É costumeiro entre historiadores ou fãs do futebol conjecturar como teriam sido as Copas do Mundo canceladas em virtude da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e delinear a trajetória de todas as grandes seleções e craques vencedores em potencial das duas edições que nunca aconteceram. Vários nomes históricos da bola não tiveram a oportunidade de mostrar seu talento em um Mundial e acabaram menos lembrados por isso, assim como algumas coisas mudaram no ordenamento de forças antes e depois da guerra.

Alheios, de certa forma, a isso tudo estavam o suíço Alfred Bickel e o sueco Erik Nilsson. Os dois únicos jogadores a participarem tanto da última Copa antes de deflagrado o conflito (a de 1938, na França) quanto do primeiro após o fim dele (em 1950, no Brasil). Curiosamente, os dois defendiam seleções de países que se mantiveram neutros dentro do embate bélico. E ambos enfrentaram o Brasil no Mundial disputado aqui, ainda que com resultados bem diferentes. Contamos a seguir as carreiras desses dois nomes históricos das Copas do Mundo, ainda que bem pouco lembrados ou mesmo conhecidos. Personagens que vêm à tona às vésperas do duelo entre Suécia e Suíça, pelas oitavas de final da Copa de 2018.

Alfred Bickel

Nascido em 12 de maio de 1918, perto do fim da Primeira Guerra Mundial, na cidade alemã de Eppstein, Alfred Bickel deu seus primeiros passos no futebol já na vizinha Suíça, defendendo na adolescência o Seebach, clube de bairro de Zurique. Em novembro de 1935, aos 17 anos, seria levado ao Grasshoppers, onde viveria toda a sua longeva carreira profissional. Mais ou menos na mesma época, chegava ao clube o técnico austríaco Karl Rappan, famoso inventor do chamado “ferrolho”, estilo defensivo que ficaria profundamente atrelado ao futebol helvético.

Mas Bickel conseguiu se destacar como atacante, estreando muito bem na equipe principal dos alviazuis na temporada 1935/36, balançando as redes 15 vezes em 20 partidas. A chegada à seleção suíça também não tardaria: em junho de 1936, a equipe nacional faria dois amistosos na Escandinávia. O primeiro deles, um triunfo por 2 a 1 diante da Noruega em Oslo, marcaria a estreia do garoto de 18 anos, atuando na ponta-direita. Três dias depois, ele anotaria seu primeiro gol, na derrota por 5 a 2 para a Suécia em Estocolmo.

Na campanha seguinte, ele levantaria seus primeiros títulos, com a dobradinha de liga e copa nacionais feita pelo Grasshoppers. Também naquela temporada, ele disputaria suas primeiras partidas de competição pela seleção suíça, na prestigiosa Copa Internacional da Europa Central, torneio que reunia, além dos helvéticos, Itália, Hungria, Áustria e Tchecoslováquia. A edição que se estendeu por dois anos, entre 1936 e 1938, acabou interrompida pela anexação da Áustria pela Alemanha nazista, a chamada “Anschluss”, ocorrida em 12 de março de 1938.

A anexação também impactaria na Copa do Mundo de 1938, disputada na França. Classificados para a disputa, os austríacos não puderam enfrentar a Suécia na primeira fase. Boa parte de seus craques foi incorporada à seleção alemã, que teria pela frente justamente a Suíça na rodada inicial. A expectativa era de um fácil triunfo da Nationalelf, uma vez que a equipe, terceira colocada no Mundial anterior, ficara ainda mais forte.

Mas os suíços já haviam mostrado potencial para surpreender meses antes, quando bateram a Inglaterra – então desligada da Fifa, mas ainda uma equipe temida no continente – por 2 a 1 num amistoso em Zurique. Seu técnico agora era o mesmo Karl Rappan que dirigia o Grasshoppers. E ele deu a Fredy Bickel uma função tática que fez a diferença no jogo: de centroavante goleador, o jogador passaria a atuar recuado, saindo da área, buscando jogo e abrindo espaços para a chegada dos outros homens de frente, como o meia-esquerda André Abegglen. Deu certo.

