Durante seus pouco mais de 40 anos de existência como país, a Alemanha Oriental viu sua seleção disputar nove Eliminatórias de Copa do Mundo e oito da Eurocopa. Apenas uma vez chegou a uma fase final, no Mundial de 1974. A escassez de classificações, especialmente após a única participação, acaba escondendo a boa geração de jogadores formada no país a partir de meados dos anos 80, incluindo nomes que brilhariam no lado ocidental e até mesmo no exterior após a reunificação, em 1990. Antes da queda do Muro de Berlim, no entanto, ela ainda teve tempo de mostrar seu jogo vestindo o uniforme azul e branco da República Democrática Alemã. A safra derradeira é o tema deste “Azarões Eternos”.

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O contexto anterior

O período mais bem-sucedido da seleção da Alemanha Oriental foi sob o comando do técnico Georg Buschner, estendendo-se entre maio de 1970 e novembro de 1981. Com ele, a equipe se classificou para a única Copa do Mundo de sua história, em 1974, e conquistou a medalha de ouro olímpica nos Jogos de Montreal, dois anos mais tarde. Também levou a medalha de bronze, dividida com os soviéticos, em Munique 1972. Esteve muito perto de ir à Eurocopa de 1980. E, embora não tenha se classificado, fez papel digno nas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1978 e das Eurocopas de 1972 e 1976.

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A desclassificação nas Eliminatórias para a Copa de 1982, no entanto, representou o fim da linha para o treinador. A campanha fora bastante discreta. Incluídos no único grupo com três seleções daquela fase de classificação, os alemães orientais simplesmente venceram os dois jogos contra a fraca equipe de Malta e perderam os dois para a Polônia. Embora o time não tivesse perdido nenhum dos nove amistosos que fez no último biênio com o treinador no comando, o novo fracasso reabriu as feridas do trauma de uma eliminação de dois anos antes, na fase de classificação para a Eurocopa, quando, no último jogo, a seleção vencia a Holanda por 2 a 0 em casa e sofreu a virada que a deixou de fora do torneio continental.

Junto com Buschner, boa parte da veterana geração que estivera no Mundial de 1974 se despediu da seleção naquele fim de 1981. De modo que seu substituto, Rudolf Krause, técnico do time olímpico medalhista de prata em Moscou no ano anterior, teria a necessidade de iniciar um processo de renovação. Embora também tenha colhido bons resultados em amistosos (incluindo uma vitória sobre a Itália em Leipzig, às vésperas da Copa de 1982), fez campanha desastrosa no começo das Eliminatórias para a Eurocopa de 1984, com apenas um ponto somado nos quatro primeiros jogos.

O time começou aquela trajetória perdendo para a Escócia em Glasgow (2 a 0) e depois sendo derrotado duas vezes pela Bélgica (ambos por 2 a 1). Quatro dias após o quarto jogo, um empate sem gols com a Suíça em Berna em maio de 1983, Krause seria demitido, cedendo o posto a Bernd Stange, bicampeão nacional como assistente do Carl Zeiss Jena nos anos 70 e que vinha comandando a seleção sub-20. O novo treinador, de apenas 35 anos, venceu os dois últimos jogos da campanha (3 a 0 nos suiços em Berlim e 2 a 1 nos escoceses em Halle) e também encaminhou a classificação da equipe olímpica para os Jogos de Los Angeles no ano seguinte – até o comitê local aderir ao boicote liderado pelos soviéticos.

O primeiro ciclo planejado inteiramente por Stange seria o da Copa do Mundo de 1986. O sorteio colocou os alemães orientais no Grupo 4, ponteado pela França de Michel Platini e que também incluía Iugoslávia (presente tanto ao Mundial de 1982 quanto à Eurocopa de 1984), Bulgária e Luxemburgo. Uma chave considerada equilibrada, já que – franceses à parte – não havia favoritismo tão destacado entre nenhuma das três seleções socialistas na briga pela segunda vaga, já que os iugoslavos, assim como os alemães, também viviam período de reformulação.

Eliminatórias Copa 86

O começo da campanha da Alemanha Oriental, no entanto, foi bem ruim. Na estreia, derrota em Leipzig no importante confronto com a Iugoslávia (3 a 2) já parecia encaminhar o time à eliminação. A goleada de 5 a 0 sobre Luxemburgo fora de casa não empolgou, já que se tratava do adversário mais fraco do grupo. Ainda em dezembro de 1984, veio a derrota em Paris para a favorita França por 2 a 0. A virada do ano melhorou um pouco o nível do jogo da equipe, mas na partida seguinte pelas Eliminatórias o resultado não veio: derrota doída para a Bulgária em Sófia por 1 a 0, gol de Stoicho Mladenov a três minutos do fim.

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Com metade da fase classificatória disputada, os alemães-orientais nutriam poucas esperanças. A seleção somava apenas dois pontos em quatro jogos, ficando cinco atrás da líder França e quatro da vice-líder Iugoslávia. A pequena motivação vinha do fato de três dos quatro jogos seguintes serem em casa – a primeira delas, contra Luxemburgo em Babelsberg, em 18 de maio. E do sangue novo que vinha sendo injetado na equipe pelo técnico Bernd Stange.

A partida contra Luxemburgo também simbolizou a passagem de bastão entre gerações. Foi a 96ª e última partida pela seleção do líbero Hans-Jürgen Dörner, 34 anos, veterano da conquista do ouro olímpico em Montreal, em 1976, e que encerrou a carreira logo em seguida, em alto nível: fora eleito o jogador do ano no país em 1984 e 1985. Na frente, a partida contra a seleção do ducado marcou a estreia do centroavante Ulf Kirsten, jovem promessa de apenas 19 anos e companheiro de clube de Dörner no Dynamo Dresden.

Os frutos desse rejuvenescimento da equipe seriam colhidos já no jogo seguinte, vitória por 1 a 0 sobre a Noruega num amistoso em Oslo, gol de Kirsten. E também no próximo pelas Eliminatórias, no dia 11 de setembro, na importante vitória por 2 a 0 sobre os franceses em Leipzig. Dos 11 titulares, seis haviam chegado à seleção a partir de 1984 – ainda que os gols tivessem sido marcados pelos “veteranos” Rainer Ernst (aproveitando cruzamento do “novato” Andreas Thom) e Ronald Kreer (num chute forte da entrada da área após passe de Matthias Liebers). Com o triunfo, a equipe já chegava a seis pontos em seis jogos.

Naquele momento, o grupo já havia passado por uma grande reviravolta. A Bulgária, que vinha em terceiro na virada do ano, batera seguidamente e em casa a Alemanha Oriental, a França e a Iugoslávia, carimbando antecipadamente seu passaporte para a Copa no jogo seguinte, ao derrotar Luxemburgo fora de casa. Já os Bleus haviam estacionado: nos três jogos de 1985 haviam somado apenas um ponto (empate com a Iugoslávia em Sarajevo) e não marcaram nenhum gol. Enquanto os balcânicos oscilavam, sem convencer: derrotaram duas vezes os luxemburgueses por um magro 1 a 0, empataram sem gols em casa com os franceses e perderam fora para os búlgaros por 2 a 1. Eram eles os próximos adversários dos alemães.

O jogo de Belgrado, no dia 28 de setembro, seria uma revanche para o time de Bernd Stange, depois da derrota em casa para o mesmo adversário na estreia. E, embalada, a equipe não desperdiçaria a chance. Após um empate em branco no primeiro tempo, a Alemanha Oriental chegou ao gol na base do toque. Andreas Thom tabelou e invadiu a defesa aproveitando-se da linha de impedimento malfeita pela zaga iugoslava, fuzilando o goleiro Zivan Ljukovcan.

