O que torna um jogador querido pelos torcedores? Alguns se valem dos títulos. Outros, do apenas do talento. Há quem se engrandeça pela fidelidade àqueles apaixonados ou mesmo pela forma como os representa dentro de campo. Unir mais de uma virtude dessas faz surgir um grande ídolo. Todas elas, a encarnação do próprio time. E é assim que Mohamed Aboutrika deixa o futebol, como personificação do Al Ahly, um clube de massas. O símbolo maior do Egito em um momento tão importante para a história do país, não apenas no futebol.

A despedida do craque não aconteceu da maneira mais gloriosa. A intenção inicial do veterano era disputar a Copa do Mundo de 2014. A eliminação da seleção egípcia doeu e encurtou o caminho a ser percorrido pelo meia. Seu ato final seria em outra competição internacional, o Mundial de Clubes. E a lesão na eliminação contra o Guangzhou Evergrande não permitiu nem mesmo que seus minutos finais em campo fossem previstos pela torcida. Aos 35 anos, Aboutrika voltou do Marrocos com a decisão tomada. Neste final de semana, apenas oficializou a posição à diretoria, para que seu contrato seja encerrado, quem sabe para prepararem um adeus digno.

Aboutrika é o maior campeão da história em solo africano. Foi protagonista em dois títulos da Copa Africana de Nações com a seleção. Liderou o Al Ahly em cinco conquistas da Liga dos Campeões da África, sete do Campeonato Egípcio. Sempre com uma elegância ímpar. A maestria, a visão de jogo, o poder de definição. Se não jogou em uma grande liga da Europa, foi porque não quis. Tinha talento de sobra para isso. Em tempos de jogadores tratados como mercadorias, talvez tenha sido o melhor de todos a nunca ter passado por times europeus ou sul-americanos, como certa vez analisou o jornalista italiano Gabriele Marcotti. E não é o fato de ter se mantido afastado dos grandes centros que diminui o camisa 22.

Afinal, Aboutrika foi bem mais do que um atleta. A formação em filosofia na Universidade do Cairo é só uma prova material da inteligência que não se limitava as suas ações em campo. Fora dele, se posicionava politicamente com frequência. E quase sempre ao lado da torcida. O grande exemplo dessa postura aconteceu naquela que foi a maior tragédia da carreira do meia. Presenciou o massacre de Port Said, a morte de 72 torcedores do Al Ahly, um deles em seus braços. Pensou em desistir do futebol. Não o fez para recuperar o orgulho do clube, com a conquista da Liga dos Campeões da África. Ainda assim, queria justiça pelos mortos, se recusou a disputar a Supercopa do Egito de 2012, não cumprimentou o Ministro dos Esportes após a conquista continental de 2013.

A postura combativa de Aboutrika serve de exemplo para a realidade do povo egípcio. Em meio à turbulência política que vive o país, com um golpe militar recente, o craque é um emblema de resistência. Já no futebol, deixa uma figura ainda maior do que fez em campo. Ver jogadores tão comprometidos quanto Aboutrika é raro. Não surpreende que ele seja venerado pelos torcedores do Al Ahly. E admirado por tantos outros, em um futebol que é cada vez mais imagem e cada vez menos ideia.

No vídeo, o último ato de Aboutrika em solo egípcio: sua substituição no jogo de volta da decisão da Liga dos Campeões da África deste ano, na qual fez um dos gols