Didier Deschamps manteve sua coerência na hora de elaborar sua lista dos 23 convocados da seleção francesa para a Copa do Mundo. O treinador seguiu sua linha de conduta e as ausências de nomes como Éric Abidal e Samir Nasri não comprometem, de forma alguma, a qualidade do elenco. Alguns podem questionar se o meia não seria a solução para o principal problema da equipe – a falta da criatividade na armação -, mas o jogador do Manchester City mostrou ser uma incógnita completa tanto por seu rendimento de muitas oscilações como pelo comportamento instável.

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Praticamente todo o grupo chamado para o amistoso contra a Holanda faz parte da lista final dos 23. Deschamps fechou seu grupo a partir da confiança adquirida nas partidas decisivas contra a Ucrânia pela repescagem europeia. Além do sucesso na obtenção pela vaga, valeu muito o espírito demonstrado pelo time. O comprometimento e o poder de reação exibidos pelos Bleus contrastaram com o egoísmo e a total desarmonia existentes na Copa-2010, ou o ar blasé da Eurocopa-12.

Pelo perfil dos selecionados, dá para dizer que Deschamps pensa em um time titular calcado no 4-3-3, mas aberto a possibilidades de mudança de esquema devido à polivalência de nomes como Sissoko e Rémy. E o treinador deixou claro que não se prendeu à atual forma dos jogadores para montar sua relação final. Por isso, Rémy aparece entre os 23, e não Lacazette, ou então Mavuba ganhou uma vaga, enquanto Gonalons ficou fora.

As condições de três jogadores preocupam, já que passam por problemas físicos. Grenier passa pela situação mais delicada. Ele acabou de se livrar de uma pubalgia, um problema não tão simples assim de se resolver por completo. Já Rémy passou por uma série de lesões leves, mas que lhe custaram um precioso tempo de jogo na reta final da Premier League. As condições do joelho direito de Varane também levantam dúvidas.

Deschamps vê estes casos sem dar tanta importância. Grenier e Rémy não são titulares, e um bom trabalho físico deve deixá-los tinindo para o Mundial. Varane, por sua vez, fez questão de esclarecer quaisquer dúvidas sobre suas condições físicas, que lhe renderam até piadinhas de mau gosto. Mesmo com o joelho operado, o zagueiro afirmou que está tudo bem e que não há motivos para temer.

A lista de Deschamps também apresenta outra característica marcante: a juventude. O grupo tem média de idade de 26,65 anos, a menor desde a Copa-98, de 26,54 anos – levando-se em consideração as seleções convocadas para a disputa das fases finais de grandes torneios. DD convocou oito atletas com menos de 25 anos. Laurent Blanc, seu antecessor, chamou apenas quatro nomes com este perfil para a Euro-12. Um sinal claro do desejo de renovação, de olho na Euro-16.

Ausência justificada

O grande ponto da lista divulgada por Deschamps foi, sem dúvida, a ausência de Nasri. O meia teve um excelente fim de temporada, coroado com a conquista do título inglês, mas passou longe até da lista suplementar com sete nomes. Para uma seleção cuja principal dificuldade está em seu setor de criação, deixá-lo fora parece uma heresia. Não é. Deschamps fez uma escolha consciente, e os ganhos em campo seriam muito pequenos se comparados com o estrago que Nasri faria fora de campo.

DD exaltou o momento atual de Nasri, reconhecendo a importância de seu trabalho e o peso dele para o Manchester City se sagrar campeão inglês. Só que, por trás do jogador com visão apurada e bom toque de bola há um gênio difícil de ser domado. Deschamps sabe como ninguém como é duro lidar com um atleta que odeia ficar no banco de reservas. Claro, todo atleta quer entrar em campo e jogar o seu melhor, mas o meia leva as exclusões para o lado pessoal – como ficou nítido quando foi substituído contra a Ucrânia.

O histórico de problemas de Nasri com a camisa dos Bleus vai além. Na Euro-12, ele irritou a Federação Francesa ao comemorar um gol contra a Inglaterra pedindo silêncio. Para piorar, ele discutiu com um repórter após o jogo contra a Espanha na mesma competição e o chamou para a briga. Isso sem contar que o meia não desperta amores dentro do elenco. Para quem deseja exterminar a péssima impressão causada pelos problemas de relacionamento do grupo escancarados na Copa-2010 e na Euro-12, a presença de Nasri seria um contrassenso dos mais inexplicáveis.

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De nada adianta a namorada de Nasri falar um monte de impropérios a Deschamps e praguejar contra a seleção, ou então o meia vir a público e choramingar, dizendo-se frustrado e decepcionado por ficar fora de uma Copa do Mundo pela segunda vez. Ele deveria pensar um pouco mais antes de tomar suas atitudes e criar para si mesmo um péssimo ambiente, incompatível para quem deseja estar na seleção.

Como se não bastasse este lado bad boy, Nasri ainda tem outro agravante. Mesmo que tivesse sido lembrado por Deschamps e se comportasse como um cordeirinho, o meia carregaria uma incógnita consigo. Afinal, quando vestiu a camisa dos Bleus, Nasri alternou partidas com excelente desempenho com outras sofríveis, sem repetir a regularidade exibida quando defende o Manchester City.

Aos 26 anos, Nasri disse que vai refletir durante as férias sobre seu futuro na seleção francesa, o que pode sugerir uma aposentadoria precoce dos Bleus. Antes de se dizer injustiçado e repetir todo aquele discurso de quem se julga vítima de uma teoria da conspiração, Nasri deveria repensar seus atos intempestivos e ver como eles fecharam as portas da seleção. Nem só de talento se faz um bom jogador.

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