Obdulio Varella se aposentou do futebol em 1955, deixando uma marca indelével na história do futebol e com uma importância imensurável no futebol uruguaio. A sua marca é sentida até hoje. Substituí-lo não seria fácil. A pesada camisa 5 que ele vestia no Peñarol e na seleção uruguaia ficava vaga. Vesti-la significa uma responsabilidade grande. Em 1957, o Peñarol encontrou alguém à altura do desafio: Nestor Gonçalves, então com 21 anos, que vinha de Salto. Se tornou Tito Gonçalves e ganharia a alcunha de Tito de América.

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Este é o tamanho de Nestor Gonçalves, ídolo da história do Peñarol, que morreu neste dia 29 de dezembro. Tinha 80 anos de idade. A perda da pessoa é triste, mas o jogador deixou uma história que jamais será esquecida pelos uruguaios. Especialmente os carboneros. Ele conseguiu substituir um dos maiores de todos os tempos em um país que valoriza demais a história. E envergou com honra o manto aurinegro. É um dos três jogadores na história do clube a levantar o troféu de campeão do mundo. Um privilégio que divide na história com William Martínez e Indio Oliveira.

Nascido em Cabellos, atual Baltasar Brum, cidade do norte do Uruguai, no dia 27 de abril de 1936, jogou por 14 anos no Peñarol, seu único clube, entre 1957 e 1970. Sua lista de títulos é vasta. São nove títulos do Campeonato Uruguaio (1958, 59, 60, 61, 62, 64, 65, 67 e 68); três títulos da Libertadores em 1960, 1961 e 1966; campeão Mundial em 1961 e 1966; além de uma Supercopa em 1969, seu última taça.

Sua história começa na seleção uruguaia antes do Peñarol. Em 1957, foi convocado por Juan Lopez para disputar o Sul-Americano daquele ano. Foi como reserva, mas acabou se tornando titular no terceiro jogo no lugar de José Pedro Lezcano. O time tinha perdido dois jogos até ali, para Colômbia, por 1 a 0, e para a Argentina, por 4 a 0. Com Tito, o Uruguaio venceu os três jogos seguintes, 5 a 3 no Peru, 3 a 2 no Brasil e 2 a 0 no Chile. Os resultados, porém, não foram suficientes para dar o título à Celeste. O título ficaria com a Argentina, seguida pelo Brasil e depois o Uruguai.

Gerardo Bassorelli, autor do livro Los Caudillos, descreve Tito Gonçalves como “um típico líder, meio-campista de tronco lento, mas com excelente visão de jogo, com uma enorme influência psicológica e técnica sobre os companheiros e rivais. Magro, alto, ambidestro, carregava a bola de peito estufado, com pinta de ganhador”.

Tito teve chance de sair do Peñarol. Chegaram propostas do River Plate e do Real Madrid, grande potência da época. Ele nunca deixou o clube. Por isso é recordista. É um símbolo do Peñarol e não por acaso foi chamado para inaugurar o estádio do clube, Campeón Del Siglo, em 28 de março de 2016. O Centro de Alto Rendimento do Peñarol também leva o seu nome. Curiosamente, seu filho, Jorge Gonçalves, também foi jogador do Peñarol e fez parte do último time que conquistou a Copa Libertadores, em 1987.

Tito América

Tito ganharia o apelido de Tito America por ser um dos responsáveis pelo grande desempenho carbonero nos anos 1960 na Copa Libertadores. O jogador atuou em incríveis seis finais continentais. Mas não só jogou: ele marcou época na competição.

Em 1960, na primeira edição da então chamada Copa dos Campeões da América, o Peñarol de Tito Gonçalves bateu o Olimpia, do Paraguai. Na ida, no estádio Centenário, em Montevidéu, 1 a 0 para os carboneros, gol do artilheiro equatoriano Alberto Spencer. Na volta, no estádio Puerto Sajonia, em Assunção, empate por 1 a 1 e título para os uruguaios.

Em 1961, o Peñarol defendeu o título. Depois de passar pelo Olimpia, adversário da final do ano anterior, mas desta vez na semifinal, a decisão do título foi contra o Palmeiras de Djalma Santos e Julinho. Em Montevidéu, 1 a 0 para o Peñarol. O gol veio aos 44 minutos do segundo tempo, novamente com Alberto Spencer. Na volta, no estádio do Pacaembu, em São Paulo, empate por 1 a 1. Título para o Peñarol mais uma vez. O primeiro bicampeão do continente.

