Um dos eventos mais importantes da Copa do Mundo é o sorteio dos grupos, que acontece em dezembro do ano anterior. O do Mundial de 2014 será nesta sexta, na Costa do Sauípe, Bahia. No exterior a discussão é sobre grupos da morte, a logística e as diferenças climáticas, no Brasil, o evento ganhou um elemento extra: uma suposta troca do casal de apresentadores. A informação que pipocou é que a Fifa teria vetado Camila Pitanga e Lázaro Ramos (negros) para colocar Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert (loiros) no evento. Surgiram teorias conspiratórias e acusações de racismo, que talvez perdessem força se o processo todo, que envolve Fifa e COL, fosse mais transparente e tivesse uma dose de bom senso.

A informação veiculada por Lauro Jardim, da Veja, conhecido por conseguir informações de bastidores, não trazia detalhes. Em 23 de novembro, o jornalista escreveu: “Depois de rejeitar a ideia da Globo de pôr Lázaro Ramos e Camila Pitanga para apresentar o sorteio  das chaves da Copa, a Fifa bateu o martelo. O casal Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert fará este papel no evento do 6 de dezembro, na Bahia”.

O COL diz que não foi bem isso que aconteceu. Em 29 de novembro, Lauro Jardim trouxe novas informações. Segundo a nota, a ideia de ter Ramos e Pitanga como apresentadores foi levada no primeiro semestre à Fifa pela Geo Eventos, responsável pela organização do sorteio da Copa (como havia sido responsável pelos demais eventos relativos à Copa de 2014). A sugestão partiu, segundo Jardim, de Luiz Gleiser, diretor da Globo e da Geo (que pertence às Organizações Globo). A justificativa para a negativa, ainda segundo o colunista da Veja, foi que os organizadores não queriam um evento com cara de novela da Globo. Lima e Hilbert também são contratados da emissora, embora ela não atue em novelas.

A justificativa oficial

Segundo nota divulgada pelo COL, a Geo elaborou uma lista com diversos nomes. A Fifa diz que em momento algum vetou qualquer nome, apenas que escolheu, entre os listados, o casal Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert, que já apresentaram dois eventos da Copa 2014: a apresentação do emblema oficial da Copa de 2014, em 2010, na África do Sul, e o sorteio das Eliminatórias, no Rio de Janeiro, em julho de 2011. A entidade diz que a boa experiência com os apresentadores levou os organizadores a repetirem a dupla também para o sorteio dos grupos.

O COL ainda afirma que não há fundamento nas acusações de racismo, já que diversos artistas negros estarão no evento (estão confirmados Margareth Menezes, Emicida, Olodum, Alcione, Alexandre Pires e Vanessa da Mata). O comitê também nega uma informação divulgada pelo blog Farofafá, hospedado no site da Carta Capital, que dizia que Ricky Martin seria o cantor da música-tema da Copa de 2014. Segundo o Comitê, houve um engano. A Fifa e a gravadora Sony afirmam que o porto-riquenho foi sorteado para estar no álbum oficial da Copa do Mundo de 2014. O artista que irá cantar a música-tema só será anunciado no começo de 2014. Não há informações se será um artista brasileiro o escolhido.

A Geo também se posicionou. Em entrevista ao UOL nesta segunda, o diretor citado por Lauro Jardim como aquele que teria sugerido Lázaro Ramos e Camila Pitanga à Fifa ironizou as acusações de racismo. “Olha esse elenco do sorteio e veja se alguém pode ser acusado de racismo? A Fifa não tem nada a ver com isso, é decisão do COL, que consulta a Fifa e a gente. Várias pessoas foram cogitadas: Gisele Bündchen, Fernanda Torres, Marcio Garcia, Rodrigo Santoro…”, afirmou Gleiser. “O COL decidiu com muita razão, com base em nossa experiência na África, que Rodrigo e Fernanda se saíram muito bem naquela apresentação. Daí pressupor qualquer coisa é um fenômeno contemporâneo, bobagem”, declarou ainda o diretor da Geo e da Globo.

Lázaro Ramos e Camila Pitanga (Divulgação)

Lázaro Ramos e Camila Pitanga (Divulgação)

Camila Pitanga, supostamente prejudicada no caso, nega ter sido contatada para apresentar o evento. “Sinceramente, acho que a especulação é muito maior do que a situação. Até porque, não recebi convite oficial”, ela disse à colunista Sonia Racy, do Estadão. A atriz é contratada da Globo e certamente não criaria uma polêmica sobre uma situação que envolve a emissora, mas é para se considerar a declaração de uma artista que tem posicionamentos políticos, como outras partes da entrevista mostram.

