Tito Vilanova tem o desafio de reconduzir o Barcelona ao topo (AP Photo/Manu Fernandez)

Acima de tudo, Tito Vilanova é um exemplo que vai muito além do futebol

Tito Vilanova não foi o melhor técnico da história do Barcelona. Ao contrário disso, muitos atribuem a derrota de seu time para o Bayern de Munique, nas semifinais da Champions, como o marco da era mais vitoriosa dos blaugranas. A temporada que Tito passou à frente do time principal foi difícil, em vários aspectos. Sobretudo, porque em parte dela o treinador precisou ficar ausente para tratar de seu câncer. E, ainda assim, conseguiu levá-lo à conquista de La Liga. À melhor campanha dos culés na história do Campeonato Espanhol, superando a marca dos 100 pontos pela primeira vez. Teve a honra de levantar a taça, mesmo ainda na incerteza de seu futuro, em uma das cenas mais marcantes do ano.

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Mesmo com a queda de desempenho, é difícil acreditar que alguém do Barcelona tenha se arrependido da chance dada para Vilanova. A oportunidade de seguir lutando pela vida e não romper o maior sonho, o de treinar um esquadrão que ele ajudou, e muito, a construir. O técnico da base que fez Messi decolar e que montou a geração mais forte de La Masía, também com Piqué e Fàbregas. O inseparável assistente de Guardiola durante seus quatro anos à frente dos catalães, cuidadoso por organizar uma das maiores equipes da história. A entrega da condução do Barcelona era natural, cheia de méritos por tudo o que havia feito nos anos anteriores. E poderia ser mais marcante, não fosse o adversário imbatível que enfrentou.

A luta de Tito Vilanova contra o câncer começou em 2011, quando ainda era assistente. Em novembro daquele ano, a primeira operação na glândula parótida, onde surgira o tumor. A partir de então, passou a ser um exemplo no dia a dia do Barcelona. Os médicos diziam que estava curado e, por isso mesmo, ganhou carta branca para assumir a equipe com a saída de Guardiola. Mas o implacável rival pediu revanche em dezembro de 2012, uma recaída da doença. Entre internações, sessões de quimioterapia e radioterapia, o técnico passou a maior parte da metade final da temporada ausente. A primeira derrota dos blaugranas na Liga foi justo no último dia de Tito no banco antes de iniciar seu tratamento em Nova York.

O baque de perder o título no meio das campanhas foi sentido, é fato. No entanto, também havia a contrapartida da ocasião. Se ele faz todo esse esforço pela própria vida, o que é dar o máximo em busca de um título? A conquista do título espanhol, ao menos, enalteceu os sacrifícios feitos pelo técnico, que voltou ao banco de reservas em abril, apenas três meses depois de tê-lo abandonado. Retornava com vontade de seguir trabalhando, vencendo em campo. Vencendo na vida e não dando a vida por vencida. Porém, depois de iniciar a pré-temporada com o clube, foi obrigado a deixar seu posto em julho de 2013. Outra vez, o câncer o desafiava.

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O carinho da torcida do Barcelona foi demonstrado antes do clássico contra o Real Madrid do primeiro turno, em outubro passado. O Camp Nou se pintou de azul e grená para desejar ‘Força, Tito’. Respeito esse que se repetiu muitas vezes depois e, mais abertamente, a partir dessa sexta-feira, quando Vilanova não resistiu ao câncer e faleceu. Palavras exaltando o comprometimento do grande profissional que foi desde os tempos de jogador, a humildade do grande ser humano desde sempre. Ex-colegas e rivais, como José Mourinho, cujo entrevero com o então assistente de Guardiola não passou de cabeça quente de jogo, demonstrando todo o seu respeito em várias ocasiões depois. Talvez ninguém mais importante que Eric Abidal, que lutou ao mesmo tempo em que Tito contra o câncer, o seu no fígado. “Por tudo que vivemos juntos, sempre te recordarei, amigo. Descanse em paz. Obrigado pela luta. Meu carinho e apoio a sua família”, se manifestou.