Em 1962, o adversário foi o Santos espetacular do técnico Lula e de Gilmar, Mauro, Lima, Zito, Dorval, Mengálvio, Coutinho e Pepe. Sentiu falta de alguém? Sim, Pelé estava machucado e não atuou no jogo de ida. Logo o jogo que o Santos venceu, em pleno estádio Centenário de Montevidéu: 2 a 1. Na volta, na Vila Belmiro, o Peñarol venceu por 3 a 2, com muita polêmica.

Isso porque o jogo, na verdade, acabou empatado em 3 a 3. O árbitro, porém, encerrou o jogo quando o Peñarol vencia por 3 a 2, aos sete minutos do segundo tempo. O jogo a partir dali foi considerado amistoso. Foi nesse fim que não estava valendo que Pagõa empatou. A festa do título não valeu. A súmula, no dia seguinte, apontava vitória do Peñarol. O Santos teve que jogar outra partida. Foi a primeira vez que a Libertadores – ainda sob o nome de Copa dos Campeões da América – teve uma terceira partida para decidir o título.

Em Buenos Aires, Pelé finalmente pode jogar, recuperado de lesão. Com dois gols de Pelé, o Santos venceu por 3 a 0. Tito Gonçalves não conseguiu levar o time ao terceiro título seguido. Pela primeira vez um brasileiro conquistava o título.

Em 1965, o time volta à final da Libertadores. Desta vez, o adversário foi o Independiente. Assim como em 1962, houve uma terceira partida na decisão, depois de vitória do Independiente na ida e do Peñarol na volta. A decisão em Santiago teve goleada do Independiente, que conquistava o seu segundo título.

A final de 1966 teve o River Plate como adversário. Vitória do Peñarol por 2 a 0 em Montevidéu. Em Buenos Aires, vitória do River. A decisão, em Santiago, teve vitória por 4 a 2. Tito Gonçalves levantou o título.

Em 1969, o time conquistou a Supercopa de Campeões Intercontinentais. Em 1970, no seu último ano como profissional, ainda chegou com o Peñarol à final da Libertadores. Acabaria derrotado pelo Estudiantes, com vitória por 1 a 0 na Argentina e depois empate por 0 a 0 no Uruguai. O Rei de Copas encerrava a sua participação em competição europeia.

Duas vezes campeão mundial
Tito Gonçalves, capitão do Peñarol, na decisão do Intercontinental de 1966 no estádio Centenário

Tito Gonçalves, capitão do Peñarol, na decisão do Intercontinental de 1966 no estádio Centenário

Tito jogou três vezes a decisão do Mundial de Clubes, então Copa Intercontinental. Em 1960, contra o Real Madrid de Puskás, Di Stefano e Canário, o time ficou no 0 a 0 no primeiro jogo, em Montevidéu. Na volta, no Santiago Bernabéu, vitória acachapante dos merengues: 5 a 1. Na sua primeira decisão mundial, Tito Gonçalves não conseguiu levantar a taça. Mas a história mudaria.

A decisão da então chamada Copa Intercontinental, em 1961, foi contra o Benfica de Eusébio e Coluna. Em Lisboa, vitória do Benfica por 1 a 0. Em Montevidéu, 5 a 0 para o Peñarol. Como não havia saldo de gols, a decisão foi para o terceiro jogo. Vitória por 2 a 1 e título mundial na galeria de taças.

Em outubro de 1966, o Peñarol enfrentou o Real Madrid. O primeiro jogo, em Montevidéu, vitória por 2 a 0 para os uruguaios. A volta, no estádio Santiago Bernabéu, foi no dia 26 de outubro. Vitória por 2 a 0, mais uma vez, e os Carboneros deram a histórica volta olímpica em Madri. Mais um título para a coleção repleta do time.

Ídolo Celeste

Defendeu a seleção uruguaia em 51 jogos, entre 1957 e 1970. Jogou as Copas do Mundo de 1962 e 1966. Se despediu do futebol no dia 28 de novembro de 1970, diante do Cerro, em uma vitória por 2 a 1. Aquele foi o seu jogo número 574 vestindo a pesada camisa do Peñarol. Um recorde que persiste até hoje: é o jogador com mais jogos na história do clube. É também o jogador com mais título na história carbonera, com 15 taças, empatado com Ernesto Vidal.

Sua despedida da seleção uruguaia aconteceu em 1971, quando jogou por quatro minutos contra a Alemanha Oriental. Uma homenagem breve, mas significativa para aquele que tinha sido um dos seus grandes nomes da história.

Néstor Gonçalves, o Tito Gonçalves, estava internado há uma semana em uma clínica em Montevidéu. Como diz o jornal El Pais, um dos principais do Uruguai, hasta siempre capitán de capitanes. Deixou a vida, mas marcou o seu nome na história.