O histórico

As justificativas oficiais foram dadas, e transforma o caso em uma disputa de versões, em que cada um pode acreditar na que preferir. A explicação da Geo e do COL até tem base em um fato real (Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert já haviam apresentado, sem sobressaltos, dois eventos da Copa 2014), mas o histórico das entidades envolvidas não ajuda.

A Fifa fala muito sobre combate ao racismo, mas efetivamente faz pouco. Não combate adequadamente a ações racistas e xenófobas que atingem o futebol com uma frequência assustadora. Aliás, já escrevemos aqui na Trivela várias vezes sobre isso (aqui, aqui e aqui). No caso de apresentadores de sorteio de Copa, é difícil contestar a escolha de Heidi Klum para o Mundial de 2006, na Alemanha, mas a Fifa passaria uma mensagem forte antirracismo se escolhesse uma sul-africana negra em 2010, ao invés da loira Charlize Theron (e aqui não se discute a beleza, competência ou fama da atriz, apenas a mensagem de integração étnica que o evento poderia passar).

O erro de 2010 é o mesmo de 2014. A Fifa até pode escapar das acusações de racismo, mas não tem como negar a falta de esperteza de quem faz o contato com os comitês organizadores locais. Na África do Sul e no Brasil, escolher um apresentador negro – ou uma dupla em que um dos integrantes seja negro – soa normal, passa despercebido. O problema é deixar negros de fora e convencer alguém que não havia boas opções disponíveis.

Essa desconfiança é potencializada pela falta de transparência de todo o processo, confinado à aliança Fifa-Globo. O COL tem ligação estreita com a Fifa, pois existe para realizar um torneio da entidade, e é formado pela CBF, que vive do dinheiro da Globo. E todos os envolvidos no evento são ligados à emissora: ela é dona dos direitos de transmissão, é dona da empresa que organiza o sorteio e tem sob contrato os artistas envolvidos na polêmica, tanto a dupla loira quanto a negra.

Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa (AP Photo/Silvia Izquierdo)

Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa (AP Photo/Silvia Izquierdo)

Com um círculo tão fechado, poucas informações saem e todas as decisões ficam sob um ar misterioso. Muitas coisas parecem impostas ao público sem que se entenda como elas aconteceram. Já foi assim com temas bem mais triviais, como a escolha do símbolo da Copa e das opções para a eleição do nome da bola do torneio. Óbvio que uma possibilidade de racismo não passaria despercebida.

Nesta segunda, o Ministério Público, representado pelo 6º Promotor de Justiça Criminal de São Paulo, Christiano Jorge Santos, abriu um processo para apurar o caso. No jargão jurídico, é um procedimento visando “a apuração de eventual crime de racismo tendo em vista que os atores representam de maneira mais adequada a composição étnica e racial do povo do Brasil, ao passo que os atores escolhidos, Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert, de raça branca/caucasiana, sob tal aspecto, não”.

Santos terá trabalho para enquadrar criminalmente os responsáveis, a não ser que se vazem diálogos em que um dos responsáveis tenha declarado rejeição ao casal negro. E, como todo o processo é fechado em um grupo pequeno, a chance de vazamento é reduzida. Fora isso, não existe uma obrigação legal (apenas moral, ou de bom senso) de representar a diversidade étnica do Brasil no sorteio da Copa. Teoricamente, o COL poderia colocar uma dupla oriental (Dani Suzuki e Sabrina Sato, por exemplo) e, por menos “brasileira” que parecesse, não haveria nenhum impedimento legal para isso.

Por isso, a chance desse caso não dar em nada é enorme. Enquanto não surgir um depoimento bombástico mudando o cenário, o benefício da dúvida dá força legal aos argumentos oficiais. Mas o COL e a Fifa não têm como escapar de um veredito: ambos ignoram o mundo que os rodeia, e não perceberam como poderiam passar uma mensagem positiva e evitar várias críticas se tivessem um mínimo de bom senso ao escolher a dupla de apresentadores do sorteio. Desperdiçaram uma oportunidade de mostrar ao mundo um Brasil negro, como o seu maior jogador da história, Pelé, ou como o maior jogador atual, Neymar.