Desde a temporada 2001/02 o Ajax não ganha campeonato e copa nacionais, na Holanda. E havia certa ansiedade para o fim desse jejum. Ele continuará, pelo menos no tocante à Copa da Holanda, mas é praticamente certo que os Ajacieden conquistarão o tetracampeonato da Eredivisie neste fim de semana, enfrentando o Heracles Almelo, na 33ª e penúltima rodada. Para que o Feyenoord, vice-líder, consiga o título que encerraria 15 anos de jejum, seria necessário ganhar os dois jogos restantes, ver o Ajax perder os seus dois, e ainda descontar nove gols de saldo. Convenhamos, dificílimo.

>>>> Inspirado no videogame, “PECman” Zwolle devora Ajax na final da Copa da Holanda

Só que o Ajax comemorará o título sem muita alegria. Como se fosse apenas o cumprimento de uma tarefa há muito tempo próxima de ser completada. Afinal de contas, ainda está latejando forte a ferida aberta no último domingo, quando o PEC Zwolle transformou o que era apenas sonho em realidade, ao fazer 5 a 1 nos Ajacieden e sagrar-se campeão da Copa da Holanda pela primeira vez em sua história de 103 anos.  E não bastasse a humilhação imposta por um clube pequeno, o Ajax ainda sofreu desnecessariamente com a ala mais turbulenta de sua torcida.

Mal se passara meio minuto da decisão no De Kuip, em Roterdã, e a F-Side, uma das principais torcidas organizadas do Ajax, começou a atirar sinalizadores contra a área defendida por Vermeer, atrás da qual estava. Houve uma pequena paralisação, e logo o jogo pôde recomeçar – para Van Rhijn fazer 1 a 0, logo aos três minutos, em belo chute de fora da área. Supostamente, abria-se o caminho para a vitória. Só que a F-Side empolgou-se e voltou a atirar sinalizadores para a área de Vermeer, logo após o gol.

Bastou para que não só o árbitro Bas Nijhuis interrompesse o jogo, mas para que as duas equipes fossem para os vestiários. O jogo ficou interrompido por meia hora, e foi necessário que Edwin van der Sar descesse ao gramado, solicitado pela federação holandesa, para falar com a torcida. E o diretor de marketing Ajacied carregou na bronca, sendo duro como poucas vezes transparecera enquanto jogador: “Vocês querem fazer festa? Então parem com essa m…., por favor. Senão, o clube vai se f….. Parem de jogar fogos no gramado, por favor. É perigoso. Permitam que todos aproveitem a festa”.

>>>> A torcida do Ajax está empenhada em trazer o antigo escudo do clube de volta

A federação justificou a bronca de Van der Sar, dizendo que se o jogo fosse interrompido novamente, a suspensão da decisão seria inevitável. Só então a torcida obedeceu, e os clubes voltaram a campo. Pelo menos, era o que parecia. Porque a defesa do Ajax, já tradicionalmente ingênua nesta temporada, apresentou um relaxamento inaceitável numa final – ainda mais contra um time que jogaria o resto do dia para ser campeão, se preciso fosse, como o Zwolle.

E as atuações de Ryan Thomas e Guyon Fernandez, principalmente, puniram o Ajax com a quebra de um tabu: desde 1956 a equipe não levava cinco gols numa partida da Copa da Holanda. E desde 2011, quando sofreu 6 a 4 do Utrecht pelo Campeonato Holandês, não levava cinco gols em partida alguma. Enquanto os Dedos Azuis levantavam a taça da conquista vinda de modo impensável, restava aos Godenzonen lamber as feridas.

E isso ocorreu do pior modo possível: apontando os dedos uns para os outros. Frank de Boer se mostrou duplamente irritado. Com o time (“Nunca entramos no jogo, de fato. Bem, entramos por meio segundo. Estou feliz por ter sido somente 5 a 1”) e com a torcida (“Foi escandaloso, não tem nada a ver com futebol. Faz com que o Ajax caia em descrédito”). Van Rhijn focou-se mais na má atuação do time: “Se não fosse Vermeer ter defendido alguns chutes, ou se eles tivessem jogado melhor, poderíamos ter levado oito ou nove gols”.

>>>> Se Ajax compete contra si mesmo na Holanda, está correndo riscos

Mas é evidente que a interrupção do jogo e a má educação da F-Side foram assunto. Vermeer foi sucinto: “Não nos ajudou, perdemos o entrosamento depois daquilo”. E a torcida organizada tratou de se defender, em nota divulgada na última segunda: “As reações são despropositadas. A não ser pelos focos de incêndio no gramado e a paralisação do jogo, nada aconteceu. Ninguém foi violento, ninguém roubou nada, ninguém se machucou”.

Nada aconteceu no campo, pelo menos. Pois fora dali, as sanções já começaram. A federação holandesa, por exemplo, já declarou que a proibição de torcedores do Ajax nos clássicos contra o Feyenoord em Roterdã está prolongada por mais três anos. O clube proibiu os torcedores vistos na confusão do último domingo de viajarem a Almelo para o que pode ser o jogo do tetracampeonato.

Mas o abatimento pela derrota dura na final da Copa da Holanda apenas prolonga uma sensação de melancolia já captada por alguns jornalistas holandeses. Primeiramente, os maus resultados nas competições europeias, que prosseguem. Nem tanto na Liga dos Campeões, onde a participação foi até honrosa. Mas na Liga Europa, em que ninguém esperava o vexame protagonizado contra o Red Bull Salzburg.

Outro mau sinal: nos três títulos nacionais anteriores, os Amsterdammers sempre tinham alguém na alça de mira de clubes mais representativos no cenário europeu. Em 2010/11, era Stekelenburg; em 2011/12, Vertonghen e Van der Wiel; em 2012/13, Eriksen. Agora, nenhum jogador Ajacied é sequer cogitado para a janela de transferências após a Copa. Nem Schöne, provavelmente o melhor da temporada. Nem Cillessen, cada vez mais promissor.

Por isso, mesmo que a possibilidade se confirme e o tetracampeonato nacional inédito chegue no próximo domingo, o Ajax não tem motivos para festa. Terminará a temporada sabendo que ainda precisa comer muito, mas muito arroz com feijão para sonhar virar novamente um clube respeitável na Europa.

VOCÊ PODE SE INTERESSAR TAMBÉM:

>>>> Se os dirigentes alemães forem mesmo espertos, vão atrás de Klopp

>>>> A torcida do PAOK atualizou o conceito de ‘transformar a vida do adversário em um inferno’