A torcida do São Paulo no Morumbi (AP Photo/Andre Penner)

Aidar escancara a crise de identidade do São Paulo

No final de 2008, um amigo corintiano me ligou assim que o São Paulo conquistou o Brasileiro – aquele, em que todos os times fizeram um baita esforço para perder. Meu amigo estava tenso, preocupado. Eu podia ver seu suor de preocupação pelo fio do telefone fixo. Ele não tinha dúvidas. “Eles vão ser o Real Madrid do Brasil. Vão ganhar tudo por muito tempo. Na hora certa, eles arrebentam”. Na época, eu respondi que provavelmente o time ainda conquistaria muita coisa por muito tempo. Só achava apressado cravar que o Tricolor seria o novo Real Madrid. O futebol brasileiro é governado por dirigentes tão instáveis e é jogado com tantas variáveis, dentro e fora de campo, que qualquer previsão é arriscada. As coisas mudam muito rápido.

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E mudaram. Não exatamente como eu imaginava, mas mudaram. Pouco tempo depois, o Corinthians anunciaria Ronaldo Fenômeno e começaria a construir seu próprio estádio. O resto da história é bem conhecido. O time do Parque São Jorge, o patinho feio da organização boleira, o exemplo de potencial marqueteiro perdido, se transformou em uma potência de ganhar dinheiro e conquistar títulos. Essa mudança no Corinthians, porém, não teve efeitos apenas sobre si. Ela atingiu profundamente o São Paulo. O alvinegro não entrou apenas no território da Libertadores, no qual o Tricolor ainda segue soberano. Ele invadiu terrenos em que o São Paulo estava tranquilo e parecia inatingível, como organização dentro de fora de campo, presença internacional e marketing agressivo. Não foram poucas as pessoas que apontaram uma espécie de “são-paulinização”, positiva, do Corinthians. Mas, nesse processo de “são-paulinização” do rival, o São Paulo não perdeu apenas jogos. Perdeu identidade. Afinal, o que distingue o Tricolor do Morumbi dos seus rivais?

O futebol não é apenas títulos. É identidade. Você cria afinidade com um time por uma série de razões. Família, cores do clube, torcida. No final das contas, um clube é um conjunto de características que, por alguma razão, te atraem – e ser vitorioso é apenas uma delas. O São Paulo teve, durante muito tempo, a fama de time de ricos. Mas os títulos acumulados ao longo do tempo, a organização exemplar fora de campo e o crescimento expressivo da sua torcida na periferia da capital paulista e nas cidades mais distantes do Brasil mudaram essa cara.

O São Paulo passou a ser o time dos moradores de Marsilac, no sul pobre e violento da cidade, e de muitas pessoas em Belém, no Pará, e em Salvador, na Bahia. Ele ficou maior do que o clichê de clube de riquinhos mimados. Ele passou a ser o clube de quem quer vencer, o clube de quem gosta de futebol organizado, de time com as contas em dia. Ele se transformou em um clube símbolo de quem gosta de futebol moderno e vencedor – um oásis de organização europeia no futebol sul-americano. Mas a realidade muda muito rápido. O time não vence mais como antes. Seus dirigentes se perpetuam no poder como em outros clubes. Alguns meses chegam a ter 45, 60 dias – quando é para pagar o salário dos atletas. Técnicos são trocados com facilidade. O São Paulo se tornou comum. E, ao se tornar comum, parece perder a identidade que construiu ao longo dos anos 2000.

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É nesse contexto que as declarações do novo presidente do São Paulo, Carlos Miguel Aidar, devem ser lidas. Ele, que chegou a ser o símbolo de dirigente moderno e ousado na década de 1980, assumiu a presidência do Tricolor com uma série de declarações infelizes. São frases típicas de dirigentes folclóricos, que imploram por atenção a qualquer preço. Mas essas frases não são gratuitas.

Ao ligar Kaká ao São Paulo com o argumento de que o jogador é bem educado, bonito e tem todos os dentes, Aidar joga o seu clube numa infeliz máquina do tempo. Ele diminui o São Paulo e devolve o clube aos anos 60, quando, de fato, sua torcida era formada basicamente por gente de classe média e classe média alta. A identidade que ele clama, a caixa em que ele coloca o clube, é de time de elite, arrogante, de bem nascidos. Troca a identidade da modernidade e da vitória por um rótulo barato, que não se aplica mais à imensa torcida são-paulina. Parece uma tentativa desesperada de diferenciar o São Paulo de outros times, mas da pior maneira possível. O que vão pensar os outros milhões de torcedores são-paulinos pobres? Eles não têm a cara do São Paulo? Não estão à altura do clube?

Não é a primeira vez que um clube tenta se apegar a uma identidade superada para sair de uma crise. É uma tentativa batida de se diferenciar dos rivais. Portanto, não há inovação em nada do que Aidar fez até agora – nem no seu menosprezo à Itaquera, onde vivem milhares de são-paulinos (16% dos moradores do bairro, segundo a pesquisa DNA Paulistano, da Folha). Mas os resultados, sim, podem ser tristemente inovadores.

Se continuar nessa toada, Aidar pode ser o primeiro presidente de um clube que se esforçou, conscientemente, para diminuir o tamanho de uma torcida.

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