É verdade que o Chile não foi a campo com força máxima para o duelo contra a Holanda. Jorge Sampaoli preferiu poupar Arturo Vidal, que vinha de problemas físicos, em um jogo no qual o vigor deveria ser bastante exigido. Ainda assim, o jogo era decisivo para La Roja, tentando ficar com a primeira colocação do Grupo B e escapar do duelo com o Brasil nas oitavas de final. Não conseguiram superar a eficiência e a aplicação da Holanda de Louis van Gaal. No entanto, deixaram expostos defeitos e virtudes aos quais o Brasil deve prestar atenção no confronto deste sábado, no Mineirão.

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O Chile não se interessava pelo empate. A Holanda sabia e a partir disso Van Gaal montou o seu jogo. Sampaoli conta com uma equipe de futebol muito intenso e movimentação. A Roja não se furta de trocar passes curtos para trabalhar a posse de bola e dificultar a marcação adversária. Entretanto, também aposta bastante em bolas longas, para explorar justamente os buracos que surgem. Não à toa, os chilenos são os que mais correm nesta Copa, embora finalizem menos do que qualquer outro classificado às oitavas de final – um pouco também pela falta de um homem de definição claro.

A escalação do Chile contra a Holanda

A escalação do Chile contra a Holanda

Para fechar os espaços no Itaquerão, a Oranje atuou com um 5-3-2 bastante compacto. A linha defensiva ficava atenta às infiltrações constantes dos atacantes ou dos elementos-surpresa que partiam de trás no 3-4-1-2 chileno. Além disso, todos os 10 jogadores de linha holandeses se espalhavam por uma faixa de campo de não mais do que 30 metros, para dificultar os passes curtos da Roja.

No meio-campo, o trio formado por Aránguiz, Gutiérrez e Díaz trocava de posição constantemente, mas eram acompanhados de perto pelos três meio-campistas da Holanda: De Jong, Wijnaldum e Sneijder. O camisa 10, sobretudo, teve um papel importantíssimo nessa tática. Não foi tão impressionante no ataque, mas ficou grudado em Marcelo Díaz, o motor da equipe de Sampaoli, sobretudo no segundo tempo. Isso atrapalhou bastante a saída de bola dos chilenos, ficando sob a incumbência de Gary Medel. Não à toa, o líbero foi quem mais participou da partida, com 103 passes (contra 47 de Díaz) e 27 lançamentos (17 a mais do que qualquer outro companheiro).

Os passes de Medel e de Díaz na partida

Os passes de Medel e de Díaz na partida

Para fazer a função de Sneijder, Oscar será importantíssimo, até pelas qualidades sem a bola que já mostrou diversas vezes com a seleção. Entretanto, a marcação dos pontas brasileiros também será fundamental. Por mais que Jara e Silva, os outros homens que atuam na trinca de zaga chilena, abram bastante nas laterais para dar opção aos passes, tentar pressioná-los pode ser um erro. Afinal, pode dar ainda mais espaço aos alas do Chile partirem para cima de Daniel Alves e Marcelo, as principais fraquezas defensivas da Seleção.

Os dois homens abertos são fundamentais no jogo de Sampaoli. Contra o Brasil, devem jogar mais recuados, até pela exigência que terão de marcar Neymar e Hulk. Mas também participam intensamente da cadência de bola da Roja, trabalhando os passes. Isla é mais ativo pela direita, enquanto Mena costuma ser utilizado em inversões. Um perigo para os descuidos constantes de Daniel Alves.

zaga e meias

A movimentação dos alas e dos meio-campistas do Chile

Já na frente, a preocupação deve se concentrar principalmente em Alexis Sánchez. Enquanto Vargas ficou mais fixo pelo lado esquerdo contra os holandeses, o atacante do Barcelona foi quem mais deu trabalho aos europeus. Buscou o jogo, para desafogar seus companheiros, movimentando-se bastante sem a bola. Abriu brechas na linha defensiva, fundamentais para as arrancadas de Aránguiz (o melhor do time na competição, ao lado de Sánchez) e Gutiérrez. Tentou muitas jogadas individuais, arriscando o drible para clarear a marcação. Por causa dele, o jogo ofensivo tende a se concentrar um pouco mais pelo lado direito do ataque. E, por isso mesmo, contar com o vigor de Fernandinho é tão importante, ao invés de Paulinho e suas atuações apagadas no Mundial.

Uma grande virtude de Sampaoli é sua leitura de jogo e as variações que consegue fazer com o time. No início do segundo tempo, Jean Beausejour entrou e transformou o Chile em um 3-4-3, tentando forçar mais no ataque. Mas bastou Van Gaal também mudar o estilo da Holanda para o 4-3-1-2 para que o treinador respondesse de imediato, no 4-3-3, com Valdívia substituto. O meia do Palmeiras, aliás, foi razoavelmente bem na partida no Itaquerão. Não aguenta se movimentar tanto quanto os titulares, mas ajuda com sua visão de jogo nas infiltrações.

As diferenças entre a movimentação de Sánchez e Vargas

As diferenças entre a movimentação de Sánchez e Vargas

Outro ponto alto do trabalho de Sampaoli são as jogadas ensaiadas nas bolas paradas. A Roja não possui jogadores altos para apostar no chuveirinho todas as vezes. Por isso, varia com inversões e bolas abertas a jogadores que nem sempre estão marcados. Por detalhes, nenhuma jogada dessas deu certo contra a Holanda, embora algumas tenham aberto clarões no miolo de zaga.

E qual o melhor caminho para o Brasil vencer? Bem, a Holanda explorou duas preocupações já conhecidas do Chile. As melhores jogadas vinham em contra-ataques e arrancadas em velocidade de Arjen Robben e Jeremain Lens, a dupla de ataque. Como os chilenos pressionam de maneira adiantada no campo de ataque, acompanhar os adversários rápidos por mais de 40 metros costuma ser uma dificuldade. Além disso, a própria marcação chilena, basicamente no mano a mano, torna os dribles dos brasileiros uma boa maneira de forçar o erro e abrir os espaços.

Os desarmes e o posicionamento dos zagueiros, Silva e Jara

Os desarmes e o posicionamento dos zagueiros, Silva e Jara

Além disso, o Chile é o time mais baixo do Mundial. E as bolas aéreas são mesmo um grande problema do time. O perigo era constante nas faltas e nos escanteios para a Holanda. Por mais que Claudio Bravo seja bom nas saídas da pequena área, não era suficiente. Foi assim que a Oranje acabou abrindo o placar. E, com o Chile interessado na virada, os holandeses mataram a partida em um contra-ataque.

A escalação do Chile não é certa. Medel tem problemas físicos e é a maior dúvida, enquanto Vidal deve voltar ao time – e preocupa bastante, tanto pela potência nas chegadas ao ataque e nos arremates quanto pela forma como pressiona a saída de bola da defesa. O que o Brasil pode esperar mesmo, independente do 3-4-1-2 ou do 4-3-1-2, é esse futebol intenso da Roja, aproveitando bem as laterais e as infiltrações. Sem contar, é claro, do barulho marcante da torcida vermelha, que ecoou durante quase todo o tempo em Itaquera. Com Felipão consciente dessas questões, as dificuldades deverão ser menores contra um adversário que já demonstrou não respeitar o peso da camisa adversária, por mais que as lembranças sobre os brasileiros não sejam boas.