Enquanto a análise da temporada continua, a seleção holandesa já avança em sua preparação para a Copa. Na última terça, a equipe viajou para Lagos, em Portugal, onde faz uma preparação especial – pensando até em climas mais instáveis como o brasileiro (na quarta, a chuva foi pesada na cidade da região do Algarve; nesta quinta, o tempo ficou totalmente ensolarado).

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Durante a semana, quem faltava foi chegando, até Robben completar o grupo de 26 (quatro dos 30 foram convocados para a seleção sub-21: Rekik, Vilhena, Promes e Boëtius). E os dois principais jogadores que faltavam no elenco da Oranje trouxeram um bom ar de otimismo. Sneijder pareceu mais magro do que andava, nos últimos tempos, e avisou: “Eu me sinto bem, e aposto que posso ser importante”. Robben não deixou por menos: “Joguei 120 minutos no último fim de semana, não tenho a menor dúvida sobre minha condição física”.

Mas isso tem a ver com a seleção. O que se faz aqui ainda é a retrospectiva do Campeonato Holandês 2013/14. E a observação dos nove primeiros colocados do torneio deixa notar que o Ajax, tetracampeão, não foi o clube mais empolgante. As reações de ADO Den Haag, Groningen e até de PSV trouxeram mais emoção a um torneio que foi mais enfadonho do que os anteriores vinham sendo. Enfim, vamos encerrar a avaliação desta Eredivisie recém-encerrada.

ADO Den Haag

Colocação final: 9ª colocação, com 43 pontos
Técnico: Maurice Steijn (até a 22ª derrota) e Henk Fräser (desde a 23ª derrota)
Maior vitória: ADO Den Haag 4×1 Utrecht (31ª rodada)
Maior derrota: Zwolle 6×1 ADO Den Haag (9ª rodada)
Principal jogador: Tom Beugelsdijk (zagueiro)
Artilheiro: Mike van Duinen (8 gols)
Copa nacional: eliminado na terceira fase, pelo MVV
Competição continental: nenhuma
Nota da temporada: 6,5

No início do returno, o Den Haag parecia daqueles clubes cuja queda de produção fazia prever o rebaixamento: nas cinco primeiras rodadas, três derrotas e um empate. Bastou para que Maurice Steijn, desde 2012 no clube, fosse demitido. E para que Henk Fräser, interino, na comissão técnica desde 2010, assumisse a bucha de canhão na base do “perdido por um, perdido por mil”. Na mesma toada, o time começou a atuar principalmente preocupado com a defesa.

E o time empatou uma. Ganhou outra. Ganhou mais outra. Segurou o empate ainda em outra. O resultado? Uma impressionante sequência de nove partidas de invencibilidade, com cinco empates e quatro vitórias. De ameaçado pelo rebaixamento, os auriverdes começaram a sonhar até com vaga nos playoffs por Liga Europa. De quebra, a raça de Tom Beugelsdijk, na defesa, tornou-se um símbolo daquela equipe, sem que Van Duinen deixasse de fazer gols. O nono lugar chegou com um gosto bem saboroso.

AZ

Colocação final: 8ª colocado, com 47 pontos
Técnico: Gertjan Verbeek (até a 8ª rodada), Martin Haar (interino, somente na 9ª rodada) e Dick Advocaat (desde a 10ª rodada)
Maior vitória: AZ 4×0 RKC Waalwijk (26ª rodada)
Maior derrota: AZ 1×5 Heerenveen (18ª rodada)
Principal jogador: Aron Jóhannsson (atacante)
Artilheiro: Aron Jóhannsson (17 gols)
Copa nacional: eliminado nas semifinais, pelo Ajax
Competição continental: Liga Europa (eliminado nas quartas de final, pelo Benfica)
Nota da temporada: 7

Os Alkmaarders tiveram certa turbulência nesta temporada. Embora imprevista e até injusta, a demissão de Gertjan Verbeek foi natural, pelo que se soube: afinal de contas, havia “fadiga de materiais”, o treinador não tinha mais o que tirar da equipe. O problema foi ter feito isso já com o campeonato em andamento. A solução? Correr atrás de Dick Advocaat, tradicional “bombeiro”, tanto em times quanto em seleções. Claro, Advocaat trouxe o seu pacote: um estilo de jogo conservador. Isso não permitiu ao AZ sonhar com grandes voos no Campeonato Holandês. Mas teve um lado bom, a começar pela honrosa campanha na Liga Europa.