No dia 4 de junho, no estádio do Parc des Princes, em Paris, os alemães entraram em campo reforçados por cinco austríacos, obrigados a fazer o gesto nazista da mão espalmada enquanto perfilados. E saíram na frente com um gol de Josef Gauchel. Os suíços, por sua vez, escalaram seis jogadores do Grasshoppers, entre eles Bickel, mais Abegglen, que havia defendido o clube de Zurique, mas agora jogava ali mesmo na França pelo Sochaux. E empataram justamente com Abegglen, ainda antes do fim da primeira etapa.

Bickel ainda teve uma ótima chance de dar a vitória à Suíça, mas seu voleio foi salvo de maneira magistral pelo goleiro Raftl, um dos austríacos da Alemanha. Na prorrogação o empate persistiu, obrigando as duas equipes a retornarem ao mesmo estádio no dia 9 para a partida de desempate. Os alemães voltaram com seis alterações, que pareciam ter compensado já que o time abriu dois gols de frente em menos da metade do primeiro tempo. Os suíços, que escalaram o mesmo time, descontaram ainda na etapa inicial, mas perderam temporariamente o ponteiro Aeby, lesionado.

Pouco depois de ele voltar a campo, Bickel marcaria o gol de empate aos 19 minutos, tocando na saída do goleiro Raftl, para recolocar a Suíça no jogo. A vitória histórica e surpreendente seria sacramentada com dois gols de Abegglen, aos 30 e aos 33 minutos. Seria, até 2018, a única vez em que a Alemanha cairia numa primeira fase de Copa do Mundo. Nas quartas, porém, os suíços não resistiram aos húngaros, que venceram por 2 a 0, seguindo seu caminho rumo à final, na qual seriam batidos pela Itália. “Fredy” Bickel, no entanto, sairia consagrado, apontado informalmente como o melhor jogador jovem daquela Copa do Mundo.

A declaração da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939, teria amplo impacto no futebol internacional. Mas, diferentemente do que ocorreu nos países europeus mais envolvidos no conflito, o jogo doméstico não foi interrompido na neutra Suíça. Assim, Bickel pode continuar a levantar troféus pelo Grasshoppers. Ao longo da carreira, foram sete títulos do campeonato nacional e nove da copa (incluindo um tetra entre 1940 e 1943). Mas o feito mais impressionante seria voltar a participar de uma Copa do Mundo pela seleção, após o conflito bélico.

O atacante não havia sido convocado para os dois jogos contra Luxemburgo realizados em junho e setembro de 1949, que valeram a passagem para a Copa do Mundo do Brasil. O técnico dos helvéticos, Franco Andreoli, só voltaria a contar com o experiente jogador, prestes a completar 32 anos, às vésperas do Mundial, num amistoso contra a Escócia em Glasgow em abril de 1950, após mais de um ano de afastamento. Curiosamente, Bickel atuou na ponta-direita, a mesma posição na qual havia feito sua estreia no time nacional, quase 14 anos antes.

No Mundial do Brasil, 12 anos depois de sua última Copa, o atacante disputou duas das três partidas da seleção helvética pelo difícil Grupo 1, sendo o capitão em ambas. Na estreia, em 25 de junho, contra a Iugoslávia, uma derrota por 3 a 0 no Independência, em Belo Horizonte, com o placar sendo mexido apenas a partir dos 15 minutos da etapa final. O segundo jogo, três dias depois no Pacaembu, a equipe fez sua grande exibição, arrancando um surpreendente empate em 2 a 2 com o favorito Brasil. Porém, para o terceiro jogo, contra o México nos Eucaliptos, em Porto Alegre, Bickel perderia o lugar no time, que venceria por 2 a 1.

O atacante ainda voltaria ao Brasil dois anos depois, agora defendendo o Grasshoppers na Copa Rio de 1952, também como capitão e uma das referências técnicas da equipe que enfrentou Fluminense, Peñarol e Sporting, perdendo apertado os três jogos. Na partida em que os tricolores venceram por 1 a 0 no Maracanã, Bickel chegou a ter um pênalti defendido pelo goleiro Castilho. Seu prestígio, entretanto, manteve-se intacto em seu país: no ano seguinte, seria o primeiro jogador de futebol a receber o prêmio de esportista suíço do ano.

