Na última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo, e depois de ouvir a maioria dos comentaristas dizer que dificilmente conseguiria avançar às oitavas de final, os Estados Unidos viram-se em ótima posição para quebrar a banca e contrariar os prognósticos. Bastava empatar com a Alemanha ou perder de pouco, torcendo para Portugal não se esfacelar contra Gana, e a tática que Jurgen Klinsmann colocou no gramado da Arena Pernambuco foi voltada justamente para isso.

Antes de mais nada, provavelmente os EUA gostariam de jogar mais com a bola no pé se a Alemanha permitisse, mas a troca de passes alemã é incessante. Em certos momentos, como na foto abaixo, não havia jogador, de qualquer um dos países, no campo que recebeu a meta defendida por Manuel Neuer. Era praticamente uma partida de handebol.

Todos os 20 jogadores de linha no campo de ataque da Alemanha (Bruno Bonsanti/Trivela)

Todos os 20 jogadores de linha no campo de ataque da Alemanha (Bruno Bonsanti/Trivela)

Os americanos, predispostos a defender desde o apito inicial, fecharam-se ainda mais em seus casulos. A Alemanha entrou sem Khedira, com Lahm e Schweinsteiger começando os trabalhos no meio-campo para uma linha de três armadores, com Özil à direita, Kroos pelo meio e Podolski à esquerda. Müller, flutuava. Isso chegou a acuar os EUA a ponta de eles defenderem com mais da metade dos jogadores dentro da área.

EUA forma uma linha de seis defensores dentro da área (Bruno Bonsanti/Trivela)

EUA forma uma linha de seis defensores dentro da área (Bruno Bonsanti/Trivela)

Klinsmann colocou Kyle Beckerman à frente da defesa. Quase todas as saídas de bola saíram dos pés de Howard direto para ele. Mas a criatividade não parece ser o forte do veterano com cabelo rastafári. Muitos passes de lado, pouca criação e velocidade. Era difícil manter a posse de bola por muito tempo se os problemas já começavam lá atrás. “Passamos várias partes do jogo vendo o outro time tocar a bola”, explicou Dempsey. “Tínhamos que escolher bem nossos movimentos, garantir que trocássemos mais de dois passes, mexer a bola. Não fizemos isso do jeito que gostaríamos”.

O resultado foi que os dois principais talentos do time – ele e Michael Bradley – foram praticamente as únicas armas do time americano, já que Graham Zusi e Brad Davis, os meias mais abertos, também estavam mais preocupados em se defender. Além de sobrecarregados, estiveram em um dia ruim tecnicamente. Erraram domínios, Bradley acertou um ou outro lançamento, e Dempsey parecia travado, sem aquela rapidez de pensamento com a qual os torcedores americanos se acostumaram. Estivessem voando, poderiam contra-atacar, criar algum perigo a Neuer (foram apenas três chutes, nenhum no gol) e fazer a tática funcionar. “Não tivemos as chances que gostaríamos”, justificou. “Tivemos mais contra Portugal, mas acho que mostramos caráter em termos do que queríamos para a partida. Conseguimos passar em um grupo difícil, não importa como isso aconteceu”.

Depois de sofrer o gol de Thomas Müller, em uma jogada de bola parada, Klinsmann adiantou um pouco mais a sua equipe, como mostra a foto abaixo, com quatro jogadores na linha de meio-campo para iniciar o ataque, e trocou Davis, nulo ofensivamente, por Alejandro Bedoya. Realmente ficou mais perigoso às custas de compactação. Os jogadores ficaram mais distantes. “Talvez tenhamos respeitado demais no começo do jogo. Gostaríamos de ter criado mais chances, dado menos espaços”, lamentou o técnico.

Quatro jogadores dos EUA aguardam a bola na linha central, mas o time americano ficou mais afastado (Bruno Bonsanti/Trivela)

Quatro jogadores dos EUA aguardam a bola na linha central, mas o time americano ficou mais afastado (Bruno Bonsanti/Trivela)

Não foi o suficiente, embora Bedoya tenha tido uma boa chance nos minutos finais, frustrado por um carrinho salvador de Philipp Lahm. Dempsey ainda teve o cabeceio e colocou para fora. Mas sem problemas. Como muitos jogadores americanos ressaltaram, foi a “melhor derrota de nossas vidas”. Valeu vaga nas oitavas de final pela segunda Copa do Mundo seguida. Pragmatismo puro, que muitas vezes era associado justamente aos alemães. Já que chegaram atrasados para a festa, é com ele mesmo que os EUA vão dançar, tentando construir a sua história no futebol de primeiro nível.