O Japão se tornou um destino muito comum para jogadores brasileiros nos anos 1990, mas perdeu força nos anos 2000. Com o fortalecimento de outros mercados asiáticos e a concorrência sempre forte dos clubes do Oriente Médio, o país passou a levar menos estrelas. A J-League chegou a ter jogadores da seleção brasileira em Copas do Mundo, como em 1998. Na época, o capitão Dunga atuava pelo Jubilo Iwata, enquanto seu companheiro de meio-campo, César Sampaio, jogava no Yokohama Flügels. Mas os brasileiros continuam sendo numerosos na J-League. Anderson Lopes é um deles.

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O ex-jogador do Atlético Paranaense foi para o Sanfrecce Hiroshima em 2016, depois de ficar sem espaço no Atlético Paranaense. Teve uma longa temporada no Japão, com o time escapando do rebaixamento por pouco. O Sanfrecce terminou em 15º lugar na tabela, uma posição acima do primeiro rebaixado, com um ponto a mais. O atacante terminou como artilheiro do time, com 10 gols marcados, em 40 jogos na temporada, contando todas as competições. Conversamos com Anderson sobre as diferenças em relação ao Brasil.

Trivela: Como foi a transferência para o Japão?

Anderson: Foi muito do nada. Eu estava no Atlético Paranaense, não vinha tendo oportunidades, e do nada surgiu a proposta para ir para o Japão. Não pensei duas vezes. Era um país que eu sempre quis conhecer. Meus empresários me disseram que meu estilo de jogo se encaixaria e decidir vir.

Como é a vida com a família aí no Japão?

A minha família no início foi um pouco difícil para se adaptar, eles estão amando o Japão. Eu não sei para onde vou ano que vem, ainda não está definido. Mas o que eles mais gostaram é da Disneyland, da Tóquio, o churrasco japonês. A vida por aqui é muito tranquila, eles gostam bastante.

O que mais chamou a atenção?

Olha, tudo. A educação principalmente. Para tudo eles agradecem. A limpeza também. Em campo, é mais a força física. Se você não estiver bem fisicamente, você não joga. Eles exigem um preparo físico maior do que no Brasil, por exemplo.

Como é a torcida do Sanfrecce?

Os torcedores aqui são nota 1000. Sem palavras. Eles são fã mesmo. Levam bandeirões, pedem para tirar foto, pedem autógrafos, às vezes as mesmas pessoas. É menos pressão que no Brasil, dá para jogar mais tranquilo. Não são de pegar no pé. Eles apoiam, sempre.

Em relação ao futebol, qual a maior diferença?

Aqui é muito mais correria. No Brasil é muito mais toque de bola, muito mais calma. É muita força física, muito ataque e defesa. Tem que estar muito preparado. Se não estiver muito bem preparado, você não joga.

Você jogou no Atlético Paranaense, que é uma referência em Centro de Treinamento no mundo. Como são os locais de treino no seu clube?

Aqui é tudo perfeito. Não se compara com o Atlético, tem um dos melhores CTs do Brasil. Mas aqui é perfeito, o campo de treinamento é bom, o estádio é bom. Me adaptei rápido, não tive dificuldade, porque as condições de trabalho são ótimas. Nesse time que eu estou, os mais novos, abaixo de 27 anos, treinam dois turnos, de segunda e terça-feira. E tem me ajudado muito. Pude crescer muito a forma física, meu arranque, meu chute. Eles ajudam a aprimorar o jogador.

São mais disciplinados?

Os japoneses são bem mais disciplinados, bem mais focados. Depois dos treinamentos, eles fazem um complemento. Às vezes o treino acaba ao meio-dia e eles só vão embora três, quatro horas da tarde, cuidam bem do corpo. A maioria dos jogadores japoneses é mais disciplinado, mas tem muitos jogadores japoneses bons, de qualidade. Não só no meu time, em muitos outros também.

As informações que temos é que os treinos focam muito mais na parte técnica. É verdade?

É mais uma questão de insistência. Eles treinam bastante mesmo, aprimoramento. Você se sente mais leve para o jogo, bem preparado. Como jogamos de sábado a sábado, dá para se recuperar. Os treinamentos por aqui ajudaram a desenvolver mais o meu chute, por exemplo. Eles tem uma boa preparação na parte técnica.

Seu time joga contra o rebaixamento. Como é o nível por aí?

Quando a gente vai jogar contra o Urawa Reds, que é um dos melhores times do país, a gente não sabe quem vai sair vencedor. O nível é bastante igual por aqui. No Japão, não tem times que atropelam sempre, mesmo entre os melhores colocado na liga.

Como é a diferença física para você, já que a preparação física é mais forte?

No Brasil eu corria algo em torno de nove quilômetros por jogo, até nove. Aqui no Japão eu estou correndo 11 quilômetros por jogo. A exigência física é maior e preciso estar muito mais preparado. Quando cheguei, não estava no meu melhor fisicamente e precisei treinar mais forte para chegar ao nível que a liga exige. Eu espero dar o melhor sempre para o Sanfrecce. Espero fazer gols mais decisivos.

Que avaliação você faz da temporada?

Foi uma temporada sofrida, longe do que desejávamos e imaginávamos. Mas acima de tudo não faltou dedicação, lutamos até o fim para manter o clube na primeira divisão e, felizmente, conseguimos. Fizemos um primeiro turno ruim, mas no segundo tivemos forças para recuperar e deixar o time onde ele merece estar, na elite do futebol japonês. Nosso objetivo era brigar pela parte de cima da tabela, mas as coisas não aconteceram. Temos que encarar isso como um aprendizado e levar para a sequência de nossas carreiras, foi uma experiência difícil mas no fim deu tudo certo.

E qual será o seu futuro? Continua no Japão?

Foi um ano bastante intenso e agora chegou a hora de descansar, quero aproveitar ao máximo esse período. Ainda não sei o que vai acontecer em 2018, espero definir o quanto antes. Mas, independente de qualquer coisa, só tenho a agradecer o clube. Completei um ano e meio aqui no Japão e nesse período vivi grandes experiências. O carinho que eu recebo dos torcedores é algo incrível. Nossa torcida faz a diferença e, mesmo num ano como esse, nunca desistiram de nós, estiveram ao nosso lado nos momentos mais difíceis.