E a defesa da equipe foi mais regular do que em tempos passados. Meio-campistas como Nemanja Gudelj supriram a saída de Martens. E Aron Jóhannsson foi mais um atacante a despontar no clube de Alkmaar. Essa regularidade permitiu ao AZ ter vaga nos play-offs da Liga Europa. Mas a timidez ofensiva certamente prejudicou a equipe, que não resistiu à vontade maior do Groningen e ficou fora da competição continental. É ver se Marco van Basten dará sequência ao bom trabalho que fez no Heerenveen. Bom ambiente, ele terá, ao contrário do que Verbeek tinha…

Groningen

Colocação final: 7ª colocação, com 51 pontos
Técnico: Erwin van de Looi
Maior vitória: NEC 1×4 Groningen (1ª rodada) e Groningen 4×1 RKC Waalwijk (7ª rodada)
Maior derrota: Twente 5×0 Groningen (8ª rodada)
Principal jogador: Filip Kostic (meio-campista)
Artilheiro: Richairo Zivkovic e Filip Kostic (11 gols)
Copa nacional: eliminado nas oitavas de final, pelo NEC
Competição continental: nenhuma
Nota da temporada: 7,5

No início da temporada, o objetivo primordial do Groningen era chegar aos play-offs por vaga na Liga Europa. O Orgulho do Norte até tinha time para isso. Na defesa, o goleiro Marco Bizot e o zagueiro Eric Botteghin eram os destaques, enquanto Tjaronn Chery, atacante de origem, demonstrou talento insuspeito para o meio-campo. E o atacante Richairo Zivkovic, de 17 anos, mostrou talento tão rapidamente que o Ajax tratou de garantir rapidamente a sua contratação para a próxima temporada. E enquanto Zivkovic trazia a velocidade e a motivação, Filip Kostic era mais cerebral.

Contudo, o time nunca conseguia decolar de vez. Até a 29ª rodada, o time patinava no início da parte inferior da tabela. Foi quando começou outra ascensão irresistível na Eredivisie: seis vitórias seguidas, e vaga garantida nos play-offs por lugar na Liga Europa. Nas duas primeiras partidas, bem entrosada e motivada, a equipe não tomou conhecimento do Vitesse. Finalmente, soube entrar no jogo mais truncado do AZ, na decisão dos play-offs, para vencer categoricamente na volta e cumprir o objetivo que tinha: a vaga na Liga Europa. Uma reação exemplar.

Vitesse
Piazon é o grande destaque do Vitesse na temporada

Piazon é o grande destaque do Vitesse na temporada

Colocação final: 6º colocado, com 55 pontos
Técnico: Peter Bosz
Maior vitória: PSV 2×6 Vitesse (16ª rodada)
Maior derrota: Twente 2×0 Vitesse (24ª rodada)
Principal jogador: Mike Havenaar e Lucas Piazon (atacantes)
Artilheiro: Lucas Piazon (11 gols)
Copa nacional: eliminado nas oitavas de final, pelo Roda JC
Competição continental: Liga Europa (eliminado na terceira fase preliminar, pelo Kuban Krasnodar-RUS)
Nota da temporada: 7

Na última coluna, falou-se que o Utrecht foi a maior decepção da temporada. Mas também falou-se de clubes que poderiam ser considerados decepcionantes no campeonato. O PSV foi “perdoado” pela reformulação por que ainda passa (e talvez passará). Mas o Vitesse, sem dúvida nenhuma, bem pode se juntar aos Utregs. Talvez seja uma decepção até pior. Afinal de contas, ao final do primeiro turno, não era exagero sonhar até com o primeiro título holandês de sua história. Motivos não faltavam: as boas atuações de Lucas Piazon e Havenaar e a coesão do time.

Porém, no segundo tempo, isso desmoronou o suficiente para o sonho acabar. Não foi só pelas brigas internas que eclodiram entre acionistas e ex-acionistas. Claro, isso também prejudicou. Mas Lucas Piazon e Havenaar também caíram de produção no returno. Atsu, Leerdam e Ibarra tomaram o destaque, mas não evitaram a queda da equipe, que rapidamente perdeu espaço para Twente e Feyenoord. Pior, perdeu espaço para o PSV. Pior ainda: perdeu a vaga na Liga Europa, via play-offs, para o Groningen, superada facilmente. E assim o sonho de ser um “novo grande” se afasta mais.

