Dois times da Premier League usam o serviço de análise genética de jogadores, segundo divulgado pelo jornal britânico The Independent. A prática traça um perfil físico dos jogadores, sua tendência a lesões em determinadas partes do corpo e pode, segundo a empresa que faz esse tipo de serviço, ajudar a personalizar a preparação de cada atleta. A empresa, DNAFit, revelou que trabalha com um grande clube europeu e com dois clubes da Premier League. Os clubes, porém, são deixados em sigilo. Uma atleta que trabalha com a empresa é a corredora Jenny Meadows, que compete nos 800 metros pelo Reino Unido. A atleta elogia a metodologia, que, segundo ela, a fez descobrir que ela precisava mudar seu treinamento.

“Eu me sinto um pouco triste que a tecnologia só tenha ficado disponível agora”, diz a corredora. “Nos últimos dois anos, eu tive dois grandes lesões, foi uma lesão no tendão de Aquiles que me deixou fora da Olimpíada de Londres em 2012. O perfil do DNA mostra que eu tenho tendência a lesões no tendão, o que eu realmente não sabia, então talvez eu pudesse ter mudado algo no meu treinamento. Ao invés de ir correr na rua, eu poderia fazer treinos mistos ou trabalhar na piscina”, afirma a atleta. Segundo Meadows, ela poderia ter se concentrado nos 800 metros rasos, sua especialidade, ao invés de treinar também para os 400 metros e aumentar o seu risco de lesões.

Segundo Keith Grimaldi, que comanda o departamento científico da DNAFit, os perfis genéticos dos atletas permitem que os especialistas possam identificar certos genes que o tornam mais propensos a um time específico de lesão e o tipo de nutrição individual para o esporte, para equilibrar o atleta baseado nos seus genes de força e resistência. Ainda segundo Grimaldi, não há como identificar um “gene Lionel Messi”, que indique que um jogador tem ou não talento para o futebol.

“Não transformaremos um jogador de quarta divisão em alguém com nível de Premier League, mas irá fazer uma pequena, mas importante, diferença que pode ter impacto a longo prazo”, afirmou Grimaldi à Press Association. “Quando a Inglaterra for para o Brasil, nós poderíamos saber com antecedência quem tem mais risco de sofrer de insolação ou queimaduras de sol, quem tem menos risco, quem está no meio. É uma informação útil e é muito melhor saber dela do que não saber”, justificou.

“Nós acreditamos que fazer o perfil pode ajudar em personalizar o treinamento, nós olhamos para cerca de 15 genes geralmente associado com força e resistência e nós vemos uma gama muito ampla entre os jogadores. Alguns são rápidos em pequenas distâncias, enquanto um jogador de muita resistência é capaz de cobrir cada parte do campo. Isso pode parecer óbvio, mas pode ajudar a individualizar o treinamento para um jogador”, diz ainda o representante da empresa.

A loucura em torno do uso da análise genética precisa ser controlada, segundo Grimaldi. Há pesquisas que pretendem indicar, já na infância, se uma criança tem capacidade para ser um campeão olímpico, mas o executivo diz que isso é bobagem. “Nós não temos nenhuma prova que a genética possa ser usada para escolher um esporte”, afirma.

A questão genética é muito debatida na Wada, agência mundial de controle anti-doping, e o chamado doping genético é um ponto significativo dentro da entidade. “O doping genético representa uma ameaça à integridade do esporte e à saúde dos atletas e como órgão internacional responsável por promover, coordenar e monitorar a luta global contra o doping no esporte de todas as formas, a Wada is investindo recursos significativos que permitirão a detecção do doping genético”.

A discussão ainda promete ser longa, mas será inevitável que o uso de algum recurso de análise genética esteja no esporte. O Cruzeiro, por exemplo, usa análise genética para justamente detectar as capacidades físicas dos jogadores e tentar minimizar os riscos de lesões, algo parecido com o que é feito nos clubes da Premier League. A tendência é que as análises aumentem – assim como a fiscalização sobre o uso que é feito da genética no esporte. Mas parece que pode ser uma boa ferramenta para os clubes e jogadores.