Em maio de 1954, assim como às vésperas do Mundial do Brasil, reapareceria de última hora na seleção, dessa vez após uma ausência de quase três anos, em um amistoso contra a Holanda, disputado em Zurique, no estádio Hardturm, do Grasshoppers. Os helvéticos venceram por 3 a 1, com três gols de Roger Vonlanthen. Aos 36 anos, Bickel entrou logo aos dez minutos de jogo na ponta direita, no lugar do lesionado Charles Antenen.

Aquela, porém, seria sua última partida com a “Nati”: apesar de sua boa atuação, seu velho conhecido Karl Rappan, novamente no comando da seleção, decidiria não conceder a ele mais uma participação em Copa do Mundo, justamente a disputada em solo suíço. Ao todo, seriam 71 jogos e 15 gols pela equipe nacional, ao longo de 18 anos de bons serviços prestados.

Fredy Bickel encerraria a carreira de jogador no Grasshoppers dois anos depois, levantando mais uma dobradinha nacional com o clube. Posteriormente, chegaria a treina-lo em duas ocasiões. E faleceria em Eppstein, a mesma cidade alemã onde nascera, em agosto de 1999, aos 81 anos.

Erik Nilsson

Quase dois anos mais velho que Bickel, o sueco Erik Nilsson nasceu em 6 de agosto de 1916, na cidade de Limhamn, onde começou a jogar na equipe local. Rapidamente chegou ao Malmö, que na época disputava a segunda divisão e não havia se tornado um dos gigantes do país. Aos 18 anos, já era titular no lado esquerdo da defesa, posição em que atuaria por toda a carreira, mesmo após a mudança do sistema 2-3-5 (ou “pirâmide”) para o WM.

O acesso com o clube à elite da Allsvenskan viria em 1936. Depois de duas boas temporadas pelo Malmö, ele seria incluído no grupo de convocados da Suécia para a Copa do Mundo da França, em 1938. Ficaria de fora tanto na goleada aplicada sobre Cuba nas quartas de final quanto na sofrida diante da Hungria nas semifinais, ganhando uma chance apenas na decisão de 3º lugar contra o Brasil, em 19 de junho em Bordeaux. Os suecos abririam dois gols de frente no primeiro tempo, mas os brasileiros, comandados por um trio ofensivo que contava com Romeu, Leônidas e Perácio, reagiriam e venceriam por 4 a 2.

Aos 21 anos, Erik Nilsson era um dos mais jovens do elenco sueco naquele Mundial e visto como o futuro da defesa da seleção, provavelmente despontando dali a quatro anos, na próxima Copa. Só que, antes disso, entrou em cena a Segunda Guerra Mundial, que cancelou sine die a edição seguinte do torneio, ainda que, a exemplo da Suíça de Alfred Bickel, o futebol doméstico seguisse normalmente na Suécia, com neutralidade declarada e preservada durante o conflito. De modo que Nilsson precisaria aguardar um pouco mais para mostrar seu futebol ao mundo.

O primeiro grande torneio de seleções de nível mundial realizado após o fim da Segunda Guerra seria o dos Jogos Olímpicos de Londres, em julho e agosto de 1948. Embora excludente quanto a jogadores profissionais, a competição conseguia reunir algumas boas equipes de países nos quais o futebol era oficialmente amador, caso da Suécia. Com Erik Nilsson de titular na zaga, os nórdicos brilharam: bateram a Áustria por 3 a 0, arrasaram a Coreia (então um único país) por 12 a 0, passaram pela forte seleção dinamarquesa por 4 a 2 e, na decisão, levaram o ouro ao derrotarem a também forte equipe da Iugoslávia por 3 a 1, jogando no lendário palco de Wembley.

No âmbito clubístico nacional, a década de 1940 representou a consolidação do Malmö como força no futebol sueco. Tendo sempre Nilsson – zagueiro esquerdo alto, de grande porte físico e muito sólido – liderando seu setor defensivo, o time celeste levantou seu primeiro título em 1943 e conquistou um tricampeonato na virada do decênio, entre 1949 e 1951, sustentando uma série invicta de 49 jogos pela liga e chegando a golear o IFK Gotemburgo por 9 a 2.

