O Lanús pode fazer grandes campanhas, conquistar títulos ou expandir as suas fronteiras, mas não abandona a sua identidade como clube. Não deixa de ser um fiel representante da comunidade, ciente de sua importância local. Ao mesmo tempo em que cultiva a sua torcida dentro de La Fortaleza, o Granate também promove diversas ações para ajudar a vizinhança de sua cidade. Serve de catalisador para direcionar benfeitorias, sejam elas ajudando crianças carentes, melhorando as estruturas de atendimento em serviços básicos ou oferecendo o mínimo de dignidade a quem precisa. Não à toa, sua torcida o chama com orgulho de ‘club de barrio más grande del mundo’ justamente por esse coração que abarca uma multidão. E cujo sentimento se ressalta justamente nos maiores ídolos – jogadores que, entre idas e vindas, atravessam mais de uma década em Lanús, honrando o espírito grená nas grandes campanhas.

VEJA TAMBÉM: Aos 37 anos, José Sand foi o gladiador que encarnou a fúria do Lanús rumo à final da Libertadores

José Sand, Lautaro Acosta, Maxi Velázquez. É impossível contar a história do Granate, ao menos a história gloriosa de suas principais conquistas, sem citar o trio querido. Acosta e Velázquez estiveram em cinco dos seis títulos já erguidos pela agremiação, e Sand em quatro deles. São jogadores que passaram diferentes momentos da carreira e mantém a fidelidade à camisa. Que fazem os torcedores se espelharem e verem mais um dos seus em campo. Que, bastante tarimbados, são os caras que encabeçam o sucesso do Lanús nesta Copa Libertadores.

Entre aqueles que já vestiram a camisa grená, Lautaro Acosta pode ser considerado um dos filhos mais queridos de Lanús. Nascido em Glew, outra cidade ao sul da Grande Buenos Aires, o ídolo chegou às categorias de base quando tinha apenas oito anos. O papel social do Granate, aliás, tem importância em sua vida desde os momentos iniciais. Primeiro, porque o acolheu da melhor maneira, pagando seu transporte aos treinamentos. Depois, porque estendeu as mãos em um dos momentos mais difíceis na casa de Laucha. Quando seu pai perdeu o emprego na concessionária de carros onde trabalhava, o clube ofereceu um emprego. Trabalhou de faxineiro, de treinador dos infantis, do que mais pudesse. E o garoto não demoraria a retribuir o que puderam fazer por sua família.

Acosta passou toda a sua formação no Granate, despontando também às seleções menores da Argentina. E o momento de sua ascensão ao elenco principal não poderia ser mais oportuno: ele se profissionalizou aos 18 anos, em 2006. Logo se firmaria como uma grande revelação e seria fundamental na conquista do Torneio Apertura de 2007. Também faria parte do elenco da Albiceleste campeão Mundial Sub-20, antes de participar da conquista do ouro olímpico nos Jogos de Pequim, em 2008.

Ponta incisivo e que circula por diversas partes do campo, Acosta tinha um horizonte bem maior para si. Desta maneira, não demorou a arrumar as malas e a rumar para a Europa. Defendeu Sevilla e Racing de Santander sem causar o impacto esperado, atrapalhado também pelas lesões. Retornou ao Boca Juniors e até recuperou a sequência, mas não conseguia ser aquele que muitos esperavam. Afinal, seu coração não estava na Bombonera. O camisa 7 retornou para casa. Voltaria a vestir as cores do Lanús.

“Aqui, sou o melhor que posso ser. Este lugar me dá paz, essa continuidade e essa alegria de viver o futebol. Sou o que era no fraldinha do Lanús. Isso eu sou”, declarou, em setembro, ao La Página 12. “Eu tenho cinco títulos aqui e, quando era pequeno, o clube nunca tinha sido campeão. Cresci em um clube que subiu, que foi se fazendo grande e começou a ganhar coisas. E cada festejo é o festejo da minha família, dos meus amigos, daqueles que conheço a vida toda. Quanto vale isso? Não há dinheiro que pague. De verdade eu te digo: há milhares de jogadores que ganharam qualquer quantidade de dinheiro, mas nunca puderam ser campeões com seus amigos e com sua família. Por isso, fico aqui”.

Desde o retorno, Acosta tem sido uma recorrente liderança na grande jornada do Granate. Conquistou a Copa Sul-Americana de 2013 logo em seus primeiros meses, desequilibrando aos argentinos principalmente por suas assistências. Foi a referência do time no Campeonato Argentino, sobretudo no título de 2016. E segue empunhando a bandeira grená ao longo da Libertadores, chamando a responsabilidade, causando problemas às defesas rivais. Sente-se à vontade em seu time, em seu estádio, em sua torcida. É parte importantíssima de todo esse ambiente.