Minutos depois, o mesmo Thom fez grande jogada individual, abriu para Kirsten na ponta esquerda com um passe de calcanhar e recebeu de volta na área para soltar um petardo. Haris Skoro ainda descontaria no fim, mas o resultado já catapultava os alemães à vice-liderança do grupo, embora com um jogo a mais que a França. Os Bleus, no entanto, retomaram a segunda posição ao golearem Luxemburgo por 6 a 0. Chegariam à rodada decisiva um ponto à frente da Alemanha Oriental e da Iugoslávia, recebendo os balcânicos em Paris, enquanto o time de Bernd Stange pegaria a garantida Bulgária em Karl-Marx-Stadt.

Com saldo bem melhor que o dos iugoslavos, mas inferior ao dos franceses, os alemães não tinham muita escolha: além da obrigatória vitória sobre os búlgaros (de preferência por uma boa diferença de gols), tinham que torcer por uma surpresa da Iugoslávia no Parque dos Príncipes. Com o gramado do estádio Ernst Thälmann coberto de neve e direito à bola laranja, os alemães construíram a vitória ainda no primeiro tempo: aos três, Rainer Ernst foi derrubado na área, e o zagueiro Uwe Zötzsche converteu a penalidade. Aos 39, porém, Rusi Gochev completou de primeira um cruzamento da esquerda e empatou. Mas logo no minuto seguinte, numa cobrança de falta, Matthias Liebers colocou de novo os donos da casa em vantagem, e o resultado persistiu até o fim.

De nada adiantou, no entanto, o triunfo sobre os búlgaros. A França bateu a Iugoslávia com dois gols de Platini (o primeiro logo aos três minutos e o segundo na metade da etapa final) e levou a outra vaga ao Mundial do México. Como consolo aos alemães-orientais, restava a constatação de que havia uma boa geração despontando na seleção, sem falar em outra, que começava a fazer bonito na base.

As seleções de base

Enquanto isso, nas categorias inferiores, os resultados eram animadores. A seleção sub-16 foi duas vezes quarta colocada no Campeonato Europeu em 1985 e 1986 e terceira em 1988. Já a sub-18 conquistou o título continental em 1986 no torneio realizado em outubro daquele ano na Iugoslávia. Nas Eliminatórias, venceu um grupo que contava com Suécia, Noruega e Finlândia. E na fase final, deixou para trás a dona da casa (2 a 0) e a Alemanha Ocidental (1 a 0), batendo a Itália por 3 a 1 na decisão, resultado que classificou a equipe sub-20 para o Mundial da categoria, a ser disputado no ano seguinte, no Chile.

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Na primeira fase do Mundial, a seleção ficou no Grupo C, em Valparaíso, enfrentando Escócia, Colômbia e Bahrein. Logo na estreia, porém, veio uma inesperada derrota para os escoceses por 2 a 1 em jogo muito nervoso. A recuperação veio com duas vitórias: 3 a 1 sobre os Cafeteros, com três gols de Matthias Sammer, e 2 a 0 diante dos asiáticos, que valeram o primeiro lugar do grupo. Nas quartas de final, seria a vez de eliminar a Bulgária de Emil Kostadinov por 2 a 0. Mas nas semifinais, o sonho do título mundial terminou.

O adversário era a mesma Iugoslávia derrotada em seu próprio país no Europeu. Um elenco fortíssimo, entretanto, que revelaria uma safra recheada de talentos dentro de alguns anos. E que abriu o placar com o zagueiro Igor Stimac no rebote de uma cobrança de falta, aos 30 minutos do primeiro tempo. Os alemães decidiram arriscar mais na etapa final e foram premiados logo aos quatro minutos, com mais um gol de Matthias Sammer, jogando aquela competição como centroavante. Mas aos 25, Davor Suker completou um cruzamento para colocar novamente os iugoslavos em vantagem e selar a classificação à final.

Restou aos alemães-orientais a decisão do terceiro lugar, diante dos chilenos, donos da casa, no Estádio Nacional de Santiago. E sem Matthias Sammer, lesionado. Mesmo assim, num jogo muito intenso, a equipe superou a Roja nos pênaltis após empate em 1 a 1 no tempo normal e coroou sua boa geração com um lugar no pódio. Além de Sammer, aquele elenco incluía nomes como Dariusz Wosz, Rico Steinmann, Dirk Schuster, Hendrik Herzog, Torsten Kracht e Stefan Minkwitz, todos eles com presença, em maior ou menor frequência na seleção principal pelos anos seguintes.

Dois anos depois, a equipe voltaria a se classificar para o Mundial sub-20, após terminar na terceira colocação no Europeu sub-18 disputado na Tchecoslováquia. No torneio continental, a Alemanha Oriental superou Suécia, Irlanda e Finlândia nas Eliminatórias e, na fase final, disputada em julho de 1988, bateu a Dinamarca no primeiro jogo (2 a 0), caindo nas semifinais diante da União Soviética (3 a 0). Na decisão do terceiro lugar, uma vitória por 2 a 0 contra a Espanha confirmou a vaga no Mundial da Arábia Saudita.

Esta nova geração, entretanto, não era tão forte quanto a anterior, trazendo poucos nomes que teriam projeção futura tanto antes quanto após a reunificação. As exceções seriam os meias Steffen Freund e Sven Kmetsch, além do ponteiro Uwe Jähnig, que chegaria a jogar no Hamburgo, mas não defenderia a seleção alemã-oriental principal, nem a equipe unificada. Assim, o time acabou perdendo seus dois primeiros jogos de seu Grupo C no Mundial, para Brasil e Estados Unidos, ambos por 2 a 0, e já chegou eliminado à última rodada, quando aí sim finalmente venceu o fraco Mali por 3 a 0.

Eliminatórias Euro 88

Matthias Sammer e Rico Steinmann, dois destaques do meio-campo da seleção do Mundial sub-20 de 1987, estrearam pela equipe principal já durante o ciclo que culminaria na Eurocopa de 1988. No sorteio, realizado em fevereiro de 1986, os alemães viram suas chances de classificação se reduzirem bastante, ao caírem numa chave difícil: além de terem novamente pela frente a França, terceira colocada na Copa do Mundo do México, encarariam ainda a forte seleção da União Soviética. Noruega e Islândia, os azarões que completavam o grupo, também tinham potencial para tirar pontos dos favoritos, especialmente em casa.

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Os maus resultados obtidos nos amistosos ao longo daquele ano de 1986 também poderiam contribuir para um cenário desanimador: Afinal, depois de bater o México na cidade californiana de San José (2 a 1) e Portugal em Braga (3 a 1) nos jogos de fevereiro, a seleção sofreu nada menos que seis derrotas consecutivas (Holanda, Grécia, Brasil, Tchecoslováquia, Finlândia e Dinamarca, sendo a primeira e a última em casa, em Leipzig). Assim, o empate em 0 a 0 diante da Noruega em Oslo na estreia das Eliminatórias soou como um alívio, embora a equipe fosse pressionada durante boa parte do tempo.

