Por Bruno Bonsanti e Felipe Lobo

O futebol pode ser terrivelmente cruel. Um dos maiores jogadores do seu tempo, Lionel Messi tem uma imensa galeria de títulos, prêmios individuais e glórias. Conquistou todos os títulos possíveis em um clube. Quebra recordes e é uma lenda viva no Barcelona. Imortalizou a camisa 10, o gesto de comemorar olhando para o alto, agradecendo aos céus. Com a camisa da Argentina, Messi teve um início de carreira campeão, com os títulos do Mundial sub-20 de 2005 e da Olimpíada de Pequim. Mas, pela seleção principal, a glória nunca veio. Nem uma vez sequer. E, quatro finais depois, chances não faltaram. Depois da última oportunidade, no domingo, o craque pareceu sentir a decepção mais do que nunca. E tomou uma atitude mais radical do que nunca.

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“Me dói não ser campeão com a Argentina. Eu tentei muito, é incrível, mas não deu. Acabou para mim a seleção”, disse Lionel Messi, logo depois do jogo, na zona mista. “São quatro finais que me doem perder, que nos dói perder, três seguidas. A verdade é que é uma lástima, mas tem que ser assim. Não deu, nós tentamos, nós buscamos, mas não deu”, continuou o principal jogador argentino. “É difícil, é um momento duro para analisar. A primeira coisa que me vem à cabeça é que acabou a seleção para mim. São quatro finais. Parece que não é para mim. Lamentavelmente, eu tentei, era o que mais desejava, mas não deu pra mim. Está assim”, afirmou ainda o craque de Rosario.

O peso dos 23 anos parece ser gigantesco para Messi. Um peso que ele carrega muito mais do que os outros. Além de ser o argentino cinco vezes escolhido como melhor do mundo, logo, o mais cobrado para decidir as partidas, não fez carreira no futebol argentino de clubes. No começo da sua passagem pela seleção, enfrentou as críticas dos que contestavam sua identificação com o país e precisou de várias boas atuações para deixá-las para trás. Mas sempre ficou faltando o troféu que não vem há tanto tempo. “Messi não joga as finais para ganhá-las. Joga para ser perdoado”, descreveu, com precisão, o conterrâneo Jorge Valdano, em sua coluna no jornal Record, do México, publicada antes da final da Copa América Centenário, contra o Chile, em que o jogador do Barcelona desperdiçou sua cobrança na disputa de pênaltis.

“Isto é o que sinto agora. O que sinto é uma tristeza muito grande, e ainda por cima eu errei o pênalti. Eu errei justo o primeiro, que era importantíssimo para agarrar a vantagem e me doeu falhar”, declarou um entristecido Messi. “Isto é pelo bem de todos. Há muita gente que deseja isso, que obviamente não se conforma, como nós tampouco nos conformamos, em chegar à final e não ganhá-la. Nos doeu perder outra vez nos pênaltis, outra vez em uma partida muito equilibrada”, confessou o jogador.

Tudo indica que Messi não será o único. Segundo informa o La Nación, mais nove jogadores, que também perderam três finais consecutivas, cogitam fazer o mesmo que o craque e deixar a seleção argentina. Mascherano é um deles. Em 2011, depois da derrota para o Uruguai, já queria se aposentar do futebol internacional. Foi convencido por Messi a continuar. Agora não há mais ninguém para convencê-lo. Além dele, Agüero, Biglia, Sergio Romero, Rojo, Higuaín, Di María, Andújar e Lavezzi. “Há vários jogadores que avaliam não continuar na seleção”, disse Agüero, depois da derrota. “Foi a pior derrota que sofremos, pior que as outras finais. O vestiário de hoje (domingo) foi o pior vestiário que já vi na seleção”.

A deserção em massa indica que há mais por trás dessas decisões do que meramente a dor de perder uma final atrás da outra. Como costuma acontecer depois de longos mandatos de poder, o vácuo deixado pela morte de Julio Grondona, manda-chuva da Federação Argentina durante 35 anos, colocou a entidade no meio do caos. Ela não consegue sequer eleger o sucessor do dirigente. Uma eleição realizada um ano depois do seu falecimento terminou empatada em 38 a 38, o que é matematicamente fenomenal, considerando que apenas 75 delegados tinham direito a voto.

No final de maio, o presidente argentino Mauricio Macri interveio na Federação Argentina, suspendendo a eleição que estava marcada para 30 de junho. A Fifa odeia quando o governo coloca o nariz no futebol, frequentemente ameaçando o país de exclusão dos seus torneios. Mas não foi isso que ela fez. Semana passada, a própria Fifa interveio na AFA. “Este comitê administrará as atividades diárias da AFA, checará seu status para se adaptar à última versão do estatuto modelo da Fifa e organizará eleições que serão realizadas, no máximo, em 30 de junho de 2017”, disse, em um comunicado. O vice de Grondona que assumiu a presidência, Luis Segura, segundo a Reuters, deixou o cargo para o secretário Damian Dupiellet. Segura está sendo investigado por fraude na venda de direitos de TV.

A crise política da AFA, sem estar claro quem está no comando, e com dirigentes viajando para os EUA e voltando para a Argentina de acordo com a necessidade, resultou em vários problemas de organização. Atrasos em hotéis e aviões, por exemplo, que acumulados contribuíram para a irritação dos jogadores. O voo que levaria a delegação de Houston para Nova York atrasou, e Messi reclamou nas redes sociais. “Mais uma vez esperando em um avião para tentar sair para o destino. Que desastre são os da AFA”, escreveu. Ainda há problemas financeiros, que deixam Tata Martino sem salário há oito meses e impediram que a seleção sub-20 fosse aos EUA ajudar o time principal a treinar. A comissão técnica teve que ir atrás de times juvenis de clubes locais, como o Seattle Sounders, para realizar os treinamentos.

Em entrevista coletiva na última sexta-feira, Messi disse que sua crítica pública à AFA não foi pelo atraso do voo em Houston, mas por um acúmulo de problemas que incomodam os jogadores da seleção como um todo. “Faz tempo que as coisas estão acontecendo na AFA, mas não dissemos nada”, disse. “A Argentina é uma potência mundial que precisa do melhor. Não pedimos muito. Pedimos o mínimo. Conseguir viajar bem, descansar e nos preparar adequadamente. Este é o time nacional da Argentina. Merecemos o melhor ou pelo menos o mínimo, como os outros times nacionais. Chega uma hora em que as coisas têm que ser feitas da maneira correta. Não apenas para nós, mas para os que virão no futuro”. Ele prometeu mais detalhes depois da decisão contra o Chile, que ficaram, evidentemente, perdidos em meio ao seu anúncio de que deixaria a seleção argentina. “Depois da final, eu digo tudo que vi e o que está acontecendo”, havia afirmado.

Junto com a dor do terceiro fracasso seguido pela seleção, o contexto político que envolve o futebol argentino ajudou a empurrar Messi em direção à porta de saída – e outros jogadores podem ir atrás dele. Definitivamente? As palavras do camisa 10 não deixam isso claro. Ele usa termos como “é isso que sinto agora” ou “a primeira coisa que me vem em mente”. Se a conjuntura da AFA mudar, e a dor passar, deixou a porta aberta para mudar de ideia. Mas, até segunda ordem, a seleção argentina fica sem o seu craque e maior artilheiro.

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