Heerenveen

Colocação final: 5º colocado, com 57 pontos
Técnico: Marco van Basten
Maior vitória: AZ 1×5 Feyenoord (18ª rodada)
Maior derrota: Ajax 3×0 Heerenveen (24ª rodada)
Principal jogador: Alfred Finnbogason (atacante)
Artilheiro: Alfred Finnbogason (29 gols)
Copa nacional: eliminado nas oitavas de final, pelo AZ
Competição continental: nenhuma
Nota da temporada: 7,5

O Heerenveen foi o time mais regular nesta temporada atual. De longe. Mais até do que o líder Ajax. Nunca exibiu nem mais nem menos do que podia: foi um time correto, fez o que podia fazer. E isso já foi o suficiente para uma ótima campanha, apagando totalmente o mau desempenho da temporada passada – e até representando, de certa forma, o primeiro trabalho de Marco van Basten que não teve turbulência alguma. Claro, o principal responsável por isso foi Alfred Finnbogason.

O islandês venceu a disputa particular com Graziano Pellè, foi mais regular e mereceu tornar-se o artilheiro deste Campeonato Holandês. Mas o islandês dificilmente encheria as redes de gols não fosse o crescimento de produção de Hakim Ziyech, aos poucos despontando como armador. E no fim da temporada, Luciano Slagveer e Bilal Basacikoglu ainda aceleraram um ataque que dependia demais de Finnbogason. Não deu para chegar à Liga Europa, mas deu para fazer uma boa campanha. É ver se a regularidade continuará sob o novo técnico, Dwight Lodeweges, em 2014/15.

PSV

Colocação final: 4º colocado, com 59 pontos
Técnico: Phillip Cocu (até a 30ª rodada; posteriormente, em recuperação de uma cirurgia para remoção de tumor benigno na região lombar, Cocu foi substituído pelo auxiliar Ernest Faber)
Maior vitória: PSV 5×0 NEC (2ª rodada)
Maior derrota: PSV 2×6 Vitesse (16ª rodada)
Principal jogador: Memphis Depay (atacante)
Artilheiro: Jürgen Locadia (13 gols)
Copa nacional: eliminado na terceira fase, pelo Roda JC
Competição continental: Liga dos Campeões (eliminado nos play-offs, pelo Milan) e Liga Europa (eliminado na fase de grupos)
Nota da temporada: 7

Podia ter sido bem pior. Com um time bastante renovado, sob um novo técnico (que praticamente inicia a carreira – afinal, Phillip Cocu só fora auxiliar e treinara a equipe de aspirantes), o PSV poderia esperar uma temporada irregular. Esperar uma decepção era natural. Mas ela vinha sendo pior do que o esperado, ao fim do primeiro turno, quando o time chegou a ficar oito partidas sem vencer, caindo até para a oitava colocação. Só que os Boeren conseguiram se assentar mais na metade final do campeonato.

Alguns destaques caíram de produção, como Bakkali e Maher (este, a grande decepção do campeonato entre os jogadores). Mas Depay e Locadia sustentaram a ascensão do ataque, que ainda foi fortalecido pela volta de Narsingh. No meio-campo, até surpreendentemente, Park Ji-Sung revelou boas atuações enquanto Wijnaldum ficava fora. A ascensão discreta ainda rendeu um lugar na 3ª fase preliminar da Liga Europa. Claro, há coisas a corrigir: a má forma nos duelos fora de casa, por exemplo. Mas o bom final de Holandês deixa a impressão de que dias melhores virão.

Twente

Colocação final: 3º colocado, com 63 pontos
Técnico: Michel Jansen
Maior vitória: Twente 6×0 Utrecht (3ª rodada)
Maior derrota: Ajax 3×0 Twente (29ª rodada)
Principal jogador: Quincy Promes (atacante)
Artilheiro: Dusan Tadic (16 gols)
Copa nacional: eliminado na segunda fase, pelo Heerenveen
Competição continental: nenhuma
Nota da temporada: 8,5

