah não atravessam ciclos tão favoráveis em seus clubes. Já Yacine Brahimi, talvez o mais pronto para ser a referência técnica da geração, não manteve sua ótima fase com o Porto. E isso tudo repercutiu diretamente na equipe nacional.

Depois de campanhas arrasadoras nas eliminatórias, a Argélia não mostrou a que veio na Copa Africana de Nações. Em 2015, embora tenha avançado no ‘grupo da morte’, acabou sucumbindo contra a Costa do Marfim nas quartas de final. Já em 2017, nem isso conseguiu. As atuações coletivamente apáticas complicaram a equipe, extremamente dependente dos lampejos de Mahrez. Acabaram eliminados ainda na fase de grupos, superados por Tunísia e Senegal, sem conquistar uma mísera vitória. Enquanto isso, a nau já começava a afundar nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018.

Mais uma vez, a Argélia não deu sorte no chaveamento. Mas não dá para limitar a eliminação somente a essa explicação. O empate contra Camarões em casa e a derrota para a Nigéria fora nas duas primeiras rodadas foram resultados ruins, mas não catastróficos. O problema é que a equipe se afogou na própria bagunça quando tinha a obrigação de vencer, contra Zâmbia, a rival (teoricamente, o que não se provou na prática) mais fraca do grupo. A derrota por 3 a 1 em Lusaka no último sábado encaminhou o desastre. Diante do aproveitamento quase perfeito dos nigerianos, não havia mais salvação, com a eliminação consumada. E a derrota em Constantine no reencontro com os Chipolopolo só evidenciou a desesperança das Raposas do Deserto.

Técnico responsável pela façanha em 2014, Vahid Halilhodžić não permaneceu no cargo. Desde então, outros quatro profissionais passaram pelo banco de reservas, sem conseguir manter suas bases e conquistar bons resultados: Christian Gourcuff, Milan Rajevac, Georges Leeskens e Lucas Alcaraz. Bombeiros de um incêndio que apenas se alastrou, com a complacência da federação e a falta de colaboração dos jogadores. Nesta Data Fifa, o episódio envolvendo Mahrez foi emblemático. O meia ganhou permissão para deixar a concentração na véspera do jogo decisivo contra Zâmbia para viajar à Europa e tentar forçar a sua transferência no último dia de janela. O negócio não aconteceu e tampouco o craque do time esteve em campo para evitar o desastre. Diz muito.

Vale ressaltar que a Argélia não é a única decepção do Grupo B das Eliminatórias. Camarões também ficou abaixo da crítica, especialmente após conquistar a Copa Africana de Nações. Os Leões Indomáveis complicaram seu caminho ao empatarem com a Zâmbia em casa, antes de serem atropelados pela Nigéria nos dois confrontos diretos. Contudo, o título da CAN soa mais como algo atípico, quando se olha para o atual time camaronês. Terão que ver o Mundial de casa, assim como os argelinos. Enquanto isso, só os zambianos têm chances de ameaçar os nigerianos, mas para isso terão que segurar as Super Águias em Uyo na próxima rodada.

À Argélia, resta lamentar o bonde da história passando, quando a geração poderia se marcar ainda mais. A maioria dos destaques já terá passado dos 30 anos no Mundial de 2022, o que freia um pouco as esperanças de mais uma grande campanha. O momento era agora. E mesmo que 2014 fique impregnado na memória por um longo tempo, é natural lamentar o potencial desperdiçado em meio a tantos problemas.