A nova geração saiu então ao resgate da seleção no jogo seguinte, contra a Islândia em Karl-Marx-Stadt, em 29 de outubro. Andreas Thom aproveitou lançamento longo e tocou na saída do goleiro para abrir a contagem e, na etapa final, o mesmo Thom fez ótima jogada individual pela esquerda e serviu Ulf Kirsten para fechar a vitória por 2 a 0. A seleção francesa, próxima adversária, atravessava crise, mesmo contando com astros como Platini, Tigana, Papin e Amoros. Empatara com a Islândia em Reykjavik na estreia e fora batida pelos soviéticos em Paris por 2 a 0. Agora, tentaria em Leipzig recuperar o terreno perdido, enquanto os alemães precisavam vencer para continuar em igualdade com os soviéticos.

Nem uma coisa nem outra. Num jogo muito amarrado no meio-campo entre duas equipes com péssima pontaria, a melhor chance alemã veio numa bola desviada pelo defensor francês que quase surpreendeu o goleiro Bats. Pelo lado dos Bleus, Papin perdeu uma oportunidade inacreditável após jogada de mestre de Platini. O 0 a 0 foi ruim para ambos os lados, e os soviéticos terminariam 1986 na liderança do grupo. No início do ano seguinte, eles ainda ampliariam a vantagem no primeiro jogo: o confronto direto com a Alemanha Oriental em Kiev, no dia 27 de abril, vencido por 2 a 0 com gols de Belanov e Zavarov.

Naquela altura, os soviéticos já somavam sete pontos em quatro jogos, três a mais que alemães e franceses no mesmo número de partidas – vale lembrar sempre que a vitória valia dois pontos. Antes do novo confronto direto com a União Soviética marcado para outubro em Berlim, o time de Bernd Stange teria um jogo complicado contra a Islândia em Reykjavik e precisaria vencer, tanto para melhorar sua situação na tabela quanto para adquirir motivação para o duelo decisivo. E obteve um resultado histórico.

No primeiro tempo, depois de René Müller ter feito uma defesa sensacional à queima-roupa num ataque islandês, Ralf Minge aproveitou um rebote do goleiro Bjarni Sigurdsson para abrir o placar. E ainda naquela etapa, Andreas Thom ampliou com um balaço de fora da área. No segundo tempo, logo aos quatro minutos, uma cobrança de falta encontrou Thomas Doll na área, e o atacante só empurrou para as redes. O quarto gol saiu de outro chute de longe de Thom, que desviou na defesa.

No fim, ainda houve tempo para René Müller defender um pênalti, para o zagueiro Doschner ampliar em cobrança de falta e Thom completar seu hat-trick, fechando a goleada em 6 a 0 – até hoje, a maior derrota sofrida pela seleção islandesa jogando em casa. Entretanto, naquele mesmo dia 3 de junho de 1987, os soviéticos derrotaram a Noruega em Oslo por 1 a 0 e mantiveram os três pontos de frente em relação aos alemães no grupo.

Antes do confronto entre os dois ponteiros, a França saiu definitivamente da briga ao perder para a mesmo Noruega em Oslo por 2 a 0 e empatar com a União Soviética em Moscou por 1 a 1. Havia sido ultrapassada até pela Islândia, que venceu os dois jogos contra os noruegueses, embora também não tivesse mais chances matemáticas. Assim, uma vitória diante dos soviéticos era crucial para as pretensões dos alemães. E eles estiveram bem perto de conseguir: no fim do primeiro tempo, Ulf Kirsten recebeu na pequena área, driblou Dasaev e abriu o placar. Naquele momento, o time ficaria a um ponto do líder e com um jogo a menos. Porém, a dez minutos do fim, Aleinikov empatou, praticamente garantindo a vaga aos soviéticos.

O time de Bernd Stange precisaria agora de um milagre: vencer seus dois últimos jogos (Noruega em casa e França fora) e torcer por uma derrota improvável da União Soviética em Moscou para a Islândia. No dia 28 de outubro, fez sua parte, batendo os noruegueses por 3 a 1 em Magdeburg com dois gols de Kirsten e um de Thom. Mas no mesmo dia Igor Belanov e Oleg Protasov carimbavam o passaporte soviético para a Eurocopa marcando os gols da vitória de 2 a 0 sobre os islandeses.

Em 18 de novembro de 1987, a Alemanha Oriental entrou em campo no Parque dos Príncipes, em Paris, para conquistar uma grande vitória sobre a França, ainda que, para efeito de classificação, a partida não valesse mais nada para nenhuma das duas seleções. Embora os franceses acertassem a trave logo nos primeiros minutos, os alemães resistiram com inteligência, tenacidade e fôlego à pressão dos donos da casa – que contavam com Bruno Bellone e um jovem Eric Cantona como dupla ofensiva – e ainda colocaram o goleiro Joel Bats em perigo por vários momentos.

No minuto final, o zagueiro Döschner recuperou uma bola na intermediária defensiva de sua equipe, passou por dois franceses, cruzou a linha do meio-campo e arrancou, antes de dar um excelente passe para Ernst. O meia-atacante entrou na área, driblou Bats, limpou Basile Boli com outra bonita finta e tocou para as redes. Era o gol que coroava a boa campanha da equipe, ainda que a classificação ficasse mesmo nas mãos da forte União Soviética: foram quatro vitórias, três empates e apenas uma derrota – enquanto os decepcionantes franceses, em terceiro, bem distantes, superavam a Islândia só no saldo de gols.

Naquela vitória, o técnico Bernd Stange alinhou René Müller no gol, Ronald Kreer na lateral direita e Uwe Zötzsche pelo lado canhoto, o barbudo Dirk Stahmann como zagueiro central fixo, de sobra, e Matthias Döschner como defensor mais de saída, Hans-Uwe Pilz como volante organizador, Matthias Liebers como armador pelo lado direito fechando um pouco pelo centro e Rico Steinmann aberto pela esquerda como um ponta, Ralf Minge (depois Rainer Ernst) como homem de ligação do meio com o ataque, e Ulf Kirsten e Andreas Thom como dupla de frente.

Os clubes no cenário europeu

O momento de recuperação da seleção, mesmo sem obter a vaga na Eurocopa, também era acompanhado por alguns bons resultados dos clubes no cenário europeu depois de alguns anos sem conseguir chegar nas fases mais agudas das copas continentais. Primeiro foi o Lokomotive Leipzig, que chegou à final da Recopa na temporada 1986-87 após vencer a copa nacional no ano anterior. O time auriazul despachou o Glentoran, da Irlanda do Norte na primeira fase, o Rapid Viena (finalista do mesmo torneio dois anos antes) nas oitavas de final e o Sion nas quartas, antes de superar um time estelar do Bordeaux dirigido por Aimé Jacquet nos pênaltis, após vencer o primeiro jogo das semifinais na França.

Na decisão em Atenas, diante de um Ajax repleto de jovens talentos prestes a explodir, a derrota apertada por 1 a 0, gol de Marco Van Basten, evidenciou o potencial daquela geração. Daquele time, o goleiro René Müller, o lateral Ronald Kreer, o defensor Uwe Zötzsche e o meia Matthias Liebers vinham sendo titulares da seleção nas Eliminatórias da Eurocopa. E outros, como o defensor Matthias Lindner, o ponta Heiko Scholz e o meia Hans Richter, também apareceram esporadicamente. Richter, aliás, acabaria banido da seleção em 1987 por supostas orientações políticas “ocidentais”, conforme relatório atribuído ao técnico Bernd Stange, que também atuava extraoficialmente como informante da Stasi, a polícia política do regime.

