Dusan Tadic, destaque do Twente

Agora Ajax já não luta só contra si mesmo: o Twente quer chegar

No último sábado, o duelo mais importante da 24ª rodada do Campeonato Holandês foi jogado – e pouco falado, diga-se de passagem. Em Enschede, o Twente recebia o Vitesse. E o time de Arnhem, que por muito tempo perseguiu o Ajax a par e passo pela liderança, já vinha de quatro jogos sem vitória. Só que a equipe da casa também estava esperando por um resultado positivo. Afinal, seu retrospecto também pedia uma recuperação: três jogos sem sair de campo com um triunfo.

E o Grolsch Veste viu possivelmente a melhor partida do Twente no campeonato. Os Tukkers fizeram 2 a 0 no Vitesse, impondo a quinta partida consecutiva sem triunfo aos aurinegros, que já se veem no quarto lugar. E, beneficiado pelo empate do Feyenoord (1 a 1 com o Roda JC, já no domingo), o time viu-se onde já sonhava estar no meio da semana passada, quando não passou de um empate com o Groningen, em jogo atrasado: na vice-liderança, vendo o Ajax a uma distância acessível.

Está certo que o líder da Eredivisie conseguiu dar um tempo nas atuações medíocres, fazendo 3 a 0 contra o Heerenveen em ótimo dia de Lasse Schöne. Com isso, a equipe de Amsterdã manteve os quatro pontos de distância para quem a persegue. Mas nos tempos atuais que o futebol holandês vive, não é nada impossível ver tal distância ser encurtada. Ainda mais para um clube que se destacou, nos últimos tempos, por ter equipes organizadas, como o Twente.

E é isso que ocorre, mais uma vez, agora com a dupla Michel Jansen (técnico de fato, por ter o diploma da federação) e Alfred Schreuder (auxiliar) comandando o elenco. Tendo mudado profundamente o seu elenco entre a temporada passada e a atual, o Twente começa a colher os frutos de tal reformulação. Curiosamente, isso começou por um setor onde a reformulação nem foi tão grande assim: a defesa. Sim, Nikolay Mihaylov e Douglas deixaram a equipe, após alguns anos. E a saída de ambos poderia trazer algum impacto. Principalmente a do brasileiro, desde 2007 em Enschede.

Não foi o que aconteceu. Até porque três quartos da linha de quatro defensores ficaram no clube: o lateral direito Roberto Rosales, e a dupla de zaga formada pelo dinamarquês Bjelland e Rasmus Bengtsson. A lateral esquerda até precisava de um reforço, já que Edson Braafheid voltara ao Hoffenheim (e fora decepcionante no retorno ao clube, diga-se de passagem). Pois bem: Robbert Schilder foi trazido do NAC Breda, e fortaleceu ainda mais o caráter defensivo, já que não é de muitos avanços. De quebra, a vinda de Dico Koppers, sem espaço no Ajax, para o mesmo setor, oferece a ofensividade que falta.

No gol, Nick Marsman, promessa que já era do clube e passou 2012/13 emprestado ao Go Ahead Eagles, voltou e é discreto, no melhor dos sentidos (coisa que, às vezes, faltava a Mihaylov). E a solidez da defesa já ajudou o time a manter a calma que faltou na metade final da temporada passada. Prova disso: a equipe tem a segunda defesa menos vazada, com 24 gols, apenas pior que a do líder (20).

Só isso já ajudaria meio-campo e ataque a atuarem com mais calma. Só que a velocidade de Kyle Ebecilio como volante (até já se falou dela aqui) ajuda os armadores a se comportarem como verdadeiros pontas-de-lança, transformando o 4-3-3 num 4-2-4 durante os jogos. E os próprios volantes acabam finalizando bastante. Pois se Shadrach Eghan tem cinco gols, e Ebecilio, quatro…

Não bastasse isso, o crescimento do chileno Felipe Gutiérrez facilitou a ida definitiva de Dusan Tadic para o ataque. Com duplo benefício: tanto Gutiérrez se consolidou como armador, a ponto de ser nome bem provável na lista de convocados da Roja para a Copa do Mundo, como o sérvio tratou de ajudar Luc Castaignos a ficar menos pressionado na figura de “homem-gol”: se o camisa 30 ainda é o goleador do Twente na temporada, com 13 gols, Tadic já tem 11.

A calma do Twente leva-o a ser o maior candidato a desafiar o Ajax nesta reta final do Campeonato Holandês. Até porque o atual tricampeão pega o AZ na 25ª rodada, adversário capaz de provocar um tropeço. Enquanto isso, os Tukkers enfrentam mais um rival direto, o Feyenoord – vencido por 3 a 1 em pleno De Kuip, no turno. E uma vitória aumentará a confiança de que, sim, é possível repetir o histórico título de 2009/10.

O que até abrilhantaria as despedidas de Peter Wisgerhof e, principalmente, do símbolo Sander Boschker, já de aposentadorias anunciadas para depois da temporada. E como o Ajax virá abalado pela humilhação imposta na Liga Europa pelo Red Bull Salzburg (e provavelmente sem o lesionado Schöne)… sonhar não custa nada.

O “torto” setentão

No meio-campo da Laranja Mecânica que fez história na Copa de 1974, Cruyff era a principal estrela. Era o gênio entre os inteligentes, o armador que virava ponta-de-lança e comandava todas as ações daquele time. Mas havia um jogador mais discreto – e tão importante quanto. Enquanto Cruyff corria (e pensava), Willem van Hanegem armava mais o jogo, com lançamentos precisos e sinuosos a ponto de lhe render o apelido de “Torto” (De Kromme).

Pois nesta quinta, um dos dois grandes ídolos da história do Feyenoord, o grande destaque do time campeão europeu e mundial em 1970 (e também da Copa Uefa, em 1973/74), fez 70 anos. A justa homenagem a Van Hanegem veio do time que também comandou, no título holandês de 1992/93: seu nome, agora, intitula uma das tribunas do De Kuip. Nada mais justo ao setentão até hoje venerado em Roterdã, e que teve papel importantíssimo (e pouco falado) em 1974. Como se pode ver no vídeo abaixo: