“Eu morri junto com o Parma e com o Parma quero renascer”.

A frase de Alessandro Lucarelli não veio no calor do momento. Já haviam se passado algumas semanas desde que o Parma entrara em processo falimentar e, refundado, reiniciaria sua trajetória na quarta divisão do Campeonato Italiano. Naquela época, em julho de 2015, estabeleciam-se as bases da nova instituição. E o zagueiro certamente seria uma delas. Contratado pelo clube em 2008, não pegou exatamente o auge dos gialloblù, mas acompanhou de muito perto o cotidiano definhante. O capitão era o líder que lutava por jogadores e funcionários diante das dificuldades econômicas. Após a derrocada, seguiria lutando por eles, e principalmente pelos torcedores. Aos 38 anos recém-completados, não teria mais tanto tempo de carreira pela frente. Ainda assim, caminharia junto.

VEJA TAMBÉM: A fênix renasce: Como foi a marcha triunfal do Parma, da falência ao retorno à Serie A

Lucarelli sempre foi um idealista por natureza. A liderança aprendeu em casa, filho de um estivador, que participava das lutas para melhorar as condições de vida dos trabalhadores de sua classe. Algo que carregou consigo e fez valer durante a quebra do Parma. Na temporada 2014/15, quando o cenário era insustentável, o defensor comandou um boicote. Os jogadores do Parma se recusariam a entrar em campo contra o Genoa, em protesto ao desinteresse da direção e das instituições responsáveis pelo futebol italiano quanto à situação do clube. No fim das contas, com a mobilização da liga e da federação, os gialloblù aceitaram jogar. Mas estava claro o entrave, entre desmandos e negligências que levaram a agremiação ao buraco.

“A falência do Parma significa mandar para casa pelo menos 200 famílias que dependem dos empregos no clube. Eu não estou pensando nos jogadores, mas naqueles que recebem mil euros por mês. Nós sentimos essa responsabilidade sobre os nossos ombros”, contou Lucarelli, à Gazzetta dello Sport em fevereiro de 2015. “Entretanto, o tempo já passou. A ideia de entrar em concordata ficou para trás. Estamos trabalhando com a associação de jogadores, a federação italiana e a prefeitura. Iremos começar diretamente o processo de bancarrota. Temos que acelerar esse processo para, pelo menos, salvar o nosso status como um clube de futebol”.

“Estou preparado para permanecer no Parma mesmo na liga amadora e continuar usando a braçadeira. O Parma está dentro de mim agora”, concluía. E permaneceu, independentemente das propostas para continuar atuando profissionalmente. Lucarelli estava no Parma não por dinheiro ou por glórias, mas por um dever. Pela relação carnal que criou com a camisa. Por aquilo que representava à torcida, a face que oferecia esperança.

Lucarelli foi o único jogador presente na Serie A que disputou também a Serie D. O Parma conquistou o acesso com folga. Já na Lega Pro, a Serie C, os gialloblù não sobraram tanto assim. Ficaram na segunda colocação de seu grupo regional, embora só a primeira concedesse a promoção. Desta maneira, tiveram que disputar os playoffs, em mata-matas com outros 26 times, no qual só o campeão subiria à segundona. Pois o capitão, mais do que estar presente, apesar de problemas físicos, fez a diferença. Converteu o pênalti que determinou a vaga na final e, após a vitória sobre a Alessandria na decisão, ergueu a taça que representava o acesso.

“Foi um acesso conquistado com os dentes. Só nós sabemos o que passamos nos vestiários. Mas resolvemos todos juntos superar as dificuldades e seguimos em frente provando que temos coração”, declarou, há um ano, quando o feito se concretizou. O futuro do capitão, no entanto, era incerto. Lucarelli tinha contrato até o final da temporada e, às vésperas de completar 40 anos, não garantia sua presença na Serie B. “Sobre o meu futuro, quero ter um pouco de descanso e então vou conversar com a minha família. Se fosse pelo meu irmão Cristiano, eu não teria nem disputado a Serie D, para não manchar a carreira. Pelo contrário, eu sempre confiei na reconstrução do Parma, mesmo que o reinício do clube após a falência fosse incerto. É um milagre que se repaga a nós”, avaliava.

O fico de Alessandro Lucarelli foi uma notícia recebida com festa no Estádio Ennio Tardini. A Serie B representava o terceiro passo na sua caminhada. De novo, o zagueiro se manteve como um personagem central. Disputou 32 das 42 rodadas da segundona, quase sempre como titular e com a braçadeira. Contribuiu com três gols e uma assistência – esta, no confronto direto com o Palermo, um dos principais concorrentes na tabela. Já nesta sexta, esteve em campo durante os 90 minutos contra o Spezia, na vitória por 2 a 0 que selou a conquista. Após o apito final, comemorou feito um menino, ainda mais com a notícia de que o Frosinone apenas empatara e os gialloblù tomavam a segunda colocação justo na última rodada, carimbando a ascensão. O capitão, líder como sempre, puxava os cânticos junto com a torcida que pegou a estrada para ver a façanha. Entre eles, estava vivo como sempre. Tão vivo quanto o Parma.

“Eu fiz uma promessa. Eu disse que traria o Parma de volta à Serie A. Eu cumpri a minha promessa”, disse Lucarelli, às lágrimas, em entrevista à Sky Sports. “Isso não pode ser real, é impossível. Ninguém poderia imaginar um final assim, nem mesmo nos meus sonhos mais malucos. Os outros estavam comemorando, então ouvimos um grande grito da nossa torcida. Eu não sabia o que tinha acontecido. Essa é uma jornada que iniciamos há três anos, diante destes torcedores fantásticos. Tivemos momentos difíceis, mas sempre nos recuperamos. Os rapazes nunca desistiram e tenho orgulho de ter sido o seu capitão”.

A firmeza de julho de 2015, contudo, não se viu quando Lucarelli foi perguntado se continuará para a Serie A: “Agora eu posso parar. Não sei o que vai acontecer, veremos. Neste momento, eu só quero comemorar”. Com quase 41 anos, um quarto deles dedicados ao Parma, o capitão está em seu direito. A renovação de seu contrato mais uma vez será assunto para daqui algumas semanas. Agora, ele deve desfrutar. A promessa não foi em vão.

E a noite do veterano certamente não terá fim. Logo após o acesso, uma multidão tomou a Praça Garibaldi, principal cartão postal de Parma. No meio dos milhares de gialloblù ensandecidos, há uma estátua de Giuseppe Garibaldi, herói da unificação do país. Quando se depararem com a figura imponente talhada em metal, talvez alguns pensem que, em seu lugar, um tributo a Alessandro Lucarelli seria mais justo, ao menos por esta noite. Por sorte, o zagueiro não está lá, estático, sem vida. Melhor ver o capitão em carne, osso, sangue fervente e coração aberto, incorporando todas as paixões e anseios da torcida. A imagem do camisa 6 vibrante, imortalizada ou não em bronze, sempre será eterna aos que acreditaram em suas palavras.