E, aos 29 anos, o futuro de Acosta deverá continuar sendo o Lanús, ao menos por suas palavras. “Sigo no clube porque tenho um grande senso de pertencimento. Não jogo aqui de graça, ganho bem e não me falta nada para viver. Além do mais, o Lanús pode me dar espaço na seleção. Minha prioridade é o esportivo, e o Lanús me parece o melhor clube para fazer isso. Eu entendo a filosofia que podem ter outros, de ir ganhar o que acreditam que merecem. Mas ter um milhão a mais ou a menos não me vai fazer mais feliz e esses anos passam, se eu os perder não vou os recuperar nunca mais”, declarou, em agosto, em entrevista ao TyC Sports. É o cara que, depois de viver o que viveu contra o River Plate, foi a uma pizzaria festejar com outros torcedores. Diz muito sobre sua personalidade.

Na linha de frente, Laucha costuma se entender às mil maravilhas com José Sand. Os dois foram os principais responsáveis pela virada espetacular em cima do River. E compartilham, além do campo, o mesmo apego ao que se vive em La Fortaleza. É assim faz tempo, desde que se conheceram no time campeão de 2007. Algo que se renovou nos últimos meses, com o retorno do veterano centroavante à velha casa.

“Conheço Laucha de memória. Com um olhar, já sabemos o que o outro vai fazer. E, além disso, nos gostamos muito e isso se nota em campo. Sempre vou ser grato por tudo o que ele fez e faz por mim. Alguns querem criar uma disputa sobre qual dos dois é o maior ídolo do clube, mas isso não nos interessa. Queremos o melhor para a equipe”, analisou Sand, em entrevista ao Olé nesta semana.

Ao contrário de Acosta, Sand não começou sua carreira no Granate. Era um fenômeno em marcar gols na base do River Plate, mas demorou a ganhar sua oportunidade na equipe principal. Rodou bastante e, quando teve a chance, não se firmou em Núñez. A chegada ao Lanús pela primeira vez aconteceu em 2007, num momento em que o Granate terminava de formar o seu time campeão nacional. E o reencontro com os Millonarios acabaria sendo determinante para os seus sentimentos.

Era a nona rodada do Apertura 2007. Desde que deixara o River Plate, Sand nunca mais havia pisado no Monumental. Pela primeira vez em dois anos, encarava a antiga torcida, e não teve uma recepção nada amistosa, vaiado desde o primeiro minuto. Pois a resposta viria em campo, com um gol do centroavante, que colocou a mão na orelha, desafiando os locais. Os Millonarios ganharam aquela partida por 3 a 1, embora o título tenha sido do Lanús. E, sob as cobranças da “ingratidão”, por tudo o que o River lhe dera desde a base, o artilheiro declararia não dever nada a ninguém. Assim, sua identificação com o Granate cresceu mais e mais.

Pepe Sand acabou sendo um dos protagonistas no primeiro título nacional dos grenás. Brilharia na estreia do clube na Libertadores. Seria artilheiro do Campeonato Argentino duas vezes. Chegaria à seleção. E, diante das propostas, arrumou as malas em 2009. Rodou por três continentes diferentes até retornar à Argentina em 2012, mas vestindo a camisa do Racing. Sua carreira parecia em franco declínio, e ele só recuperaria um pouco de seu nível quando baixou à segunda divisão. Mas o reerguimento, pela segunda vez, abriu as portas em La Fortaleza. Em dezembro de 2015, aos 35 anos, o velho artilheiro voltaria a vestir a camisa grená.

Sua reapresentação foi carregada de emoções. Sand não podia esconder a alegria de voltar ou a relação que construira no clube, desabando em lágrimas. “Em muitos clubes eu fiz gols, mas o Lanús me deu tudo. Os torcedores sempre me apoiaram e me diziam que esperavam a minha volta. Quero dar o máximo e me aposentar aqui, era o meu sonho”, afirmou. Naquele momento, Pepe declarava que não havia sido apenas um ídolo nos momentos de glória. Ele era mais um grená no meio da multidão. E, ainda assim, voltaria a liderá-los a novas celebrações, artilheiro do Argentino 2016 e vital em toda a campanha na Libertadores, por seus muitos gols. Tamanha identificação é retribuída com uma torcida batizada em sua homenagem.