O mosaico feito no Camp Nou em homenagem a Tito

Quem já conviveu com alguém que batalha contra o câncer sabe como é a rotina sofrida. Os pequenos sacrifícios diários que se faz pela vontade de viver. Gestos dos quais às vezes você, na plenitude da saúde, não consegue acreditar que uma pessoa tão debilitada tenha forças. E, às vezes, não são nem mesmo atitudes que sirvam pela própria melhora. São esforços pelo próximo, pelas pessoas que ama. Digo isso por experiência própria, por ter perdido alguém insubstituível. Por ter notado em Vilanova essa mesma entrega por seu trabalho e por sua vida, mas também por ter ido além de seus limites para honrar jogadores e torcedores do Barcelona.

Para quem já perdeu alguém querido, derrotado pelo câncer, fica o muito obrigado pelo exemplo que Tito deu. Para todos que acompanharam o mínimo de sua trajetória, que notaram esse exemplo, o desejo de que descanse em paz. A luta não foi em vão, tenha certeza disso.

Tito e Abidal, do Barcelona

Para finalizar, a carta de despedida que Vilanova escreveu em sua despedida do Barcelona como técnico, em julho de 2013:

Obrigado Barça, obrigado a todos

Depois de cinco anos maravilhosos formando parte de uma equipe que tornou realidade os sonhos de qualquer treinador, chegou o momento de enfrentar uma mudança em minha vida profissional para dedicar forças e energias a continuar o processo da enfermidade que me diagnosticaram há um ano e meio.

Os tratamentos que devo seguir a partir de agora não fazem recomendável, segundo a opinião dos médicos, que eu possa me dedicar 100% às tarefas próprias do primeiro treinador de uma equipe com a exigência do Barcelona, mas continuarei muito próximo e seguirei trabalhando por este clube que tanto amo em outras tarefas da área desportiva.

Não é fácil deixar este grupo de pessoas tão especiais, os jogadores, os companheiros de staff e os amigos com quem compartilhei tantas vivências inesquecíveis. Estarei eternamente agradecido por tudo o que tem me dado e o que me tem demonstrado. A qualidade humana e futebolística desta equipe está a prova de qualquer obstáculo e estou convencido de que enfrentará com toda sua capacidade os novos desafios esportivos em uma temporada que deve ser empolgante a todos.

Também quero agradecer especialmente ao presidente, a toda a junta diretiva, ao diretor Andoni Zubizarreta por toda a confiança que colocaram em mim e, sobretudo, seu apoio incondicional, tanto esportivo como pessoal. Igualmente importante para mim é o apoio médico e humano que recebo tanto do doutor Ramon Canal como de sua equipe de médicos que estão do meu lado. Sei que não jogo sozinho esta partida, que formo parte de um clube solidário que me ajudará a sair adiante neste longo processo, como fez até agora.

A todos os outros, sócios e torcedores do Barça, também quero agradecê-los de todo coração as mostras de apoio e afeto que chegaram até a mim, não só agora, como também ao longo dos últimos meses. Digo que estou tranquilo, forte e que enfrento esta nova etapa no processo de minha enfermidade com plena confiança de que tudo irá bem.

Muito obrigado a todos os torcedores do futebol, aos colegas de profissão, clubes, esportistas, pessoas conhecidas e anônimas por vossas mensagens de ânimo que tanto reconfortam a mim e a minha família.

São momentos difíceis para os meus e por isso eu pedi aos meios de comunicação respeito e compreensão. Agora que deixei de ser o treinador do Barcelona, espero poder ter a tranquilidade e a privacidade que tanto eu, como minha família, precisamos nestes momentos.

Não queria terminar esta carta sem desejar muita sorte e todos os êxitos ao novo treinador da melhor equipe do mundo.

Muito obrigado a todos.

Tito Vilanova