Dois anos depois, seria a vez do Dynamo Dresden brilhar na Copa da Uefa. Na primeira fase, os aurinegros dirigidos por Eduard Geyer passariam por um bom time do Aberdeen, que ainda incluía remanescentes da equipe vencedora da Recopa de 1983. Em seguida, o adversário seria o belga Waregem, goleado na partida de ida em Dresden por 4 a 1, com direito a hat-trick de Ulf Kirsten. Na volta, mesmo perdendo por 2 a 1, os alemães-orientais avançaram. Nas oitavas, a Roma era um rival de respeito. Mas acabaria despachada com duas vitórias do Dynamo por 2 a 0, em casa e fora.

Nas quartas de final, mesmo tendo Kirsten expulso logo aos dois minutos, o Dynamo conseguiu arrancar um empate em 1 a 1 diante do Victoria Bucareste fora de casa. Na volta, uma goleada por 4 a 0, com dois gols de Torsten Gutschow e dois de Ralf Minge, selou a primeira classificação do clube a uma semifinal europeia. Por ironia, os aurinegros cairiam diante de um clube do outro lado do Muro, o Stuttgart de Guido Buchwald, Srecko Katanec e Jürgen Klinsmann. No jogo de ida, no Neckarstadion, vitória do time da casa por 1 a 0, gol de Karl Allgöwer. Na volta, em Dresden, o mesmo Allgöwer abriu o placar para os visitantes, enquanto Frank Lieberam empatou nos minutos finais, sem, no entanto, evitar a eliminação.

Além de Kirsten, outros três jogadores da equipe vinham sendo titulares da seleção nas Eliminatórias da Copa da Itália: o defensor Matthias Döschner e os meias Jörg Stübner e Matthias Sammer. Além deles, vários outros jogadores do clube – alguns já com longa trajetória na seleção – também participaram da campanha da Alemanha Oriental naquela fase classificatória para o Mundial, caso dos defensores Andreas Trautmann, Ralf Hauptmann e Frank Lieberam e dos meias Hans-Uwe Pilz e Ralf Minge. Por fim, o próprio técnico Eduard Geyer assumiria a seleção durante aquelas Eliminatórias.

Eliminatórias Copa 90

A última participação da seleção alemã-oriental numa Eliminatória começaria em 19 de outubro de 1988, contra a Islândia em Berlim. A equipe, agora treinada por Manfred Zapf, havia sido beneficiada no sorteio dos grupos para a fase de classificação ao Mundial da Itália: incluída no pote 2, mesmo sem ter disputado as três últimas Copas, teria novamente pela frente a União Soviética, favorita da chave, e a Islândia, além da Áustria e da Turquia. Um grupo acessível, ainda que com potenciais cascas de banana pelo caminho.

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Os islandeses, adversários da estreia, eram um dos motivos de atenção redobrada: nos jogos de abertura daquele Grupo 3, haviam empatado em 1 a 1 com os soviéticos em Reykjavik e depois surpreendido os turcos em Istambul pelo mesmo placar. Mas Andreas Thom resolveu a parada com dois belos chutes – um num rebote de escanteio e outro ao receber passe na meia-lua – para anotar o 2 a 0 no placar. O problema é que, depois disso, o time de Zapf encadeou uma sequência de resultados desastrosos.

A começar por perder ambas as partidas contra a Turquia, que fora incluída no último pote do sorteio e somara apenas um ponto em seus dois primeiros jogos no grupo. Em Istambul, o artilheiro Tanju Çolak marcou duas vezes e Oguz Çetin ampliou antes de Andreas Thom descontar no fim. As falhas defensivas se repetiram na partida de Magdeburg, já em abril de 1989, quando Çolak voltou a abrir o placar após uma cobrança rápida de falta e Ridvan, nos minutos finais, aproveitou-se de outra bagunça no setor, para concluir um contragolpe e dar a vitória aos turcos por 2 a 0.

Duas semanas depois, em Kiev, outra dura derrota. Os soviéticos se aproveitaram das mesmas falhas e chegaram aos 3 a 0 com facilidade ainda no primeiro tempo. Dobrovolski abriu o placar logo aos dois minutos num contra-ataque, Litovchenko ampliou aos 20, num chutaço de fora da área e Protasov, infiltrando-se no meio da zaga para receber um cruzamento, fechou a contagem aos 41. A chance de reabilitação viria em 20 de maio, diante da Áustria em Leipzig. Mas o que se viu foi outro tropeço.

Outra vez logo aos dois minutos, o centroavante Anton Polster abriu o placar para os austríacos. Os alemães ainda conseguiram salvar um ponto na base do abafa, quando Ulf Kirsten acertou um belo chute a três minutos do fim, mas não salvaram a cabeça de Manfred Zapf (ex-jogador do Magdeburg e da seleção nos anos 60 e 70), que deixou o cargo após a sequência de maus resultados. Com apenas três pontos ganhos em cinco jogos disputados, a seleção dependia de um milagre para se classificar ao Mundial.

O substituto de Zapf seria Eduard Geyer, comandante do Dynamo Dresden campeão da Oberliga e semifinalista da Copa da Uefa na temporada 1988-89. Famoso por seu estilo franco, sem papas na língua, e por exigir luta e dedicação máxima de seus comandados em campo, o novo treinador teve começo animador, embora apenas uma troca significativa na equipe tivesse sido feita: Dirk Heyne, do Magdeburg, assumiu a camisa 1 no lugar de Jörg Weißflog, do Wismut Aue.

O adversário era de novo a Islândia, agora em Reykjavik. Se os demais adversários do grupo vinham sofrendo na ilha (União Soviética e Áustria haviam empatado lá, enquanto a Turquia perderia mais tarde), os alemães tinham ainda vivas as lembranças dos históricos 6 a 0 na capital islandesa de dois anos antes. E a reação veio quando alguns de seus principais talentos voltaram a mostrar o jogo que haviam escondido nas partidas anteriores.

Matthias Sammer, um monstro de operosidade no meio-campo, abriu o placar aos dez minutos da etapa final apanhando um rebote de jogada aérea. Oito minutos depois foi a vez do toque de classe de Rainer Ernst, encobrindo o goleiro Fridriksson. E logo em seguida Thomas Doll, o substituto do lesionado Andreas Thom, fechou a contagem com um drible seco e um chute forte e cruzado. A equipe ganhava novo fôlego para o duelo crucial diante da União Soviética em Karl-Marx-Stadt, marcado para 8 de outubro.

O jogo foi tenso e bastante disputado, mas o placar seguia em branco até a metade do segundo tempo. Até que aos 29 minutos da etapa final, Protasov desceu pela ponta direita em velocidade e cruzou para Litovchenko acertar um chute espetacular de sem-pulo. Só que o time de Eduard Geyer não se deu por vencido. Aos 36, após escanteio, o goleiro Chanov saiu mal, e a bola sobrou para Kirsten cabecear na pequena área, com Thom ainda dando o último toque quando a bola já havia ultrapassado a linha.

E dois minutos depois, chegaria a virada que enlouqueceria o estádio Ernst Thälmann. Girando a bola de pé em pé, os alemães foram ao ataque e arriscaram um lançamento, mal afastado pela zaga soviética. Stübner, pelo lado direito, recolheu a sobra e cruzou de novo, à meia altura. Kirsten aparou com o peito, e Matthias Sammer, com fúria, chegou quase junto de Andreas Thom para encher o pé no chute rasteiro que entrou no canto esquerdo de Chanov. A vitória – aliada aos 3 a 0 aplicados pela Turquia sobre a então vice-líder Áustria em Istambul, semanas depois – recolocava definitivamente a seleção no páreo.

