Antes de mais nada, e por uma questão de honestidade, é preciso informar ao nobre leitor e à querida leitora que a coluna não trará a resposta para a pergunta acima. Porque ela ainda não existe. Os acontecimentos no estádio da Luz, que provocaram o adiamento do dérbi Benfica x Sporting de domingo para terça-feira, ainda são nebulosos.

No domingo, quando a casa benfiquista já estava lotada de torcedores à espera da partida, pedaços de lã de vidro começaram a se desprender da cobertura e voar em direção às arquibancadas e ao campo – que ficou forrado do material. Ventava forte em Lisboa, cidade que vinha sofrendo uma série de tempestades ao longo dos dias.

As autoridades, então, decidiram cancelar a realização do clássico e evacuar o estádio. Quando ele já estava quase vazio, placas de zinco despencaram sobre as cadeiras, onde havia gente sentada até minutos antes. Uma delas media cerca de 40 metros quadrados

Pouco depois, ainda no estádio, o presidente da Liga de Clubes de Portugal soltou a frase que seria a manchete dos jornais do dia seguinte: “Evitou-se uma tragédia”. Pode-se imaginar quão grave seriam as consequências da situação, caso a evacuação não fosse feita naquele momento. “A decisão foi unânime, a segurança não pode ser posta em causa, se não teríamos assistido a um desastre”, afirmou também.

O que surpreende – e de certo modo até assusta – é que logo o jogo foi remarcado para terça-feira, ou seja, menos de 48 horas depois do ocorrido. Claro que as partes envolvidas garantiram que haveria segurança para a reabertura dos portões, mas ainda assim foi impossível não ficar ressabiado. Felizmente, a partida transcorreu sem incidente algum. Dentro de campo, o Benfica venceu por 2 a 0, de maneira incontestável.

A empresa responsável pela cobertura das arquibancadas do estádio da Luz chama-se Martifer. Em Portugal, fez trabalho semelhante no Alvalade e no Dragão. No Brasil, está presente em obras na Arena Fonte Nova, no Castelão e na Arena do Grêmio.

Em seu site, a Martifer afirma que, no estádio benfiquista, utilizou “um sistema de soldadura inovador, recorrendo a soluções de tecnologia de ponta pioneiras em Portugal”. Ao todo, são 42 mil metros quadrados de cobertura com 3 mil toneladas de estrutura metálica.

Os técnicos da Martifer realizaram vistorias na Luz antes de liberarem o estádio para o jogo na terça-feira. Eles tiveram a companhia de homens do Corpo de Bombeiros, do Instituto de Soldadura e Qualidade de Portugal, da Proteção Civil (equivalente à Defesa Civil brasileira), da polícia e do próprio Benfica. Eles substituíram as placas que haviam voado, o que permitiu que até mesmo o trecho de arquibancada que tinha ficado sem cobertura anteriormente fosse liberado.

Vale lembrar que esta não foi a primeira vez que um jogo teve de ser adiado na Luz por causa de problemas com o teto. Em janeiro de 2013, o duelo Benfica B x Feirense, pela segunda divisão, também não foi realizado. Na época, alegou-se que a cobertura havia sofrido avarias pelo incêndio causado por torcedores do Sporting, que atearam fogo nas cadeiras durante o dérbi realizado dias antes.

Vale lembrar, também, que o estádio do Benfica será palco da final da Liga dos Campeões desta temporada – a Uefa declarou que, mesmo com o ocorrido, não pretende alterar o local do jogo.

E que uma reportagem do site Lancenet apontou que o Engenhão, no Rio de Janeiro, foi inspirado na Luz. Coincidência ou não, o estádio carioca está interditado desde março do ano passado, justamente por causa de problemas em sua cobertura.

O que aconteceu no estádio da Luz não pode ser considerado normal. O que de fato ocorreu e qual é o perigo a que os frequentadores estão expostos são perguntas que precisam ser respondidas com urgência. Caso contrário, o risco é de não dar tempo de evitar uma tragédia.