É mais difícil dimensionar a História quando ela acontece no presente. A queda do avião da Chapecoense provocou a letargia da incredulidade, diante de uma tragédia tão massiva. Tão dolorosa. E, por mais que o tempo ajude a cicatrizar feridas, a assimilação de tudo o que aconteceu é mais lenta. A vida correu num ritmo em que mal aguardou o luto. Nestes oito meses, a Chape já passou por muita coisa dentro de campo. Enquanto isso, a saudade de quem perdeu alguém querido demora bem mais a passar. O elo entre o presente que voa diante dos olhos e o passado que se enraíza no coração acaba sendo feito pelos sobreviventes. Tão imersos em todo o episódio, eles captam o vazio que prende e a vida nova que impulsiona. Um tempo que só eles sabem medir. E a hora chegou para Alan Ruschel. Em 7 de agosto, menos de um ano após ser resgatado dos escombros, ele voltará a campo. Enfrentará o Barcelona no Camp Nou, pelo Troféu Joan Gamper.

VEJA TAMBÉM: Os colombianos proporcionaram no Atanásio Girardot um dos maiores dias da história da humanidade

Durante os últimos meses, Alan se aproximou de milhares de brasileiros – assim como Neto, Follmann e Rafael Henzel. Transformou-se praticamente em um amigo, para o qual todos torceram, acompanhando etapa por etapa da recuperação. Cada nova notícia sobre o jogador gerava uma corrente positiva. Afinal, ele representa mais do que o milagre de ter saído vivo da queda do avião. É também um exemplo de superação e perseverança. De que, apesar de toda a dor, é possível surgir a esperança. A própria vida já seria motivo suficiente para celebração, mas a volta aos gramados representa além. Uma conquista imensurável.

Alan, que foi submetido a uma delicada cirurgia na coluna e saiu do hospital sem qualquer garantia de que poderia voltar a jogar, passou por uma preparação física intensa nos últimos meses. Na última quarta-feira, participou de seu primeiro jogo-treino desde então, contra o Ypiranga. O antigo lateral deve jogar mais à frente neste novo momento. “A coisa que eu mais amo e sei fazer é jogar futebol. Depois de tudo o que aconteceu, de toda essa tragédia, eu quero servir de exemplo para muita gente. Exemplo de superação, de força. De uma pessoa que busca o que quer, o seu objetivo”, declarou, depois da atividade.

E há um simbolismo maior sobre o retorno, não apenas por acontecer no Camp Nou, contra um dos melhores times do mundo. O Barcelona foi, segundo a própria diretoria da Chapecoense, o clube que mais estendeu a mão nos momentos difíceis. A participação de Alan Ruschel no amistoso, jogando no mítico estádio, também surge como uma forma de agradecimento. A solidariedade tem um poder imenso. Em um jogo que certamente repercutirá a diferentes partes do mundo, ele transmitirá uma mensagem maior.

É fundamental que não nos esqueçamos da vítimas. Sobretudo, dos familiares que sofrem as consequências, não bastasse o próprio luto. A reconstrução da Chapecoense como clube acaba sendo algo secundário, quando se pensa na luta maior encarada por cada uma dessas pessoas. E o apoio precisa ser permanente, não apenas limitado a efemérides. Neste sentido, o retorno de Alan Ruschel aos gramados é importante para humanizar novamente a história. Para exaltar aquele que se reergueu, mas também para não renegar os tantos que travam as suas batalhas cotidianas. O jogador é o laço entre dois lados do episódio que nem sempre estiveram próximos durante os últimos meses.