A última rodada seria disputada em 15 de novembro, seis dias depois da derrubada do Muro de Berlim. Com a Islândia já afastada da disputa, somando seis pontos com todos os seus jogos já realizados, o que restava era o equilíbrio. A União Soviética vinha em situação mais confortável, com nove pontos. Em Simferopol, recebia a Turquia, que somava os mesmos sete pontos de Áustria e Alemanha Oriental, que duelavam em Viena. Caso os turcos fossem derrotados, os alemães orientais precisariam apenas de um empate diante dos austríacos para irem à Copa, graças ao saldo de gols superior.

Os soviéticos venceram por 2 a 0, mas, no Praterstadion, os alemães orientais não fizeram sua parte diante dos austríacos. As esperanças começaram a ruir logo aos dois minutos, quando Polster, então em grande fase na seleção e em seu clube, o Sevilla, abriu o placar num chute de fora da área. Aos 22, o árbitro marcou pênalti inexistente de Dirk Stahmann em Christian Keglevits, que Polster converteu para ampliar. A chance de se recolocar no jogo veio ainda na primeira etapa em outra penalidade, desta vez de Ernst Aigner em Andreas Thom. O meia Rico Steinmann cobrou bem, mas Klaus Lindenberger voou para espalmar.

Na segunda etapa, aos 16 minutos, veio o golpe final: num lance iniciado em chance de gol desperdiçada pela Alemanha Oriental, a bola sobrou para Keglevits na meia direita. O atacante avançou e serviu Polster, que se livrou da marcação e bateu cruzado. A bola entrou bem no canto, completando o hat trick do centroavante e selando a vitória e a classificação austríacas para a festa em todo o estádio. O desfecho ainda fez com que a Alemanha Oriental terminasse num modesto quarto lugar no grupo, com a mesma pontuação dos turcos, mas bem atrás no saldo, e apenas um ponto à frente da lanterna Islândia.

1990, o último ano

As Eliminatórias para a Copa de 1990 representaram o fim da linha para vários jogadores que vinham sendo nomes frequentes na seleção pelos anos anteriores. René Müller, Ronald Kreer, Dirk Stahmann, Matthias Döschner, Frank Rohde, Hans-Uwe Pilz e Ralf Minge, todos com mais de 30 partidas pela equipe, fizeram seus últimos jogos durante aquele ciclo. Dessa forma, o técnico Eduard Geyer tinha como missão lapidar novos nomes para a disputa de uma nova fase de classificação que viria, a da Eurocopa de 1992. No sorteio dos grupos, realizado em 2 de fevereiro de 1990, uma surpresa: as duas Alemanhas, já em processo de reunificação, caíram no mesmo Grupo 5, ao lado de Bélgica, País de Gales e Luxemburgo.

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Um pouco antes, no fim de janeiro, a seleção viajou ao Kuwait para disputar um triangular com os donos da casa e a França. Nos dois jogos (derrota por 3 a 0 para os Bleus, que levariam o título, e vitória por 2 a 1 diante da seleção árabe), o treinador fez estrear cinco novatos, entre eles o goleiro Ronny Teuber, o líbero Andreas Wagenhaus e o atacante Uwe Rösler, além de trazer de volta o atacante Markus Wuckel (autor dos dois gols contra o Kuwait), de aparições esporádicas na seleção desde 1987, e dar sequência a nomes que despontaram no fim do ano anterior, como o zagueiro Hendrik Herzog e o meia Dariusz Wosz.

Apesar de não ter se classificado para o Mundial da Itália, a seleção seria ainda muito requisitada naquele primeiro semestre para amistosos preparatórios de seleções que iriam à Copa. E obteria ótimos resultados. No primeiro jogo, em 28 de março, vitória por 3 a 2 diante dos Estados Unidos em Berlim, com hat-trick de Ulf Kirsten. Nesta partida, mais novatos debutariam, todos no setor defensivo, como o líbero Heiko Peschke (que se tornaria o dono da posição naqueles jogos finais) e o lateral Dirk Schuster.

Em abril, seriam duas partidas. No dia 11, em Karl-Marx-Stadt, diante de um minguado público de apenas mil torcedores, a seleção recebeu o Egito e venceu bem por 2 a 0. Peschke abriu o placar numa cabeçada e Matthias Sammer completou ainda no primeiro tempo. Já no dia 25, a equipe iria ao Hampden Park, em Glasgow, onde bateria a Escócia por 1 a 0, gol de Thomas Doll convertendo pênalti sofrido por Ulf Kirsten na metade do segundo tempo. No mês seguinte, no dia 13, um desafio maior aguardava o time de Eduard Geyer: cruzar o Atlântico para encarar o Brasil de Sebastião Lazaroni no Maracanã.

O último amistoso da Seleção Brasileira antes do embarque para a Europa seria também o quarto confronto entre os times principais dos dois países na história. Além do duelo pela segunda fase da Copa do Mundo de 1974, vencido pelo Brasil por 1 a 0, gol de falta de Rivelino, a equipe canarinho também havia enfrentado os alemães-orientais em amistosos às vésperas das Copas de 1982 (vitória por 3 a 1 em 26 de janeiro no Castelão de Natal) e de 1986 (vitória por 3 a 0 em 8 de abril no Serra Dourada, em Goiânia).

Foi uma partida muito movimentada. No primeiro tempo, no entanto, o Brasil parou nas ótimas defesas do goleiro Perry Bräutigam (outro nome surgido na seleção no ano anterior), e a rede só balançou uma vez, aos 43 minutos, ironicamente com um gol de Alemão para o Brasil. Na etapa final, logo aos três minutos, a seleção visitante empataria em cabeçada de Thomas Doll. Depois de perder um gol incrível minutos antes, Careca se redimiria com uma testada que colocaria o time de Lazaroni de novo na frente. E três minutos depois, Dunga, em jogada individual, ampliaria o marcador.

Mas Eduard Geyer mexeu no time, mandando os alemães à frente, e a equipe reagiu, aproveitando-se de seguidas falhas de posicionamento da defesa brasileira. Numa delas, Taffarel conseguiu salvar a finalização de Ulf Kirsten, mas não o rebote que caiu aos pés de Rainer Ernst para descontar. Na outra, no último minuto, o rápido contragolpe só foi parado com falta de Mauro Galvão. Na cobrança de Rico Steinmann, a bola resvalou na barreira e fugiu do alcance do goleiro brasileiro, empatando o jogo.

Os amistosos, em tese, serviriam também de preparação dos alemães-orientais para as Eliminatórias da Eurocopa. O desenrolar dos fatos políticos, entretanto, acabou alterando os rumos da bola. Em 18 de maio, as duas Alemanhas assinaram um acordo de união monetária, econômica e social, que entrou em vigor no dia 1º de julho. Mais tarde, em 23 de agosto, o parlamento alemão-oriental aprovou uma resolução de anexação do país à República Federal Alemã. A formalização da unificação viria em 3 de outubro.

Diante disso, a tabela das Eliminatórias foi sensivelmente alterada: com a seleção oriental em vias de ser extinta, seus jogos foram excluídos do calendário, e a seleção unificada cumpriria os jogos marcados para a equipe ocidental. No entanto, sem tempo hábil de ser cancelada, a partida que seria a da estreia da Alemanha Oriental, contra a Bélgica em Bruxelas, foi convertida em amistoso e disputada em sua data prevista, 12 de setembro de 1990. O jogo que colocaria as duas Alemanhas frente a frente pela primeira vez desde o histórico jogo pela Copa de 1974, no entanto, não teve a mesma sorte: marcado para novembro e tornado um jogo festivo pela reunificação, acabou cancelado por temor de hooliganismo.

O time que enfrentaria a Bélgica já estava sensivelmente desfalcado de praticamente todos os jogadores que já haviam emigrado para o lado ocidental. Nada de Andreas Thom, Ulf Kirsten, Thomas Doll ou Rainer Ernst em campo. Apenas Matthias Sammer, agora jogador do Stuttgart, representava o êxodo. Por ironia, seria ele o autor dos dois gols na vitória por 2 a 0, aproveitando duas assistências de Heiko Bonan (que no ano seguinte seguiria para o Bochum). Outro dado que reflete essa sensação de desmanche era o fato de o técnico Eduard Geyer ter apenas três jogadores no banco de reservas (os belgas contavam com seis).

O Dynamo Dresden ainda mantinha sua força, mesmo naquele fim de era. Cinco jogadores do time titular pertenciam aos aurinegros: o zagueiro Andreas Wagenhaus, o lateral-esquerdo Detlef Schößler, o volante Jörg Stübner, o ponta-direita Heiko Scholz e o centroavante Uwe Rösler – os dois últimos, recentemente contratados do Lokomotive Leipzig e do Magdeburg, o que aumentava o poderio do Dynamo. Mas as demais antigas potências não tinham mais a mesma representatividade, enquanto clubes outrora pequenos, como o Energie Cottbus e o Chemie Halle, já conseguiam ver seus destaques incluídos.

Para o registro, aquela última Alemanha Oriental entrou em campo com o estreante Jens Schmidt, do Karl-Marx-Stadt, no gol (substituído nos minutos finais por outro debutante, o último da história da seleção, Jens Adler, do Chemie Halle). Na defesa, Wagenhaus e Schößler tinham a companhia do líbero Heiko Peschke, do Carl Zeiss Jena, e do lateral-direito Jörg Schwanke, do Energie Cottbus.

No meio, o volante Stübner jogou apenas 25 minutos, sendo substituído por Stefan Böger (Carl Zeiss Jena). Sammer era o organizador do setor, com Heiko Bonan (Dynamo Berlin) na ligação com o ataque. Pelos flancos, Heiko Scholz atuava pela direita e o baixinho e ágil Dariusz Wosz (outro do Chemie Halle), pela esquerda. Isolado na frente, Uwe Rösler era o homem de referência no ataque. Perto do fim, Torsten Kracht, do Lokomotive Leipzig, substituiu Scholz.

Jogadores que defenderam as duas seleções

Jogador considerado o mais promissor de sua geração do leste, o meia Matthias Sammer também se converteria em peça fundamental da seleção unificada. Depois de defender a equipe da Alemanha Oriental até a última partida de sua existência, estrearia pela Alemanha unida ainda em 1990, no dia 19 de dezembro, numa goleada de 4 a 0 diante da Suíça em Stuttgart – cidade, aliás, do clube ocidental que o contratara, em meados daquele ano.

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Dali por diante, o meia se firmaria como titular da equipe na Eurocopa de 1992 e na Copa de 1994. Seguindo os passos de Lothar Matthäus, trocaria o meio-campo pela função de líbero (posição na qual já vinha atuando em seu novo clube, o Borussia Dortmund) da seleção a partir de 1995, tornando-se o principal jogador no título alemão da Eurocopa no ano seguinte. Foi eleito o melhor jogador do torneio e recebeu ainda a Bola de Ouro da revista France Football como o melhor do continente em 1996.

Porém, enfrentando um crônico problema no joelho esquerdo a partir de 1997 (chegou a ser operado cinco vezes), fez sua última partida pela Nationalelf ainda naquele ano, ficando de fora da Copa do Mundo da França. Em clubes, também teve carreira vitoriosa: com o Stuttgart, venceu o primeiro campeonato pós-unificação em 1991/92. E no Borussia Dortmund, para onde iria após uma passagem sem brilho pela Inter de Milão, faria história ao conquistar mais duas Bundesligas, além da Liga dos Campeões em 1997.

Naquela partida contra a Suíça, em dezembro de 1990, na qual Sammer fez sua estreia pela Alemanha unificada, o meia foi substituído coincidentemente por outro jogador oriundo do leste, que também jogava pela primeira vez na nova equipe. O atacante Andreas Thom, que marcou um gol (o terceiro da Nationalelf no jogo) em seu primeiro toque na bola, já havia sido um pioneiro um ano antes, em dezembro de 1989, ao se tornar o primeiro jogador alemão-oriental a assinar com um clube da Bundesliga, quando trocou o Dynamo Berlim pelo Bayer Leverkusen.

Eleito o jogador do ano na Alemanha Oriental em 1988, Thom também se tornaria um dos principais nomes do clube das Aspirinas na primeira metade dos anos 90, levantando o título da Copa da Alemanha em 1993. Pela seleção unificada, faria 10 partidas, participando inclusive da Eurocopa de 1992, entrando em campo a dez minutos do fim da decisão contra a Dinamarca no lugar de Stefan Effenberg. Sua última partida pela Nationalelf viria em abril de 1994, às vésperas do Mundial dos Estados Unidos, do qual acabaria de fora.

Mas no ano seguinte, viria uma lucrativa transferência para o Celtic, pelo valor então recorde pago pelo clube. Após conquistar a Copa da Liga em 1997 e participar da campanha vitoriosa dos Bhoys na liga em 1998, encerrando uma longa hegemonia dos Rangers, o atacante retornou a Berlim, desta vez defendendo o Hertha, clube pelo qual encerrou a carreira em 2001.

No jogo seguinte ao da estreia de Sammer e Thom, contra a URSS já em 27 de março de 1991, foi a vez do terceiro jogador vindo do leste, o meia-atacante Thomas Doll, estrear pela seleção unificada. Armador que atuava na ligação entre o meio e o ataque, municiando o setor ofensivo, disputou cinco das seis partidas da Alemanha pelas Eliminatórias da Eurocopa de 1992, sendo quatro delas como titular. Marcou também um gol na decisiva vitória de 4 a 1 sobre o País de Gales em Nürnberg.

Na ocasião, Doll já havia deixado o futebol alemão, contratado pela Lazio. Revelado pelo Hansa Rostock, defendera o Dynamo Berlim até 1990, quando se transferiu para o Hamburgo. Disputou só uma temporada pelos hanseáticos e logo embarcou para a Itália. Após um bom primeiro ano como titular, passou a ter de disputar espaço na equipe com a vinda de Paul Gascoigne e Aron Winter. No meio da terceira campanha com os laziali, voltou à Alemanha para atuar no Eintracht Frankfurt. Mais tarde, teria nova passagem pelo Calcio, defendendo o Bari, antes de encerrar a carreira jogando outra vez pelo Hamburgo.

Na Euro 92, Doll começou jogando na estreia da Alemanha na Euro 92, contra a Comunidade dos Estados Independentes (CEI, ex-URSS). Sacado do time para a entrada de Matthias Sammer, retornou como substituto na semifinal contra a Suécia, no lugar de Jürgen Klinsmann, e na final contra a Dinamarca, entrando no intervalo, dessa vez no posto de Sammer. Seu último jogo pela seleção viria em março do ano seguinte, contra a Escócia em Glasgow.