“Sou torcedor do Lanús e o amo com toda a minha alma. Quando voltei, senti um pouco de temor, porque no fundo ninguém sabe o que se pode passar. Graças a Deus tudo saiu como eu havia sonhado”, apontou, em entrevista ao Olé, em outubro. “O Lanús é tudo para mim. É minha casa, minha família, meu mundo. Meu filho Benjamín é fanático, vive com a camisa do Lanús, fica feliz quando marco gols e se entristece quando perco. Sempre dei 100% nos clubes em que joguei, desde o maior ao menor, mas o Lanús é diferente de todos. Não sei como explicar. No Lanús, renasci como jogador”

E, por mais que representem tanto ao Lanús, Sand ou Acosta não carregam a braçadeira de capitão. Esta primazia fica com Maxi Velázquez, mesmo sendo um coadjuvante durante as partidas. Ainda assim, é aquele que chegou primeiro ao elenco profissional e que, somando suas duas passagens, veste há mais tempo a camisa grená. Nenhum outro jogador na história do clube, afinal, disputou tantas partidas quanto o defensor, que se tornou recordista em fevereiro do ano passado – superando José Felipe Perassi, goleiro do Granate entre 1978 e 1990.

Velázquez alimentou seu amor pelo Lanús já na idade adulta. Desembarcou no clube em 2004, aos 24 anos, após surgir no Ferro Carril Oeste e ter uma curta passagem pelo Talleres. Naquele momento, o lateral passou por todo o processo de lapidação do elenco rumo à conquista do Apertura em 2007, auxiliando no trabalho de transformação orientado pelo técnico Ramón Cabrero. Permaneceria honrando a camisa até 2010, quando defendeu por alguns meses o Independiente. De qualquer maneira, suas raízes já tinham se fincado em La Fortaleza, para onde ele voltou em 2012.

Embora não usasse a braçadeira ainda, Maxi Velázquez foi campeão da Copa Sul-Americana de 2013. Depois, teve o gosto de levantar a taça do Campeonato Argentino, da Copa del Bicentenario e da Supercopa a partir de 2016. Uma verdadeira bandeira dos grenás, que agora ambiciona aquela que ‘mira y no se toca’. É uma voz ativa dentro de campo, que lidera pelo exemplo e se entrega para que outros companheiros possam brilhar. Possam fazer o Granate sonhar tanto.

“O Lanús me marcou como jogador e também marcou a minha família. Os meus filhos nasceram quando já jogava aqui. Meus pequenos são felizes por irem ao clube e assistirem aos jogos no estádio. Eu aproveito todos os dias ao máximo, tenho muitíssimos amigos”, afirmou, à revista El Gráfico em maio de 2016, com uma dose de humildade digna dos grandes capitães. “Não sou ídolo do Lanús. Eu me sinto um jogador importante, por tudo o que represento aos mais novos. Mas isso de ser ídolo, deixo a Sand, Pelletieri e Acosta. Eles fazem por merecer”.

A final da Libertadores, aliás, talvez seja a última chance a Velázquez e Sand, ambos aos 37 anos. Acosta, oito anos mais jovem, deverá ser o estandarte dos grenás a partir disso. E há outro guardião a ascender no coração dos torcedores: o goleiro Esteban Andrada, herói em distintos momentos na competição continental. Nascido em Mendoza, chegou a jogar como atacante, até ser convertido a goleiro por seu pai. Começou a carreira na cidade-natal, antes de ser levado pelo Lanús em 2007, morando na pensão do clube e se formando em suas categorias de base.

O potencial de Andrada ficou bastante claro em 2011, quando ele integrou a seleção argentina sub-20 e disputou o Mundial da categoria. Chegou mesmo a atrair o interesse do Barcelona, mas os grenás recusaram a oferta. De qualquer maneira, o arqueiro demoraria a se firmar. Passou anos seguindo os passos de Agustín Marchesín e Fernando Monetti. Foi emprestado ao Arsenal de Sarandí, mas não agradou. Até que nos últimos meses de 2016 ganhou a grande chance, com uma ajuda do destino: Monetti rompeu os ligamentos do joelho jogando tênis em sua casa. Então, o prata da casa não decepcionou.

Andrada não é exatamente o goleiro confiável em 100% do tempo, mas sabe fazer os seus milagres. Já demonstrou sua competência nos pênaltis, especialmente ao frustrar o San Lorenzo nas quartas de final da Libertadores. E joga bem com os pés, um diferencial a um time tão intenso quanto o Granate de Jorge Almirón. As finais contra o Grêmio surgem como enorme oportunidade de, aos 26 anos, pagar toda a confiança que o Lanús depositou em seu potencial. De se afirmar como mais um grená que saiu das arquibancadas para o pódio. E é nessa dedicação inegável de cada um que o clube constrói sua força.

É como afirma Acosta, em entrevista ao Olé: “Estou tentando desfrutar essa final de Libertadores. Vivê-la um pouco como torcedor e outro pouco como jogador, ainda que seja difícil. Ganhar a Copa mudaria para sempre a vida do clube, do bairro e a carreira de muitos de nós. Não é qualquer um que chega a este lugar, mas não vamos nos conformar com isso. Agora queremos dar outro passo”. Um pertencimento que transborda.