A bem da verdade, já dava para prever desde o começo do campeonato que o Twente tinha aprendido com a queda desnecessária do final da temporada passada, em razão de uma perda inexplicável de equilíbrio, até emocional. Com três vitórias nas três primeiras rodadas (o que incluiu até vitória em cima do Feyenoord, em pleno De Kuip), a equipe renovada mostrava que jorraria velocidade e empolgação durante toda a temporada. Do resto, cuidaria o talento. Se ele não viesse, teria ficado bem mais difícil.
Mas ele veio com Dusan Tadic, que reafirmou o que já mostrara no ano passado: ser um bom ponta de lança, que poderia até ser observado por clubes médios de centros maiores da Europa. Ou com Luc Castaignos, que fez gols em um ambiente mais adequado a seu estilo de jogo, após passar (quase literalmente) pela Internazionale. Ou com Quincy Promes, ponta veloz que tem chances reais de ir à Copa. Sem veteranos como os aposentados Boschker e Wisgerhof, o futuro pertence à jovem guarda do Twente.

Feyenoord

Colocação final: Vice-campeão, com 67 pontos
Técnico: Ronald Koeman
Maior vitória: Feyenoord 5×0 Go Ahead Eagles (29ª rodada)
Maior derrota: Feyenoord 1×4 Twente (2ª rodada)
Principal jogador: Graziano Pellè (atacante)
Artilheiro: Graziano Pellè (23 gols)
Copa nacional: eliminado nas quartas de final, pelo Ajax
Competição continental: Liga Europa (eliminado nos play-offs, pelo Kuban Krasnodar-RUS)
Nota da temporada: 8

O Feyenoord tinha tudo para poder sonhar com o fim do jejum de títulos no Campeonato Holandês que já dura 15 anos. Um time equilibrado, que segue aguerrido. Jogadores promissores em todos os setores: De Vrij, Martins Indi, Clasie, Vilhena, Boëtius… e Pellè, com essa impressionante mania de fazer gols. Todos sob o comando de Ronald Koeman, um técnico renascido no Stadionclub. E havia também a torcida, sempre fervorosa e acompanhando a animação da equipe. E a equipe chegou preparada para dar, no returno, o salto necessário para voltar a ser campeã holandesa.

Mas empates contra Vitesse e Twente, além da derrota no Klassieker para o Ajax, minaram as chances do título. Pior, exerceram papel fundamental para Ronald Koeman se decidir por sair da equipe ao fim da temporada. E protagonistas como Pellè estavam instáveis emocionalmente (o italiano até foi suspenso pelo clube). Pelo menos, o time se recompôs para conseguir uma arrancada que o levou ao vice-campeonato. Resta ver o que será com Fred Rutten no comando. E com as prováveis saídas de alguns jogadores indiscutíveis, como De Vrij, Janmaat e Pellè.

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Ajax

Colocação final: Campeão, com 71 pontos
Técnico: Frank de Boer
Maior vitória: Ajax 6×0 Go Ahead Eagles (8ª rodada)
Maior derrota: PSV 4×0 Ajax (7ª rodada)
Principal jogador: Lasse Schöne (meio-campista)
Artilheiro: Kolbeinn Sigthórsson e Davy Klaassen (ambos com 10 gols)
Copa nacional: Vice-campeão
Competição continental: Liga dos Campeões (eliminado na fase de grupos) e Liga Europa (eliminado na segunda fase, pelo Red Bull Salzburg-AUT)
Nota da temporada: 8,5

O início da temporada assustou a torcida do Ajax. Basta comparar o desempenho da defesa até a 7ª rodada, que pode ser considerado o marco para a virada Ajacied rumo ao tetracampeonato nacional, inédito na história do clube. Até ela, na temporada 2012/13, o time levara seis gols. Índice que foi alcançado na quarta rodada, em 2013/14. De quebra, a equipe de Frank de Boer parecia torta, taticamente. Nem conseguia armar jogadas com base no toque de bola, nem era veloz o suficiente para marcar contra-ataques adversários. Para piorar, o temor de perder Eriksen se concretizou. Aí, algo teve de mudar.

A equipe que se impunha naturalmente nos últimos três títulos tornou-se mais resguardada, menos brilhante. Mesmo no ataque: atrapalhado por lesões, Siem de Jong deu lugar a Sigthórsson, mais finalizador. Porém, também houve boas novidades: Klaassen e Cillessen, as melhores delas. No meio-campo, enquanto Serero se desdobrava na marcação, Schöne assumiu brilhantemente o papel de pensar o jogo. Houve esperanças até na Liga dos Campeões, mas elas caíram. E o clube teve de se contentar com mais um Campeonato Holandês. Significativo, pelo tetra. Mas também mais melancólico.

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