Mas nenhum jogador fez mais partidas somadas pelas duas seleções do que o atacante Ulf Kirsten: foram 49 pela Alemanha Oriental, entre maio de 1985 e maio de 1990 (no amistoso contra o Brasil no Maracanã) e outras 51 com a equipe unificada, pela qual só estreou em outubro de 1992 – ficando de fora, portanto, da Eurocopa daquele ano – e disputou sua última partida na derrota para Portugal pela Euro 2000, em junho daquele ano. Ou seja, exatos 100 jogos, com 34 gols ao todo (divididos em 14 pelo lado oriental e 20 pela seleção unificada).

Um dos astros do Dynamo Dresden, pelo qual estreou em 1983, Kirsten chegou à seleção principal da Alemanha Oriental com apenas 19 anos. No ano da reunificação, pouco depois de ser eleito o melhor jogador da temporada na Oberliga, trocou os aurinegros pelo Bayer Leverkusen, clube que defenderia pelo resto da carreira, até 2003, e do qual se tornaria o maior goleador na história. Pelo time das aspirinas, seria ainda três vezes artilheiro da Bundesliga e finalista da Liga dos Campeões em 2002. Já pela seleção unificada, disputaria as Copas do Mundo de 1994 e 1998, além da Eurocopa de 2000.

Um caso curioso foi o do atacante Olaf Marschall: o jogador do Lokomotive Leipzig disputara apenas quatro partidas pela seleção da Alemanha Oriental, todas elas como substituto, e em períodos espaçados (uma em março de 1985, outra em março de 1987 e as duas últimas em fevereiro e março de 1989). Pouco antes da reunificação, transferiu-se não para o outro lado do antigo muro, mas para a Áustria, onde defendeu o Admira Wacker. Voltaria em 1993 para defender outro clube do velho lado oriental, o Dynamo Dresden, na Bundesliga. No ano seguinte, seus gols valeram por fim uma transferência para o Kaiserslautern, seu primeiro clube da antiga Alemanha Ocidental.

No Kaiserslautern, foi convocado pela Nationalelf em outubro de 1994, entrando nos cinco minutos finais de um amistoso com a Hungria em Budapeste. Quando parecia esquecido, ressurgiu na lista do técnico Berti Vogts no fim de 1997, em meio a uma excelente fase no clube, que culminaria no título da Bundesliga em maio de 1998. Acabou levado para a Copa do Mundo daquele ano, entrando durante a partida contra a Croácia pelas quartas de final. Foi presença constante na seleção até sua última partida, em julho de 1999, contra a Nova Zelândia pela Copa das Confederações. Ao todo, fez 13 jogos e marcou três gols pela equipe unificada.

Nascido na Polônia, o meia Dariusz Wosz imigrou aos 13 anos com sua família para a Alemanha Oriental. O talento como armador já chamava a atenção desde as divisões inferiores de seu clube, o pequeno Chemie Halle, e das seleções de base, destacando-se inclusive no Mundial Sub-20 disputado no Chile em 1987, mesmo ano em que seu clube foi promovido para a Oberliga. A estreia na seleção principal veio em março de 1989, num amistoso contra a Finlândia. Até a extinção da seleção, o meia disputaria outros seis jogos, incluindo o derradeiro, contra a Bélgica em Bruxelas, em setembro de 1990.

Depois de disputar a Copa da Uefa por seu clube, agora rebatizado Hallescher FC, na temporada 1991-92, o meia se transferiu ainda durante aquela campanha para o Bochum. Sem alarde, comandou o meio-campo dos alviazuis por vários anos até começar a ser novamente notado no fim de 1996. Ganhou enfim sua chance na Nationalelf, estreando em fevereiro de 1997 num amistoso contra Israel no Ramat Gan. Os alemães venceram por 1 a 0, gol do meia. O bom momento no clube – que ficaria em quinto na Bundesliga 1996-97 e chegaria às oitavas da Copa da Uefa na temporada seguinte – o levou ao Hertha Berlim.

Enquanto isso, na seleção, Wosz participou do ciclo que culminaria na Copa do Mundo de 1998, mas não fez parte da lista final de convocados. Entretanto, seguiu na seleção após o Mundial e integrou o elenco que disputou a Eurocopa de 2000, ainda que sem entrar em campo nenhuma vez naquele torneio. Seu 17º e último jogo pela Alemanha viria logo depois, em novembro, num amistoso contra a Dinamarca em Copenhague. No ano seguinte, ele retornaria ao Bochum, onde encerraria a carreira.

Os outros dois nomes que atuaram tanto pela Alemanha Oriental quanto pela equipe unificada não chegaram a disputar nem uma dezena de jogos por nenhuma das duas, mas valem ser citados. Jogador ofensivo que atuava pelo lado direito do campo, como ala, meia ou ponta, Heiko Scholz foi revelado pelo Chemie Leipzig, mas sua carreira deslanchou após se transferir para o vizinho Lokomotive. Fez sete partidas pela seleção do leste entre 1987 e 1990, ano em que seguiu para o Dynamo Dresden. Sua única partida pela equipe unificada veio em outubro de 1992, num amistoso contra o México, pouco depois de chegar ao Bayer Leverkusen. Sem chegar a se firmar, iria para o Werder Bremen em 1995, onde também não se manteve como titular. Após rodar por clubes menores, pendurou as chuteiras em 2000.

Um dos estreantes do último ano de existência da seleção alemã-oriental, o defensor Dirk Schuster defendia o Magdeburg quando entrou em campo no amistoso contra os Estados Unidos, em abril de 1990. Atuou outras três vezes pela seleção – incluindo o amistoso contra o Brasil no Maracanã em maio – antes de, no meio do ano, ser negociado com o Braunschweig, então disputando a 2.Bundesliga. Na temporada seguinte, chegou ao Karlsruher, onde permaneceu por seis anos e pelo qual chegou à seleção unificada, disputando três partidas entre outubro de 1994 e fevereiro de 1995. Mais tarde, seguiria para o Colônia, e dali para clubes da Turquia, Áustria e divisões inferiores do futebol alemão.

Destaques do lado leste que não chegaram à seleção unificada

Se poucos jogadores da derradeira geração do lado oriental tiveram a oportunidade de defender a equipe unificada, as carreiras dos demais nomes frequentes na seleção extinta tomaram os mais diversos rumos. Alguns se ambientaram ao novo contexto com mais tranquilidade, mantendo-se como nomes regulares em clubes da elite da Bundesliga, como Rico Steinmann, Ralf Hauptmann (ambos no Colônia), Heiko Bonan (Bochum e Karlsruher), Frank Rohde (Hamburgo e Hertha Berlim), Hendrik Herzog (Schalke, Stuttgart e Hertha Berlim), Heiko Peschke (Bayer Uerdigen), Burkhard Reich (Karlsruher) e Torsten Kracht (Stutttgart, Bochum e Eintracht Frankfurt), entre outros.

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Alguns se aventuraram até mesmo fora das (novas) fronteiras alemãs: o meia-atacante Rainer Ernst, quarto maior artilheiro da seleção na história, foi campeão da Bundesliga pelo Kaiserslautern logo que trocou o Dynamo Berlim pelo lado ocidental, mas logo em seguida mudou-se para a França, onde defendeu Bordeaux e Cannes. O futebol francês também foi o destino do defensor Uwe Zötzsche, que deixou o Lokomotive Leipzig rumo ao Racing Strasbourg, em 1990.

Último nome a ser eleito o Jogador do Ano na Alemanha Oriental, em 1991, o atacante Torsten Gütschow trocou o Dynamo Desden pelo Galatasaray no ano seguinte, mas ficou por pouco tempo no futebol turco. Já o centroavante Uwe Rösler, do Magdeburg, um dos que estrearam na seleção oriental em 1990, defendeu o Manchester City por cinco temporadas em meados da década, e seu faro de artilheiro o transformou em ídolo. Mais tarde, passou por Southampton e West Bromwich Albion.