Nesse interim, no fim de 1949, o clube veio ao Brasil em excursão por São Paulo e Rio de Janeiro, na primeira visita de Nilsson ao país. Embora a equipe tenha demonstrado fragilidade, perdendo quase todos os jogos por goleada, as atuações do defensor foram aclamadas. A excursão também serviu de ensaio ao futebol sueco para a Copa do Mundo do ano seguinte. Nas Eliminatórias, a seleção superou facilmente a Irlanda (além da Finlândia, que desistiu durante a disputa).

Mas no Mundial, os suecos não despontaram como favoritos à classificação ao quadrangular decisivo, ao serem sorteados no mesmo grupo da Itália, que contava também com o Paraguai. Mesmo desfalcada dos jogadores do Torino falecidos na tragédia de Superga, um ano antes, a Azzurra contava com uma boa equipe e teria a torcida da grande comunidade italiana da cidade de São Paulo, sua sede na primeira fase. Porém, os escandinavos surpreenderam já de saída.

Depois de saírem atrás no marcador logo aos sete minutos, os suecos viraram o jogo ainda no primeiro tempo e ampliaram para 3 a 1 na volta do intervalo. Apenas no fim os italianos diminuíram, mas não escaparam de frustrar a torcida que lotou o Pacaembu. Em seguida, jogando no Durival de Britto, em Curitiba, os suecos abriram 2 a 0 diante do Paraguai, mas sofreram o empate dos guaranis dirigidos por Manuel Fleitas Solich. De todo modo, avançariam graças à Itália, que enfim confirmou seu favoritismo e derrotou os sul-americanos por 2 a 0.

No quadrangular final, os suecos deram o azar de enfrentar logo de cara um Brasil que atingia seu auge dentro da competição – especialmente Erik, que já havia sofrido com Leônidas e companhia na França, 12 anos antes. A goleada por 7 a 1 para os favoritos ao título foi seguida por outro revés, agora diante do Uruguai, num jogo em que os suecos abriram o placar logo aos cinco minutos e foram para o intervalo vencendo por 2 a 1, mas sofreram a virada para 3 a 2 perto do fim da partida.

No último jogo, contra a Espanha no Pacaembu, disputado simultaneamente ao que entraria para a história como o “Maracanazo”, os escandinavos saíram felizes: Erik Nilsson ajudou a conter o fantástico ataque ibérico, e a equipe bateu de maneira surpreendente a favorita Fúria por 3 a 1, subindo um degrau em relação ao quarto posto conquistado na Copa anterior. De volta ao país, ao fim daquele ano, o zagueiro esquerdo, apelidado “Mäster Erik” pelos torcedores, seria eleito o melhor jogador sueco de 1950.

Naquele fim da década de 1940, em especial após a conquista do ouro olímpico e a boa campanha no Mundial do Brasil (principalmente por terem eliminado a Itália), o mercado italiano foi atrás dos jogadores suecos com voracidade. O próprio Erik Nilsson recebeu uma proposta do Milan. Há duas histórias correntes sobre o insucesso da transferência: algumas fontes afirmam que o clube italiano desistiu do negócio ao saber que se tratava de um jogador de 34 anos, enquanto outras dão conta de que o jogador simplesmente disse não, sem desejo de deixar seu clube e seu país por nenhum dinheiro.

A segunda hipótese faz bastante sentido. Erik Nilsson tinha personalidade retraída, sendo avesso a badalações e celebrações, vivendo quase recluso com a esposa. Conciliava os treinos e jogos pelo Malmö com um emprego nas estradas de ferro. Porém, infelizmente, seu declínio como jogador seria rápido após o Mundial do Brasil e o tricampeonato com o clube. Responsabilizado pelo gol do AIK que decretou o fim da série invicta de 49 jogos no campeonato nacional, seu prestígio sofreu um abalo, ainda que voltasse a disputar os Jogos Olímpicos pela seleção em Helsinque, em 1952, ficando com a medalha de bronze.

Também teve tempo de uma última glória, a conquista de mais uma liga pelo Malmö em 1953, seu último ano de carreira, antes de pendurar as chuteiras aos 37 anos. Para se ter uma ideia de sua influência na defesa da equipe, basta dizer que o clube despencou do título para a sétima posição (entre 12 times) na temporada seguinte, e só voltaria a levantar a taça em 1965. Afastado da bola, Erik Nilsson faleceu em setembro de 1995, aos 79 anos, na cidade litorânea de Höllviken.