Houve quem preferisse ficar em seu clube, mesmo que isso representasse descer às divisões regionais da nova liga, como foi o caso do defensor Dirk Stahmann, que permaneceu no Magdeburg até 1994. Ou mesmo simplesmente encerrar a carreira logo após a unificação: o atacante Ralf Minge, 36 jogos e oito gols pela DDR, pendurou as chuteiras aos 30 anos após defender o Dynamo Dresden na derradeira temporada da Oberliga. Outro decano da seleção, o lateral-direito Ronald Kreer, do Lokomotive Leipzig, aposentou-se após jogar apenas uma temporada na 2.Bundesliga pelo seu antigo clube, agora rebatizado VfB Leipzig.

Outro nome histórico do Lokomotive Leipzig, o defensor Matthias Lindner (22 jogos pela seleção) foi ainda mais longe: ficou no clube até 1997, quando saiu após 14 anos para defender outros dos clubes do antigo lado socialista: o Carl Zeiss Jena e o Sachsen Leipzig, rival de seu antigo clube. Titular da seleção em parte das Eliminatórias para a Copa de 1990, o goleiro Jörg Weißflog também continuou no pequeno Wismut Aue após a reunificação, quando o clube passou a se chamar Erzgebirge Aue. Já o meia Hans-Uwe Pilz, bastião do Dynamo Dresden, teve rápida passagem pelo Fortuna Köln, mas logo retornou ao aurinegro.

Por fim, algumas carreiras tiveram desfecho bem mais melancólico: nome certo na seleção da Alemanha Oriental no período, o meia Jörg Stübner era um dos mais destacados de sua geração. Era também o patrão do meio-campo do Dynamo Dresden bicampeão da Oberliga e semifinalista da Copa da Uefa em 1988-89. Com a nova realidade, seu status mudou completamente: fez apenas cinco partidas por seu clube na temporada de estreia na Bundesliga, não obteve propostas de equipes do lado ocidental e, aos 27 anos, reverteu ao amadorismo. Enfrentando graves problemas financeiros e o alcoolismo, chegou a tentar suicídio. Em 2004, em entrevista ao Bild, seu depoimento amargo revelou o outro lado da nova realidade para a maioria menos lembrada dos atletas do antigo lado leste: “Se a reunificação da Alemanha nunca tivesse acontecido, eu teria família, filhos e um cargo de treinador”.

Jogadores que só despontaram após a unificação

O oposto também aconteceu: jogadores que chegaram a disputar a Oberliga sem muito destaque, mas que dariam um salto na carreira ao se transferirem para o lado ocidental. O caso mais emblemático é o do meia Steffen Freund. Revelado pelo Stahl Brandenburg, jogaria pelo clube as três últimas temporadas da elite da da antiga liga alemã-oriental, transferindo-se em 1991 para o Schalke 04. De lá, sairia para o rival Borussia Dortmund, onde atuaria por cinco anos, conquistando duas Bundesligas e uma Liga dos Campeões.

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Em 1998, dois anos depois de vencer a Eurocopa com a seleção alemã unificada, disputou também a Copa do Mundo pelo país, totalizando 21 partidas com a camisa da Nationalelf. Em seguida, transferiu-se para o Tottenham, onde se converteria em ídolo, permanecendo por mais cinco temporadas e levantando uma Copa da Liga. No fim da carreira, ainda passaria rapidamente por Kaiserslautern e Leicester City.

Outro jogador originário do lado oriental com participação em Copa do Mundo e Eurocopa pela seleção unificada no currículo é o zagueiro Thomas Linke, que estreou pelo time de cima do Rot-Weiss Erfurt na Oberliga em 1989. Após a reunificação, destacou-se numa vitória de sua equipe (relegada à 2.Bundesliga) sobre o Schalke 04 pela Copa da Alemanha e acabou contratado pelos Azuis Reais na temporada seguinte. Pelo clube de Gelsenkirchen, conquistaria a Copa da Uefa de 1997 e chegaria à seleção.

Contratado pelo Bayern de Munique, levantaria outro título europeu, desta vez o da Liga dos Campeões em 2001, além de expressivas cinco salvas de prata da Bundesliga. A boa forma pelos bávaros valeu ao zagueiro a presença nas seleções alemãs que disputariam a Euro 2000 e a Copa do Mundo de 2002, na qual seria finalista, perdendo o título para o Brasil, e inclusive marcaria um gol no massacre de 8 a 0 da Nationalelf sobre a Arábia Saudita, ainda na primeira fase.

Companheiro de Steffen Freund na seleção sub-20 da Alemanha Oriental que disputou o Mundial da categoria em 1989 e parte integrante do elenco do Dynamo Dresden que venceu a dobradinha nacional em 1989-90, o meia Sven Kmetsch permaneceu no clube quando este foi admitido na Bundesliga. Com a queda dos aurinegros em 1995, Kmetsch conseguiu permanecer na elite ao ser contratado pelo Hamburgo. A boa temporada 1996-97 pelos hanseáticos o levou à seleção já unificada, participando do ciclo que culminaria na Copa do Mundo da França. O jogador não seria convocado para o Mundial, mas ganharia uma transferência para o Schalke 04, onde encerraria a carreira em 2005.

Reserva pouco utilizado na campanha do título do Dynamo Dresden na Oberliga em 1989, o defensor Thomas Ritter acabou cedido logo em seguida ao pequeno Fortschritt Bischofswerda, que disputou em 1989-90 apenas a sua segunda temporada na elite local em sua história. Embora também tenha jogado pouco, recebeu uma proposta de se transferir para o Stuttgart Kickers. Foi quando iniciou seu auge: com os azuis, obteria o acesso à elite da Bundesliga.

Após a temporada na primeira divisão, chamaria a atenção do Kaiserslautern, pelo qual seria contratado em 1992 e chegaria ao vice-campeonato alemão em 1993-94. Durante aquela temporada, disputaria sua única partida pela seleção unificada, substituindo o meia Steffan Effenberg perto do fim do jogo na goleada de 5 a 0 sobre o Uruguai num amistoso em Karlsruhe.

Por fim, há o caso curioso do zagueiro Marko Rehmer, que iniciou sua carreira no Union Berlin, chegando ao time de cima na derradeira temporada do futebol alemão-oriental, em 1990-91. O defensor fez apenas uma partida pelo clube na DDR-Liga, a segunda divisão da antiga Oberliga, mas permaneceu na equipe após a unificação do campeonato, jogando as categorias inferiores. Até ser contratado, no início de 1997, pelo Hansa Rostock, equipe do antigo lado oriental, mas já plenamente integrada ao nível da elite da Bundesliga.

Em setembro de 1998, Rehmer seria convocado para amistosos da seleção alemã já unificada. Em meados do ano seguinte, retornaria a Berlim, desta vez para defender o Hertha. Permaneceria por seis temporadas, consolidando-se paralelamente também como jogador de seleção. Seria titular durante o ciclo da Euro 2000 e disputaria também a Copa do Mundo de 2002, entrando em campo pela última vez com a camisa da Nationalelf em outubro de 2003. Após enfrentar vários problemas físicos, encerraria a carreira defendendo o Eintracht Frankfurt por duas temporadas, pendurando as chuteiras em 2007.

Quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.